Escola onde estudou Assad divide gêneros na Síria pós-guerra
O tradicional Instituto Al-Hurriya, em Damasco, onde estudou o ex-presidente Bashar al-Assad, decidiu segregar alunos por gênero a partir dos 11 anos. A direção justifica a medida alegando prevenção a assédios e violência, mas a decisão divide a sociedade e gera críticas de autoridades contrárias ao conservadorismo. O caso reflete o avanço da influência religiosa e o receio de retrocessos nas liberdades civis, em especial para as mulheres, após a ascensão do novo governo islamista na Síria.
País se confronta com mudanças nos costumes sociais após ascensão de governo islamista. Medida divide autoridades e sociedade.Uma renomada escola na Síria, onde estudou o presidente deposto Bashar al-Assad, decidiu separar meninos e meninas. A medida no Instituto Al-Hurriya, em Damasco, é lida como um sintoma das possíveis mudanças nos costumes sociais desde que novas autoridades islamistas assumiram o governo.
A escola afirmou que a medida visa "o melhor interesse dos estudantes" e já preparou salas de aula e pátios separados, com exceção do ensino fundamental. Isso significa que alunos com mais de 11 anos passarão a estudar de forma segregada.
Nas redes sociais, alguns expressam temor diante da crescente influência de movimentos religiosos conservadores. Outros defendem a separação com base em princípios islâmicos.
Em uma publicação posterior, a direção defendeu a decisão, alegando a existência de "muitos problemas relacionados ao assédio e ao bullying contra meninas" e afirmando que "muitos jovens desperdiçavam seu tempo em relacionamentos amorosos".
Os responsáveis pela escola também citaram "violência extrema e uso de facas" motivados por ciúmes, reportando que o número de meninas matriculadas havia diminuído após pais transferirem suas filhas para outras instituições.
Ministra faz críticas
A ministra síria de Assuntos Sociais e Trabalho, Hind Kabawat, que estudou também no Al-Hurriya, avaliou que a medida é "errada". Ela é a única mulher e a única cristã do gabinete de transição da Síria.
"O DNA da escola é ter turmas mistas até o ensino médio. Se você não quer mandar seus filhos para lá, procure outras escolas, mas mantenha a escola como ela é", declarou.
O pesquisador Muhannad Malek, outro ex-aluno da instituição e assessor do ministro do Ensino Superior, escreveu, por sua vez: "Nós somos o povo de Damasco, e as escolas mistas sempre foram uma parte muito natural de nossas vidas e de nossa memória coletiva".
Já o cidadão sírio Ali al-Hadi escreveu nas redes sociais que a separação foi "uma decisão educacional responsável, e a prevenção é sempre melhor do que lidar com as consequências depois que elas acontecem".
Inaugurada pela Missão Francesa Secular em 1925, quando a Síria estava sob mandato francês, a escola formou integrantes da elite síria, incluindo Assad, que foi deposto em 2024 por uma ofensiva liderada por grupos islamistas.
Na década de 1960, o Partido Baath, que havia assumido o poder no país, nacionalizou a escola junto com outras instituições e a rebatizou como Al-Hurriya, que significa "liberdade".
Tempo de mudanças
Questionamentos vêm sendo levantados sobre os impactos da delicada transição síria para um governo islamista e suas consequências para as liberdades individuais. A ditadura de al-Assad priorizava o nacionalismo e o secularismo em detrimento das normas religiosas.
No mês passado, quatro organizações feministas e da sociedade civil sírias afirmaram que algumas decisões das novas autoridades "restringiram as liberdades pessoais e públicas, impuseram formas de tutela social e tiveram reflexos particularmente sobre as mulheres".
Em março, autoridades municipais em Damasco proibiram a venda de álcool na maior parte da cidade. Bares e restaurantes que serviam bebidas alcoólicas havia décadas deixaram de poder fazê-lo, só sendo possível comprar álcool em garrafas fechadas, para levar, em alguns poucos bairros de maioria cristã.
No ano anterior, um hospital da cidade já decidira separar homens e mulheres nos ônibus que transportavam funcionários, mas voltou atrás após forte reação negativa.
ht/md (AFP, ots)
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