Lula chega aos 81 anos com sucessão em aberto; especialistas analisam possíveis nomes
Petista conquistou o seu quarto mandato presidencial, mas não tem um sucessor claro para 2030
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) celebra 81 anos nesta terça-feira, 27, dois dias após se tornar o primeiro candidato à Presidência a alcançar uma virada entre turnos da história do Brasil e conquistar o seu quarto mandato presidencial. Embora tenha saído vitorioso, o petista chegou à eleição de 2026 sem um sucessor claro para o futuro do Partido dos Trabalhadores.
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Em 2030, Lula não poderá se candidatar à Presidência, pois a Constituição Federal permite que um presidente seja reeleito apenas uma vez consecutiva. Nesse caso, quem poderá ser cotado nessa grande sucessão? O Terra conversou com especialistas, que analisaram possíveis nomes.
Para Rodrigo Prando, cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Lula não ter um sucessor natural é a principal fragilidade do campo progressista e de esquerda hoje e afirma que essa sucessão deve se decidir em uma disputa aberta até 2030, quando ocorre a próxima eleição presidencial.
"O vencedor dessa disputa para herdar esse espólio político eleitoral do Lula será aquele que combinará pelo menos três questões. Acho que, nesse momento, nenhum nome reúne isso sozinho. Seria densidade eleitoral em primeiro lugar, capacidade de diálogo com o centro em segundo e uma comunicação popular em terceiro, uma forma de se comunicar que chegue à população", diz Prando.
Na avaliação de Luciano Gomes dos Santos, professor de Ciências Sociais do Centro Universitário Arnaldo, de Belo Horizonte, o principal desafio do PT é que Lula não representa apenas uma liderança partidária.
"Ele reúne identificação popular, experiência de governo, capacidade de articulação e reconhecimento nacional, características difíceis de transferir automaticamente para outra pessoa. A sucessão, portanto, não depende apenas de escolher um nome, mas de construir uma liderança capaz de dialogar com diferentes segmentos da sociedade, estabelecer alianças e apresentar um projeto de País que tenha identidade própria", destaca o especialista.
Fernando Haddad
Fernando Haddad, ex-ministro da Fazenda, é um dos principais nomes para a sucessão de Lula. Ele, inclusive, já foi candidato à Presidência em 2018 pelo PT, mas perdeu a eleição no segundo turno para o então candidato Jair Bolsonaro, na época do partido PSL. Neste ano, ele também disputou o Governo de São Paulo e saiu derrotado para Tarcísio de Freitas (Republicanos). Segundo os especialistas, Haddad é preparado, em termos técnicos e programáticos, mas seu desempenho eleitoral acaba pesando.
"Ele segue forte no partido, mas eu não diria que será o candidato natural. Penso que o PT terá que se questionar se quer apostar de novo em um nome que perde no maior colégio eleitoral do País, como é o do Haddad", analisa Prando.
De acordo com Santos, a derrota na disputa pelo governo paulista no primeiro turno reforça uma dificuldade importante para Haddad: transformar reconhecimento nacional e experiência administrativa em capacidade de conquistar votos em eleições majoritárias. "Isso não o retira automaticamente da disputa, mas mostra que sua candidatura não pode ser considerada definida."
Já Sérgio Praça, cientista político e professor visitante na Universidade Federal de Alfenas, vê Haddad "extremamente desgastado" pelas derrotas que já teve ao longo da carreira política e descarta o nome para suceder Lula no futuro.
Camilo Santana
Outro nome citado entre os possíveis herdeiros é o do senador Camilo Santana (PT), ex-ministro da Educação e ex-governador do Ceará. Para Prando, é uma "possibilidade real e não raro subestimada".
"Foi duas vezes governador do Ceará, elegeu o sucessor [Elmano de Freitas, do PT], o prefeito de Fortaleza [Evandro Leitão, do PT], costuma apresentar um perfil conciliador e tem uma base no Nordeste, a região que historicamente tem sustentado o lulismo. Em 2026, o Camilo deixou o MEC para sair para a vida político-partidária sem disputar nenhum cargo, e acabou rodando o País na campanha. O limite que ele tem, nesse caso, é que ele é pouco conhecido na região Sul e Sudeste, mas ele tem um mandato no Senado até 2031 e tem tempo para se projetar nacionalmente", pontua Prando.
