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Virada de Lula sobre Flávio mostra força e importância da campanha digital em eleições

Especialistas apontam que mobilização digital foi fator importante para a vitória do petista; WhatsApp se tornou ferramenta estratégica

31 out 2026 - 05h00
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Redes sociais tiveram papel fundamental nas eleições de 2026
Redes sociais tiveram papel fundamental nas eleições de 2026
Foto: Imagem ilustrativa/Unsplash

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL), no último domingo, 25, marcou também uma disputa intensa nas redes sociais. Depois do primeiro turno, a campanha petista mobilizou apoiadores, ampliou a circulação de conteúdos e investiu na participação dos eleitores. Para especialistas em marketing político e redes sociais, a mudança de estratégia ajudou a fortalecer a campanha na reta final e mostrou a importância das plataformas digitais na disputa eleitoral.

Um dos movimentos mais expressivos foi a atuação do deputado federal André Janones (Rede-MG), que coordenou o canal de WhatsApp "Exército do Lula". O grupo, criado para organizar a militância e orientar ações nas redes, chegou a ter mais de 10 milhões de seguidores. Entre as iniciativas estavam o compartilhamento de vídeos, a divulgação de hashtags e a mobilização para que conteúdos favoráveis a Lula ganhassem visibilidade.

Canal 'Exército do Lula' no Whatsapp passou dos 10 milhões de membros, coordenado por André Janones
Canal 'Exército do Lula' no Whatsapp passou dos 10 milhões de membros, coordenado por André Janones
Foto: Reprodução/Whataspp

Do outro lado, a campanha de Flávio também investiu na organização de apoiadores digitais. O canal "Tropa do Flávio", administrado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), foi criado em outubro e alcançou 2,1 milhões de seguidores até a véspera da votação.

Canal 'Tropa do Flávio', administrado por Nikolas Ferreira
Canal 'Tropa do Flávio', administrado por Nikolas Ferreira
Foto: Reprodução/Whataspp

Para Luis Magaldi, especialista em marketing, comunicação e imagem empresarial e política, a intensificação da atuação digital refletiu uma mudança no modelo de comunicação das campanhas, que passaram a depender não apenas dos meios tradicionais, mas também do relacionamento direto com os eleitores.

"A intensificação do ecossistema digital entre o primeiro e o segundo turno reflete a transição de uma comunicação broadcast (horário eleitoral, rádio e TV) para um modelo centrado no relacionamento descentralizado e engajamento dinâmico", afirma. Segundo Magaldi, as redes também permitiram que as campanhas respondessem rapidamente às narrativas dos adversários e ajustassem suas mensagens ao longo da disputa.

Mudança de estratégia no 2º turno

A campanha de Lula mudou o foco após o petista terminar o primeiro turno atrás de Flávio. Em vez de concentrar a comunicação apenas no legado do presidente, passou a explorar questões relacionadas ao futuro e os riscos que seus apoiadores associavam a uma eventual chegada da família Bolsonaro ao poder.

Na avaliação de Magaldi, a campanha também ampliou o diálogo para além da militância tradicional. "No primeiro turno, a comunicação tendeu a focar na militância tradicional e no eleitorado de base. No segundo turno, o ambiente digital passou a dialogar com os eleitores moderados, descontentes ou que haviam escolhido outras candidaturas", explica.

O publicitário e especialista em redes sociais Matheus Ramos Dias também avalia que o resultado do primeiro turno evidenciou a necessidade de rever a maneira como as campanhas se comunicavam com o eleitorado. Para ele, a dimensão do uso da internet no Brasil não pode ser subestimada.

"Até então, muitos tinham a visão de que apenas o jovem estava ali usando o seu celular, o jovem estava usando a internet, quando, na realidade, todos nós, enquanto população brasileira, estamos conectados. Nós temos, inclusive, um dos maiores tempos de tela do mundo inteiro. Então, subestimar o poder da internet é um erro grave num momento como esse", afirma.

Dias destaca que a estratégia digital também ajudou a transformar acontecimentos da campanha em conteúdos compartilhados em grande escala. Trechos de debates, declarações dos candidatos e checagens de informações circularam pelas redes, alcançando pessoas que não necessariamente acompanharam os eventos originais.

Para o especialista, os usuários que produziram e compartilharam conteúdos próprios também tiveram relevância. "Dessa vez, eu vi uma enxurrada de pessoas compartilhando o quanto cada um disse de verdade, ou foi impreciso, ou até mesmo mentiu", diz, ao comentar a circulação de checagens de declarações dos candidatos.

