'O Rei da Espanha': com novo filme autobiográfico em Cannes, Pedro Almodóvar é ovacionado na França
As revistas francesas desta semana destacam a carreira e a obra do diretor Pedro Almodóvar. Aos 76 anos e com um novo filme estreando no Festival de Cannes, o cineasta espanhol nunca conquistou a Palma de Ouro, o principal prêmio da mostra cinematográfica francesa, apesar de ter um estilo marcante e uma carreira reconhecida mundialmente.
Estampando a capa da revista M, do jornal Le Monde, Pedro Almodóvar é chamado pela publicação de "O rei da Espanha". E não é para menos: são 24 longas-metragens, cerca de 12 curtas, além de filmes de outros diretores produzidos por meio da produtora El Deseo, que dirige ao lado do irmão, Agustín. O cineasta espanhol também tem um estilo inconfundível, a revista, reconhecido internacionalmente.
A publicação destaca ainda que, apesar de todo esse reconhecimento e de ter concorrido sete vezes em Cannes, Almodóvar nunca foi premiado. Este ano, ele tem uma nova oportunidade de ganhar a Palma de Ouro com o filme autobiográfico "Amarga Navidad" (Natal amargo, em tradução livre).
Para a revista Le Nouvel L'Obs, o longa é um "autorretrato cru" do cineasta, um eco sutil de "Dor e glória", também autobiográfico, lançado em 2019, com Antonio Banderas no papel principal. "Amarga Navidad" conta a história de um cineasta em meio a uma crise criativa, interpretado pelo argentino Leonardo Sbaraglia, que busca inspiração para seu próximo filme quando uma tragédia atinge um de seus colaboradores mais próximos. Gradualmente, ele imagina Elsa, uma diretora em processo de escrita, cuja trajetória começa a espelhar a sua. Os dois cineastas tornam-se duas faces da mesma moeda, como em um labirinto de espelhos.
"Muitos dizem que tudo o que não é autobiográfico é mentira. Concordo plenamente com isso, na medida em que constato que a minha vida, em níveis variados, sempre foi uma fonte de inspiração", afirmou Almodóvar à Le Nouvel L'Obs.
"Fazer cinema é a razão da minha existência. O que vivo fora dele é um pretexto para usar nos meus filmes", acrescentou.
Do passado na telefonia ao sucesso mundial
Antes de se tornar conhecido pelos cenários vibrantes e pelas histórias passionais, o jovem Pedro Almodóvar - então cineasta underground, roqueiro e festeiro inveterado, além de nunca ter escondido sua homossexualidade - trabalhou por 12 anos na companhia telefônica nacional da Espanha. Considerado também um símbolo do despertar espanhol dos anos 1970, quando o país começava a se libertar da ditadura de Francisco Franco, ele só pôde se dedicar integralmente ao cinema após o sucesso de seu primeiro longa-metragem "oficial", "Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão", lançado em 1980.
Sobre seu trabalho mais recente, "Amarga Navidad", Almodóvar contou à Le Nouvel L'Obs que busca inspiração não apenas na própria vida, mas também em autores clássicos. Para ele, a França é um país com grandes "voyeurs da autoficção", citando escritores como Annie Ernaux e Emmanuel Carrère.
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