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Esquerda alemã defende conceder direito ao voto a estrangeiros

28 mai 2026 - 16h36
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Projeto de lei do partido A Esquerda quer permitir que estrangeiros residentes há mais de cinco anos votem em eleições locais e federais na Alemanha. Proposta enfrenta forte oposição e exigiria mudanças na Constituição.Um projeto de lei apresentado pelo partido alemão A Esquerda (Die Linke) que propõe conceder a estrangeiros o direito de voto provocou controvérsia no Bundestag, a câmara baixa do Parlamento alemão. A proposta, protocolada na última quinta-feira (21/05), prevê que cidadãos de qualquer nacionalidade que vivam legalmente na Alemanha há mais de cinco anos possam votar em eleições locais e federais.

Mesários observam eleitor depositando cédula eleitoral em Berlim. Ao menos 14 milhões de pessoas que vivem na Alemanha são estrangeiras
Mesários observam eleitor depositando cédula eleitoral em Berlim. Ao menos 14 milhões de pessoas que vivem na Alemanha são estrangeiras
Foto: DW / Deutsche Welle

"Embora vivam na Alemanha, trabalhem, paguem impostos, participem da vida social e cultural e frequentemente tenham filhos que crescem aqui como alemães, milhões de pessoas imigradas não podem decidir quem as governa nem quais devem ser as diretrizes políticas que moldam seu cotidiano", argumentou o partido, que considera tal realidade insustentável à luz da Lei Fundamental, a Constituição alemã.

A legenda avalia que o país vive um "déficit democrático" ao impor deveres a esses imigrantes sem lhes conceder determinados direitos. Segundo a justificativa apresentada, a população estrangeira residente na Alemanha vive no país há, em média, 15 anos — grande parte desse tempo sem poder escolher seus representantes.

Atualmente, 14 milhões de pessoas que moram na Alemanha — um país de 83 milhões de habitantes — são estrangeiras. Entre elas, 5 milhões são cidadãos da União Europeia, o que lhes garante o direito automático de voto nas eleições municipais.

Para os outros 9 milhões, a única forma de participar do processo eleitoral é tornar-se alemão. O procedimento de naturalização foi flexibilizado em 2024, mas o governo passou a exigir comprovantes de renda como requisito obrigatório para quem deseja obter a nacionalidade.

"Nem todas as pessoas imigradas de forma permanente querem ou podem — por diferentes motivos — se naturalizar", afirma a sigla. "A possibilidade de participar de eleições democráticas não pode, segundo a convicção do Bundestag, depender da renda individual dos residentes de um país", complementam os parlamentares da A Esquerda.

Conservadores classificam projeto de "absurdo"

O projeto foi recebido com forte rejeição no Parlamento e é encarado como de difícil aprovação, já que exigiria alteração na Lei Fundamental e, portanto, o apoio de dois terços dos deputados.

Com o objetivo de reduzir o quórum necessário, a A Esquerda busca viabilizar a proposta por meio de uma emenda infraconstitucional, o que, em casos como este, não costuma ser suficiente.

O deputado Stephan Brandner, do partido ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD), chamou a ideia de "maluca". "Quem quiser ter voz ativa nos assuntos políticos da Alemanha deve ser cidadão alemão", afirmou.

A deputada Filiz Polat, secretária parlamentar dos Verdes, concorda que quem se torna parte da sociedade alemã "não deve ser excluído permanentemente da política", mas indicou que seu partido estaria disposto a discutir apenas a participação nos pleitos municipais.

Já o deputado Günter Krings, vice-presidente da sigla que lidera a coalizão governista, a União Democrata-Cristã (CDU), foi além e chamou a proposta de "absurda".

"De acordo com nossa Constituição, o Bundestag alemão é eleito pelo povo alemão, trata-se de um elemento fundamental da democracia e protegido pela garantia de eternidade de nossa Constituição", disse ele ao jornal alemão Die Welt. "Democracia, no sentido mais verdadeiro da palavra, significa 'governo do povo' — e não o direito de voto para todos aqueles que por acaso estiverem presentes."

Tribunal Federal barrou voto estrangeiro em 1990

O conceito de "povo alemão" é justamente um dos pontos contestados pela A Esquerda.

Em 1990, o Tribunal Constitucional Federal da Alemanha decidiu que apenas cidadãos alemães poderiam participar das eleições, ao interpretar que a Constituição se refere ao "povo alemão" ao afirmar que "todo poder estatal emana do povo".

Para a legenda A Esquerda, porém, essa leitura deve ser revisitada à luz das transformações sociais e demográficas das últimas décadas. Em 1992, por exemplo, cidadãos da União Europeia também passaram a ser autorizados a participar de pleitos municipais com base no direito europeu.

O debate corre na Alemanha ao menos desde a década de 1970, seguindo o modelo de países nórdicos. Hamburgo chegou a aprovar uma lei neste sentido nos anos 1980, derrubada pelo Tribunal em 1990. Em estados como a Renânia do Norte-Vestfália, a discussão em favor do voto municipal a estrangeiros é levantada ao menos desde 2001.

jps/gq (OTS)

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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