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Política

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Como Janones foi de acusado de rachadinha a 'general' no 'Exército do Lula'

Deputado federal, que soma controvérsias ao longo da carreira, é responsável por mobilização digital da esquerda no segundo turno

25 out 2026 - 23h02
(atualizado às 23h16)
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Resumo
Superando polêmicas como a confissão de rachadinha e processos por injúria, o deputado André Janones assumiu papel central na reeleição de Lula ao comandar a comunicação digital da campanha no segundo turno. Por meio de marketing de guerrilha e táticas de urgência no canal de WhatsApp "Exército do Lula", que atingiu quase 11 milhões de seguidores com "missões" diárias aos militantes, o parlamentar desafiou a hegemonia da direita nas redes e foi exaltado pelo presidente eleito como seu "general".

BRASÍLIA — De acusado de rachadinha a "general" no "Exército do Lula", o deputado federal André Janones (Rede-MG) driblou as próprias polêmicas para capitanear a mobilização da esquerda no segundo turno. O campo de batalha foram as redes sociais, terreno dominado pela direita desde as eleições de 2018.

Presidente Lula e deputado André Janones durante live
Presidente Lula e deputado André Janones durante live
Foto: Reprodução/Exército do Lula / Estadão

Janones combinou técnicas de marketing de guerrilha digital — estratégia de comunicação não convencional e de impacto, com criatividade e baixo custo — com senso de urgência para engajar os eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Tudo isso depois de criar o canal do WhatsApp "Exército do Lula".

Os bordões "pessoal, urgente!" e "explode!" se tornaram a marca dele no contato tête-à-tête com o eleitorado, com vídeos, áudios e mensagens enviadas. O conteúdo do parlamentar é formado pelas chamadas "missões", acompanhadas pelo Estadão e em que dá ordens aos "soldados", em prol da reeleição de Lula.

Uma delas foi postar uma foto com a camisa da seleção brasileira, associada ao bolsonarismo, nas redes sociais em 17 de outubro, às 9h. Outras foram mais curiosas, como cancelar dates e assistir às 24 horas da "live da virada", iniciada logo após o fim do debate da Rede Globo, na última sexta, 23.

"Última missão: na hora que se confirmar a vitória acachapante do presidente Lula, vocês por favor desenterrem todos os tuítes e posts aqui do canal onde eu afirmava pra vocês CATEGORICAMENTE que a eleição estava ganha , e com uma diferença maior do que vocês falavam que ia ser !", escreveu no domingo, às 18h56.

Janones acertou nas suas previsões: Lula foi reeleito para o quarto mandato neste domingo, 25. Na lista de agradecimentos do presidente reeleito, o deputado estava entre os primeiros políticos citados:

"Nós tivemos o menor número de abstenções deste País, o menor número de votos nulos deste país. E eu tenho que fazer um agradecimento às pessoas que coordenaram a campanha, aos partidos que participaram junto conosco", disse Lula, que citou a importância dos votos dos jovens e dos idosos para reverter o resultado do primeiro turno.

O parlamentar acompanhou a apuração dos votos no hotel ao lado dele e apareceu visivelmente emocionado durante a entrevista do presidente à imprensa. "Quero aproveitar meu general Janones aqui e dizer o seguinte: eu duvido que a Rússia, que a China, que os Estados Unidos tenham um exército vitorioso como o exército da democracia desse País. Um abraço aos soldados e às soldadas do nosso exército", completou Lula, que levantou o braço do aliado durante a fala.

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A ferramenta surgiu em 15 de abril, mas o "Exército de Lula" só ganhou tração após o presidente terminar o primeiro turno atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL), em 4 de outubro. No dia 6, eram apenas 60 mil seguidores, que chegaram a 1 milhão em poucas horas. O canal cresceu 170 vezes até alcançar 10 milhões na sexta, 25. Após a eleição, às 21h19, o "Exército de Lula" reuniu 10.919.874 pessoas.

Pessoas comemoram a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no hotel Intercontinental, na Alameda Santos, próximo à Avenida Paulista
Pessoas comemoram a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no hotel Intercontinental, na Alameda Santos, próximo à Avenida Paulista
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

"Eu sei o caminho. É como se eu fosse um comandante de um exército que sabe onde a tropa tem que ir para vencer, mas não tenho capacidade de virar eleição com 60 mil pessoas. Cada um aqui vai trazer mais três pessoas para cá e explicar: 'Tudo o que ele mandar fazer no grupo vocês vão fazer", afirmou.

O crescimento do "Exército de Lula" também marcou a chegada de Janones ao comando da comunicação da campanha do presidente, a quem apelidou de "Marechal Lula da Silva", no segundo turno. O deputado entrou no lugar do ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira.

Só que Janones está longe de ser uma figura unânime na esquerda ou até mesmo no PT. Um dos episódios mais controversos da carreira política dele ocorreu quando foi acusado e, posteriormente, confessou a prática de rachadinha no próprio gabinete na Câmara dos Deputados. O parlamentar firmou um acordo de não persecução penal (ANPP) em que reconheceu a culpa e se comprometeu a pagar R$ 157,8 mil como reparação de danos.

O criador do canal também é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por injúria e já foi condenado pelo menos três vezes por danos morais em tribunais estaduais do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de Santa Catarina por declarações contra bolsonaristas. As disputas judiciais levaram o deputado a criar uma estratégia para vencer a resistência com o eleitorado:

"Se alguém falar que não gosta do Janones, responde: 'Eu também não gosto não, a gente só vai usá-lo para ganhar a campanha do Lula'. Pode falar", orientou o parlamentar.

Mensagens do deputado André Janones no canal "Exército do Lula"
Mensagens do deputado André Janones no canal "Exército do Lula"
Foto: Reprodução/Exército do Lula / Estadão

O canal só ficou em silêncio em 19 de outubro, um dia após o debate da Band e do Estadão, quando Janones foi internado por arritmia cardíaca em uma unidade de terapia intensiva (UTI) no Hospital Vila Nova Star, na zona sul da capital paulista. Quando voltou, já engajou os "soldados" para angariar mais integrantes para a "tropa".

Jargões militares faziam parte do dia a dia do canal. "Estava sob ataque" e "estamos em risco" serviam como uma espécie de alerta para o grupo em relação a movimentações contra o presidente.

Mensagens do deputado André Janones no canal "Exército do Lula"
Mensagens do deputado André Janones no canal "Exército do Lula"
Foto: Reprodução/Exército do Lula / Estadão

Houve até a expectativa de que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, suspendesse o "Exército de Lula" às vésperas do segundo turno. O ministro Floriano Marques impediu a derrubada sem o aval do plenário.

A depender do humor, o "general" também dava bronca no eleitorado, seja para obter engajamento, seja para evitar que interagissem com publicações do adversário. Deu certo. Táticas de mobilização simples fizeram a esquerda ganhar um espaço até então pouco usado pelo grupo.

Estadão
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