"Está bem debaixo de seu nariz!": por que algumas pessoas não conseguem achar coisas que estão a plena vista
Seu cérebro não está apenas olhando - ele está prevendo. É por isso que você pode ficar olhando fixamente para um objeto e, mesmo assim, não vê-lo
Muitas famílias vão reconhecer essa conversa tão comum. Uma pessoa insiste que um objeto está sumido: impossível de encontrar, apesar dela descrever ter feito uma busca minuciosa e altamente competente. Outra pessoa entra, dá uma olhada rápida no mesmo lugar e aponta para ele quase imediatamente.
"Está bem debaixo de seu nariz!"
Essa situação frustrante (para ambos os lados da conversa) reflete algo real sobre como o cérebro funciona. Encontrar objetos em ambientes cotidianos depende de um processo chamado busca visual, e nossos cérebros são surpreendentemente imperfeitos nisso. Mesmo quando algo está bem na nossa frente, o cérebro pode deixar de registrar sua presença. Em outras palavras, estamos olhando sem ver.
À primeira vista, procurar algo parece simples. Você examina uma superfície — a bancada da cozinha, uma mesa, a gaveta de "tudo" — até que o item perdido apareça.
Mas o cérebro não consegue analisar todos os objetos em uma cena simultaneamente. Em vez disso, ele depende da atenção, selecionando certas características enquanto filtra o resto.
Os psicólogos costumam descrever a atenção como uma espécie de holofote que varre o campo visual. Onde quer que esse holofote incida, a informação é processada em detalhes. Tudo o que está fora dele recebe muito menos atenção.
Há uma razão anatômica prática pela qual o cérebro precisa mudar constantemente o foco do olhar. O centro da retina — a fóvea — proporciona nossa visão mais nítida. Mas ela cobre apenas uma pequena parte do campo visual, aproximadamente do tamanho da unha do seu polegar quando estendido à distância do braço. Para examinar uma cena adequadamente, nossos olhos precisam saltar repetidamente para que diferentes partes do ambiente caiam nessa pequena área de alta resolução.
Esses saltos são chamados de sacadas e ocorrem constantemente. Mesmo quando você pensa que está olhando fixamente para algo, seus olhos estão silenciosamente se movendo rapidamente de um ponto a outro.
Na maioria das vezes, esse sistema funciona notavelmente bem. Ele nos permite navegar por ambientes visualmente complexos sem ficarmos sobrecarregados de informações.
Olhar sem ver
Ver, ao que parece, não se resume apenas ao que chega aos olhos. Trata-se também do que o cérebro espera encontrar. Esse fenômeno é conhecido como cegueira por desatenção.
Uma das demonstrações mais famosas disso envolve um vídeo no qual os participantes assistem a um grupo de pessoas passando uma bola de basquete e são solicitados a contar o número de passes. Enquanto os espectadores se concentram na tarefa, uma pessoa vestida com uma fantasia de gorila caminha casualmente pela cena.
Aproximadamente metade dos espectadores nem percebe o gorila.
O gorila não está escondido. Ele atravessa diretamente o centro da tela. Mas o cérebro, focado em contar os passes da bola de basquete, simplesmente não consegue registrá-lo.
Você viu o gorila?
Se você já procurou suas chaves na bancada da cozinha e outra pessoa as pegou instantaneamente, você já experimentou o mesmo fenômeno.
Quando a informação visual chega ao cérebro, ela é processada por diferentes vias. Uma delas — frequentemente chamada de corrente dorsal — segue em direção ao lobo parietal do cérebro, uma área que desempenha um papel crucial na percepção espacial e na direção da atenção. Isso ajuda o cérebro a determinar onde os objetos estão no espaço. Esse sistema desempenha um papel crucial na orientação da atenção durante a busca visual.
Homens e mulheres buscam de forma diferente?
Ao descrever esse momento doméstico familiar, evitei invocar um estereótipo específico. Aquele em que é meu marido quem não consegue encontrar o objeto que está bem na sua frente.
Estudos sobre tarefas de busca visual encontraram pequenas diferenças em como homens e mulheres examinam cenas complexas. Em média, as mulheres tendem a se sair um pouco melhor na localização de objetos em ambientes desorganizados, enquanto os homens costumam se sair melhor em tarefas que envolvem navegação espacial em grande escala ou a rotação mental de objetos em três dimensões.
As razões para isso ainda são alvo de discussão, mas parte da resposta pode estar na forma como movemos os olhos durante a busca.
A busca visual depende da mudança do nosso olhar de um ponto para outro — as já mencionadas "sacadas". Estudos de rastreamento ocular mostram que algumas pessoas tendem a examinar uma cena metodicamente, movendo o olhar em um padrão mais sistemático. Outras fazem saltos maiores pelo campo visual.
Uma varredura sistemática tem mais chances de cobrir todas as partes de uma superfície desorganizada, aumentando as chances de localizar algo pequeno, como um par de chaves ou uma tesoura de cozinha. Saltos maiores, por outro lado, podem ignorar áreas inteiras, deixando um objeto à vista, mas que nunca chega a ser captado pelo foco de atenção do cérebro.
Alguns psicólogos evolutivos sugeriram que essas tendências podem ter profundas raízes históricas nas sociedades de caçadores-coletores. Mas há poucas evidências para isso. A experiência, a familiaridade com um ambiente e simples diferenças de atenção provavelmente importam muito mais do que apenas o gênero.
Em última análise, a busca visual se assemelha menos a examinar uma fotografia e mais a executar um algoritmo de previsão. O cérebro adivinha constantemente onde algo provavelmente está e direciona a atenção de acordo com isso.
Na maioria das vezes, essas previsões estão corretas. Ocasionalmente, não estão, e um objeto à vista de todos não corresponde às expectativas do cérebro.
O que significa que, da próxima vez que alguém insistir que procurou em todos os lugares, pode muito bem estar dizendo a verdade. A pessoa simplesmente não procurou da maneira certa.
Michelle Spear não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.