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Enamed: um espelho incômodo da formação médica no Brasil

Resultados do Exame Nacional da Formação Médica evidenciam grandes desigualdades entre os cursos de Medicina no país. E revelam desde escolas com desempenho acadêmico bastante consistente até cursos com resultados muito aquém do esperado para uma formação que lida diretamente com a vida humana

23 jan 2026 - 15h22
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A avaliação do ensino médico pelo Exame Nacional da Formação Médica (Enamed) trouxe à tona problemas que já eram percebidos empiricamente, mas agora aparecem de forma mais objetiva, comparável e transparente.

O resultado do Enamed levanta questões centrais para qualquer política séria de formação médica no Brasil, trazendo à tona um quadro ao mesmo tempo elucidativo e preocupante.

Diagnóstico de desigualdades

Mais do que ranquear instituições nominalmente, os resultados mostram padrões consistentes. De forma geral, os cursos públicos federais e estaduais tradicionais concentram os melhores desempenhos, com elevada proporção de estudantes considerados proficientes.

No extremo oposto, aparece parte significativa dos cursos privados com fins lucrativos, especialmente os mais recentes, e alguns cursos municipais, com percentuais baixos de desempenho adequado.

Isso não significa que todo curso privado seja fraco ou que todo curso público seja excelente, mas o modelo institucional faz diferença.

Os resultados evidenciam grandes desigualdades entre os cursos de Medicina no país. E revelam desde escolas com desempenho acadêmico bastante consistente até cursos com resultados muito aquém do esperado para uma formação que lida diretamente com a vida humana.

Esse cenário não pode ser lido de forma simplista, nem reduzido a rankings isolados. Ele exige uma análise estrutural, pedagógica e ética do ensino médico no Brasil.

Origens das desigualdades

Entre os cursos com melhor desempenho, destacam-se, de modo geral, universidades públicas tradicionais e algumas instituições privadas filantrópicas com forte inserção hospitalar e histórica vocação para o ensino médico.

Esses cursos alcançaram conceito máximo (5) no Enamed, indicando elevada proporção de concluintes com proficiência adequada segundo os critérios do exame.

Já no pólo oposto, encontram-se cursos avaliados com conceito 1. Muitos deles de abertura recente, localizados em regiões com menor densidade de serviços de saúde estruturados, com fragilidades evidentes na organização do internato, na qualificação do corpo docente e na integração ensino-serviço.

Esses resultados não significam apenas uma diferença numérica; refletem trajetórias formativas profundamente desiguais.

A origem dessa disparidade é multifatorial. Um dos elementos centrais é o perfil de ingresso dos estudantes. Cursos altamente concorridos tendem a receber alunos com formação prévia mais sólida, o que impacta diretamente o desempenho final em provas. No entanto, esse fator não explica tudo.

Modelos institucionais

Há cursos que agregam pouco valor ao longo da graduação, mesmo recebendo alunos com bom desempenho inicial. E outros que, apesar de alunos mais vulneráveis do ponto de vista educacional e socioeconômico, conseguem promover crescimento acadêmico relevante. Por isso, analisar apenas o resultado final sem considerar o "valor agregado" pelo curso leva a interpretações injustas e, metodologicamente, frágeis.

Outro fator decisivo é a qualidade do internato médico. Cursos bem avaliados costumam oferecer cenários de prática diversificados, com forte presença na atenção primária, em serviços de urgência e emergência, em enfermarias e ambulatórios supervisionados, além de preceptores capacitados e comprometidos com a formação.

Já nos cursos mal avaliados, frequentemente observa-se internato fragmentado, com pouca supervisão, excesso de observação passiva e escassa responsabilização progressiva do estudante.

Sem prática clínica real, supervisionada e reflexiva, não há exame que compense essa lacuna formativa.

O corpo docente e a governança acadêmica também exercem papel fundamental. Instituições com docentes estáveis, titulados, com dedicação ao ensino e formação pedagógica estruturada tendem a apresentar melhor desempenho.

Em contraste, cursos excessivamente dependentes de professores horistas, com alta rotatividade e pouco vínculo institucional, enfrentam dificuldades para sustentar um projeto pedagógico consistente.

A ausência de avaliação docente contínua e de cultura institucional de melhoria agrava ainda mais esse quadro.

A insuficiência do ranking para ler resultados do Enamed

Nesse contexto, o Enamed se apresenta como um instrumento relevante, mas claramente insuficiente quando considerado de forma isolada.

Seu principal mérito é oferecer uma régua nacional padronizada, alinhada às Diretrizes Curriculares Nacionais, permitindo comparações amplas e identificação de cursos que demandam atenção regulatória.

Contudo, trata-se predominantemente de uma avaliação baseada em questões objetivas, que mede conhecimento teórico, mas capta pouco das habilidades clínicas, da comunicação médico-paciente, do profissionalismo, do raciocínio ético e da tomada de decisão em cenários reais.

O risco de transformar o Enamed em um fim em si mesmo, estimulando ensino voltado apenas para prova, é real e deve ser evitado.

Padrões nacionais verificáveis

Para melhorar o ensino médico no Brasil, é imprescindível adotar uma abordagem sistêmica. Isso inclui estabelecer padrões nacionais verificáveis para o internato, com critérios mínimos de carga prática, supervisão e diversidade de cenários.

Além disso, é importante fortalecer a atenção primária, a medicina de família, a saúde mental e a saúde coletiva como eixos estruturantes da formação.

Outros aspectos essenciais são o investimento na formação pedagógica de docentes e preceptores. Considero também relevante a incorporação de avaliações práticas obrigatórias, como exames clínicos objetivos estruturados, portfólios e avaliações em serviço.

A melhoria do ensino médico não ocorrerá por decreto nem por prova isolada, mas por um processo contínuo de qualificação institucional.

Um ponto crucial é a distinção entre a responsabilidade do aluno e a responsabilidade da faculdade. O desempenho final resulta da interação entre esforço individual e qualidade formativa.

Para separar essas dimensões, é necessário avançar em modelos de avaliação que considerem tanto o resultado absoluto quanto o valor agregado pelo curso ao longo do tempo, controlando variáveis de entrada.

Avaliações longitudinais mais justas

Avaliações longitudinais, acompanhando a progressão do estudante do início ao final da graduação, seriam mais justas e informativas do que um único exame terminal.

Quanto aos critérios de aprimoramento da avaliação nacional, o caminho mais promissor é a combinação de múltiplas dimensões: provas teóricas bem construídas, avaliações práticas padronizadas, análise da qualidade do internato, indicadores de segurança do paciente, acompanhamento do bem-estar discente e transparência metodológica.

A avaliação deve servir primordialmente como instrumento pedagógico e de gestão da qualidade, e não apenas como mecanismo punitivo ou de ranqueamento público.

Por fim, o acompanhamento dos cursos de Medicina precisa ser contínuo e abrangente. Deve incluir indicadores de desempenho acadêmico, estrutura do internato, qualificação do corpo docente, integração com o SUS, infraestrutura de ensino, clima institucional e trajetória dos egressos.

Somente com esse olhar integrado será possível garantir que a expansão do número de escolas médicas no Brasil venha acompanhada de qualidade, responsabilidade social e compromisso ético com a formação de médicos capazes, humanos e tecnicamente competentes.

The Conversation
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Foto: The Conversation

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The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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