Estabilidade do regime do Irã mascara penúria social no país
Após 100 dias de guerra, regime do Irã exibe coesão e controle sobre o país, mas estabilidade esconde profunda crise econômica, repressão intensificada e contínuo descontentamento social.Há pouco mais de100 dias, os Estados Unidos e Israel lançaram uma ofensiva conjunta, atingindo alvos militares e estratégicos em todo o território do Irã.
Instalações-chave das forças armadas iranianas foram destruídas, e o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, foi morto, juntamente com diversos altos dirigentes políticos e militares.
A Assembleia dos Peritos do Irã escolheu o filho de Khamenei, Mojtaba, como novo líder supremo do país.
Teerã respondeu com ataques massivos de retaliação, utilizando mísseis e drones contra Israel, bases militares americanas e outros alvos na região do Golfo.
Como instrumento de pressão geopolítica, o Irã também fechou o Estreito de Ormuz — uma via marítima crucial entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, por onde passavam cerca de 20% das exportações globais de petróleo e gás antes do conflito.
O que mudou desde então?
Paz frágil, estruturas de poder resilientes
Um frágil cessar-fogo entrou em vigor há dois meses, em 8 de abril, inicialmente reduzindo as hostilidades. No entanto, a trégua mostra diversas rachaduras. Nesta segunda-feira (08/06), por exemplo, as Forças de Defesa de Israel comunicaram ataques a "alvos militares" no Irã, horas depois de o regime de Teerã lançar mísseis contra Israel como represália pelos ataques israelenses contra o grupo Hezbollah no Líbano.
"Não vejo mudanças estruturais na República Islâmica nos últimos 100 dias", disse Mohammad Ghaedi, especialista em Irã e professor da Universidade George Washington.
Segundo ele, antes da guerra já havia profundas divisões entre as elites políticas, e o distanciamento entre Estado e sociedade havia aumentado significativamente após a repressão a dissidentes.
Ghaedi afirma que a guerra ajudou a reduzir algumas dessas divisões, tanto entre as elites quanto entre o Estado e a sociedade.
"O nível de coesão entre as elites políticas que vemos hoje é relativamente raro no período pós-revolução. Essa coesão tem sido uma das principais fontes de resiliência", disse, alertando, porém, que isso não deve ser confundido com estabilidade duradoura.
"A República Islâmica ainda enfrenta grandes desafios, incluindo crises de legitimidade, eficácia e distribuição. À medida que as preocupações com segurança diminuírem, esses problemas devem voltar a se tornar mais visíveis e dificultar ainda mais a governança".
Reuniões noturnas e esperança em declínio
O regime iraniano mobilizou apoiadores que, por mais de três meses, vêm se reunindo em cidades e vilas para demonstrar lealdade ao sistema político e aos seus líderes.
Uma moradora de Teerã, que não participa dessas manifestações, disse que são eventos muito barulhentos. "Antes das 23h, é quase impossível dormir", contou. "É barulho o tempo todo e é exaustivo".
Uma ativista dos direitos das mulheres afirmou que essas reuniões têm como objetivo mostrar que o regime retomou o controle das ruas após a repressão aos protestos antigovernamentais em janeiro.
"Muitas pessoas ainda estão revoltadas com a repressão brutal", disse a ativista de 42 anos, que preferiu não se identificar. "Quase todo mundo no meu círculo conhece alguém que foi baleado, ferido ou preso".
Ela acrescentou que, desde o início da guerra, "quase ninguém acredita em mudanças positivas".
Para muitos desiludidos com o sistema político iraniano, a ideia de guerra parecia inicialmente um caminho rápido para a mudança de regime. Em janeiro, enquanto forças de segurança supostamente atiravam contra milhares de manifestantes, o presidente dos EUA, Donald Trump, prometeu ajuda. Durante as quase seis semanas de guerra entre EUA, Israel e Irã, cidades densamente povoadas foram bombardeadas várias vezes ao dia.
"Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais voltar", escreveu Trump em 7 de abril em sua rede, a Truth Social.
"Isso foi aterrorizante. Ainda não entendo como conseguimos suportar tudo", disse a ativista.
Além de alvos militares, os ataques também atingiram importantes instalações industriais, incluindo siderúrgicas e plantas petroquímicas. A paralisação nessas áreas provocou uma reação em cadeia, forçando dezenas de empresas dependentes a suspender atividades.
Entre o aumento da pobreza e a repressão intensificada
Dezenas de milhares de empregos foram perdidos no Irã desde o fim de fevereiro, com outras centenas de milhares de trabalhadores temendo pelo sustento.
A inflação ultrapassou 50%, reduzindo drasticamente o poder de compra. Com um salário mínimo equivalente a menos de 87 dólares por mês, muitos iranianos mal conseguem pagar por serviços básicos.
Segundo a ONG Anistia Internacional, "as autoridades iranianas prenderam arbitrariamente mais de 6 mil pessoas, incluindo manifestantes, jornalistas, advogados, defensores de direitos humanos, dissidentes e membros de minorias étnicas e religiosas" desde o início dos ataques.
"Durante o mesmo período, as autoridades impuseram penas de prisão de décadas e executaram pelo menos 39 pessoas por motivos políticos", informou a organização em 28 de maio.
Muitos iranianos dizem também enfrentar revistas frequentes em postos de controle, onde celulares e carros são inspecionados.
"Em muitos desses pontos, pessoas foram presas apenas por causa de suas publicações nas redes sociais", afirmou a ativista de direitos humanos Shiva Nazar Ahari.
Integrante de uma organização de base que documenta violações de direitos humanos, Ahari foi presa diversas vezes e cumpriu várias penas de prisão. Hoje vive na Eslovênia.
"O nível atual de repressão é extremamente severo", disse. "Muitas vezes nem está claro quem toma as decisões ou qual instituição está no controle — e essa incerteza pode ser a pior parte".
Após um bloqueio nacional da internet imposto pelo regime por 88 dias, o acesso foi parcialmente restabelecido no fim de maio, mas muitos serviços continuam restritos, dificultando a comunicação com o exterior.
"Nos últimos dias, soubemos que a maioria dos presos ligados aos protestos de janeiro ainda permanecem detidos", destacou Ahari.
"A atenção pública está voltada para as execuções, o que é obviamente muito importante. Mas as informações mostram que mesmo pessoas sem antecedentes criminais estão recebendo penas de pelo menos quatro a cinco anos, e em muitos casos mais de 10 anos".
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