A dinâmica mostra como a disputa eleitoral não se limita ao conteúdo de entrevistas e debates, mas envolve também a seleção e a distribuição de trechos que podem ganhar interpretações diferentes quando circulam isoladamente nas plataformas.

WhatsApp e mobilização para votar

Além de disputar a atenção dos eleitores, as campanhas utilizaram as redes para incentivar a participação nas urnas. No segundo turno, a abstenção caiu de 21,08% para 19,22%, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)

Dias considera que a mobilização para convencer pessoas a votar foi um dos pontos importantes da estratégia petista. Um exeplo foi a iniciativa de André Janones de pedir que cada integrante do canal "Exército do Lula" convencesse pelo menos uma pessoa que não havia votado no primeiro turno a comparecer às urnas no segundo.

O publicitário acrescenta que a redução da abstenção contribuiu para o resultado, embora ressalte que não é possível atribuir a vitória exclusivamente às redes sociais. "Não é certo dizer que só as redes sociais causaram essa virada. A movimentação nas ruas, por exemplo, foi impressionante, com números recordes, seja de um lado ou de outro", diz.

WhatsApp se tornou ferramenta de mobilização dos eleitores
WhatsApp se tornou ferramenta de mobilização dos eleitores
Foto: Imagem ilustrativa/Unsplash

A estratégia de mobilização também evidencia a diferença entre as plataformas. Segundo Magaldi, o WhatsApp tem alcance entre diferentes faixas etárias e socioeconômicas e permite que mensagens circulem por grupos familiares, comunitários e contatos diretos.

O especialista destaca que o recebimento de uma mensagem de alguém conhecido pode aumentar a confiança do destinatário no conteúdo. "Transmite mensagens por canais diretos, grupos comunitários e de família, gerando alto nível de confiança pessoal e maior taxa de leitura de conteúdos diretos e áudios", explica.

Dias também considera o aplicativo uma ferramenta importante para a comunicação política justamente por essa característica. "No WhatsApp não tem algoritmo, a curadoria é feita pelos seus amigos, pelos seus familiares, por colegas de trabalho ou da escola, da universidade", afirma.

A dinâmica, porém, tem dois lados. Se a confiança entre os contatos pode favorecer a circulação de informações verdadeiras, também pode facilitar a propagação de fake news. Como a comunicação ocorre em conversas privadas, a circulação das mensagens é menos transparente.

Algoritmos e a disputa por atenção

Enquanto o WhatsApp permite a circulação direta de mensagens, o Instagram tem uma dinâmica diferente, baseada na recomendação algorítmica. Para Magaldi, a plataforma permite aproximar o candidato do público por meio de vídeos curtos, Stories, Reels e bastidores.

Dias chama atenção para a importância dos conteúdos que estimulam reações emocionais. Segundo ele, publicações polêmicas e ataques podem gerar grande engajamento, mesmo quando as interações são motivadas por indignação ou discordância. "Basicamente, todos os conteúdos que mais engajam são os conteúdos que mais trazem revolta, o famoso rage bait", afirma.

No Instagram, estratégias de propaganda esbarram no algortimo para serem entregues ao público
No Instagram, estratégias de propaganda esbarram no algortimo para serem entregues ao público
Foto: Imagem ilustrativa/Unsplash

O especialista explica que esse tipo de publicação pode ampliar a distribuição de um conteúdo, pois comentários, visualizações e outras interações contribuem para que ele seja recomendado a mais usuários. "Enquanto tem pessoas visualizando e comentando, ela está também sendo recomendada", diz.

Para Dias, essa dinâmica pode tirar espaço de discussões sobre propostas e planos de governo. "As propostas e o plano de governo deveriam ser a prioridade número um num momento tão polarizado como esse, até pra gente entender de qual lado quer ficar", diz.

"Mas a verdade é que com a influência gigantesca que o algoritmo dessas redes tem sobre nós, sobre a nossa percepção – seja para bem ou para o mal –, isso acaba ficando de lado para se debater conteúdos polêmicos o tempo todo, conteúdos sensacionalistas, conteúdos que vão atrair mais cliques, mais comentários, mais curtidas, seja com raiva, seja concordando".

Apesar da importância da mobilização digital, os especialistas consideram que não é possível medir isoladamente quanto ela influenciou o resultado eleitoral. A decisão do eleitor é afetada por diferentes fatores, como a situação econômica, os debates, a propaganda, as alianças políticas e a percepção sobre os candidatos.

Fonte: Portal Terra
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