Santos ainda lembra que a favor de Camilo está a "possibilidade de construir uma imagem menos associada à polarização direta entre Lula e Bolsonaro, embora isso dependa de como se posicionará publicamente e de sua capacidade de ampliar alianças", mas também enfatiza o desafio de que a projeção nacional do senador ainda precisa se consolidar.
João Campos
Além de Camilo, Sérgio Praça aponta o nome do ex-prefeito de Recife (PE) João Campos (PSB). "Vejo que os dois saem à frente hoje. Nenhum deles chega perto de ter a importância política e o carisma de Lula, nem mesmo comparados ao Haddad, mas são figuras que não estão ligadas a escândalos, tem uma boa reputação até em relação a políticas públicas."
Em 2026, João Campos tentou se eleger governador de Pernambuco, mas perdeu para Raquel Lyra (PSD). Na visão de Praça, essa derrota "não faz tanta diferença" no potencial político, "porque ele é muito jovem e vai ter uma vida política vitoriosa mesmo se não for governador agora. Ele vai voltar a ser deputado ou, eventualmente, senador, prefeito".
Para Rodrigo Prando, o fato de Campos ter perdido a eleição "fere a imagem de invencível que porventura ele poderia ter", mas ele também ressalta que o ex-prefeito só tem 32 anos, é carismático e tem um excepcional domínio das redes, além do legado familiar. "Para 2030, ficou mais difícil, mas, como um nome de longo prazo, eu acho que ele segue no jogo. Mas ele é do PSB, e o PT historicamente tem resistido a ceder a cabeça de chapa. Então, é um nome difícil, permanecendo no PSB", avalia.
De acordo com Luciano Gomes dos Santos, Campos pode ser um nome importante para o futuro, mas ainda precisa consolidar a trajetória nacional. "Precisará ampliar sua presença para além de Pernambuco, demonstrar capacidade de articulação com outras forças políticas e construir uma agenda que dialogue com os problemas nacionais."
Outros nomes como possíveis 'herdeiros' de Lula
Santos cita outros nomes como possíveis cotados para suceder Lula: "[O senador] Rui Costa, ex-governador da Bahia e ex-ministro da Casa Civil, reúne experiência administrativa e articulação política. Rafael Fonteles, governador do Piauí, representa uma geração mais jovem de gestores petistas e pode tentar transformar sua experiência regional em projeção nacional", afirma.
Ele ainda menciona Guilherme Boulos, do PSOL. Para o cientista social, Boulos "possui capacidade de mobilização social e diálogo com movimentos urbanos, embora precise ampliar sua aceitação para além de seus segmentos tradicionais".
Boulos também é destacado por Mayra Goulart, coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (LAPPCOM) e professora de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "Para falar com o público direto, a gente tem o Boulos, que fala muito bem com uma base de esquerda, com jovens, mesmo um perfil parecido com o do João Campos, mas o Campos mais capaz de atrair outras lideranças e outros segmentos", comenta.
Segundo Santos, há a possibilidade, inclusive, de que surjam lideranças hoje menos conhecidas nacionalmente, inclusive mulheres e representantes de movimentos sociais.
E o André Janones?
Durante a campanha do segundo turno das eleições, o deputado federal André Janones (Rede-MG) criou o canal do WhatsApp "Exército do Lula", que atingiu mais de 10 milhões de seguidores. Conforme Prando, Janones desempenhou um papel "importantíssimo" na campanha do Lula e foi "peça-central" da estratégia digital, o que mostra que ele tem capacidade de mobilização. "Mas a gente tem que lembrar que mobilizar militância não é a mesma coisa que liderar um campo político, como o Lula fez", considera.
"Presumo que ele tem muito mais características como operador digital bastante valioso, mas ainda não como uma figura de características presidenciáveis", analisa Prando.
Santos também concorda que Janones demonstrou capacidade de mobilização digital e de comunicação política direta, mas que "um canal com milhões de seguidores demonstra alcance e potencial de engajamento, mas não comprova, por si só, a existência de uma base eleitoral nacional disposta a votar em seu administrador para presidente".
"Para se tornar um sucessor de Lula, Janones precisaria ampliar sua atuação para além da comunicação digital, construir alianças partidárias, apresentar propostas para os principais problemas do País e demonstrar capacidade de governar. Neste momento, considero mais adequado vê-lo como um possível articulador da comunicação e da mobilização da esquerda do que como um dos principais nomes para a Presidência em 2030", comenta o cientista social.

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