'Eu saí do Brasil para morrer aqui?': brasileira relembra o 11 de Setembro nos EUA
Recém-chegada aos Estados Unidos com o marido e duas filhas pequenas, Keila Menezes viveu o medo dos ataques de 11 de Setembro
O pano ainda estava na mão de Keila Menezes quando a dona da casa começou a gritar. "Ai, meu Deus. Ai, meu Deus. Ai, meu Deus". Ela estava na cozinha. O marido, Sebastião, passava o aspirador na sala, a poucos metros dali. Os dois tinham pressa: aquela era uma das casas que limpavam naquele dia, mas ainda havia outra faxina pela frente. A rotina era corrida, como quase sempre desde que chegaram a Atlanta, na Geórgia, até que a mulher correu pela casa em uma reação espontânea ao ataque do dia 11 de setembro de 2001.
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Keila se assustou, confusa. Havia apenas um ano que ela tinha deixado Goiânia e se mudado para os Estados Unidos com o marido e as duas filhas, de 6 e 2 anos. O inglês ainda era uma barreira e o pouco que aprendera na escola no Brasil não bastava para acompanhar uma conversa, muito menos para entender o que fazia aquela mulher chorar e gritar daquele jeito.
"Eu pensei que alguma coisa tivesse acontecido, ou ela tivesse atendido alguém, ou alguém da família tivesse morrido, porque ela gritou. Foi um grito de muito desespero". Com o pano ainda na mão, Keila foi atrás da dona da casa. Perguntava o que havia acontecido, mas mulher não conseguia responder. Apenas repetia "Ai, meu Deus" e apontava para a televisão da cozinha, momento que ficou marcado na memória da brasileira, 25 anos após o ataque.
Um avião havia acabado de atingir uma das torres do World Trade Center, em Nova York. As imagens mostravam fogo, fumaça e pessoas correndo. Depois, vieram imagens ainda mais difíceis de compreender: pessoas caindo das torres. Keila e Sebastião ficaram imóveis na cozinha.
“Eu não tinha muita noção de onde aquelas torres eram, em que estado, que cidade. Então, eu fui prestar atenção nas imagens para ver se eu tinha alguma ideia". A dona da casa, com telefone em mãos, ligando para familiares, pediu que os faxineiros fossem embora.
"Larga tudo, vai embora, larga tudo, porque a gente não sabe o que vai acontecer". Eles largaram a casa do jeito que estava.
'Pânico para todo mundo'
A escola de uma das meninas ligou, pedindo que os pais buscassem as crianças. Do lado de fora, o condomínio onde Keila trabalhava havia se transformado em um cenário de pânico. Pessoas saíam das casas, gritavam, choravam, telefonavam umas para as outras.
Carros passavam em alta velocidade, sinaleiros eram furados e os arredores das escolas congestionaram. A família buscou as filhas e voltaram para casa, onde a televisão foi imediatamente ligada.
Foi ali, diante das imagens das torres em chamas, que Keila percebeu que o que estava acontecendo. "E agora, onde vai ser o próximo?".
Enquanto as imagens se repetiam, o telefone começou a tocar. O primeiro a ligar foi o irmão de Sebastião, que tinha acesso ao telefone. Depois vieram as ligações para o Brasil. A família queria saber se eles estavam vivos. Amigos e parentes queriam notícias.
"Começou aquele tumulto", disse Keila. Todos falavam: 'Vem embora'. Não tinha como a gente ir embora". O espaço aéreo fechou e a família que havia investido na mudança, não conseguia deixar tudo para trás.
Foi nesse momento que Keila pensou em algo que, segundo ela, nunca esqueceu: "Eu saí do Brasil para morrer aqui? Assim?".
Atlanta tinha sediado os Jogos Olímpicos de 1996 e era um dos principais centros de transporte aéreo dos Estados Unidos. O aeroporto da cidade tinha um enorme movimento de passageiros.
Sem saber quantos ataques poderiam acontecer ou quais seriam os próximos alvos, a possibilidade de Atlanta também ser atingida circulava entre os moradores. Escolas permaneceram fechadas. Restaurantes fecharam. Alguns supermercados funcionavam apenas durante parte do dia. Muita gente estocou comida. Keila conta que a família, assim como várias outras, passou mais de um ano evitando alguns lugares que considerava de maior risco.
"A gente não podia parar de trabalhar, né? Tinha que pagar aluguel, tinha que pagar as despesas". A vida seguiu, mas não da mesma forma.
Nova vida para imigrantes
Não demorou para Keila perceber a energia da cidade mudar e o acúmulo de olhares. Como brasileira, não era o alvo óbvio da desconfiança. Mas seu cabelo preto e seus traços faziam com que algumas pessoas a associassem a pessoas do Oriente Médio. "As pessoas, quando eu entrava em algum lugar, iam olhar para mim assim, muito com medo. Algumas pessoas ainda pegavam as crianças e saíam de onde estavam".
"E, para não passar nenhuma agressão verbal, eu preferia ficar mais reclusa também".
Agora, os clientes questionavam de onde eram antes de contratarem o serviço de faxina. Quando ouviam que era brasileira, muitas vezes precisavam ouvir de alguém em quem já confiavam que Keila era uma pessoa segura.
"Eles falavam: 'Não, eles limpam para a gente, eles são brasileiros'". O casal não ouviu comentários xenofóbicos ou islamofóbicos diretamente, mas sentiram o receio a partir do dia 11 de setembro. De repente, eram vistos como ameaça e, com o passar dos anos, o medo se intensificou. Uma década depois, a família decidiu voltar ao Brasil, em meio a um cenário de maior pressão política contra imigrantes.
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