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PSDB: da luta contra a ditadura até a dinastia em São Paulo

O partido de Bruno Covas, candidato à Prefeitura de São Paulo, é um dos maiores grupos políticos do Brasil e surgiu na redemocratização

26 nov 2020
13h24
atualizado às 13h31
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O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) é um dos 33 partidos políticos brasileiros em atividade. Fundado em 1988, tem entre os seus membros um ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, além de ex-governadores em São Paulo e Minas Gerais, dentre outros Estados. É representado por um tucano, símbolo adotado quando ainda estava sendo formado.

Como o PSDB se tornou dinastia no estado de São Paulo
Como o PSDB se tornou dinastia no estado de São Paulo
Foto: IstoÉ

Na atual disputa pela Prefeitura de São Paulo, cidade que já teve outros dois nomes do partido à frente do governo, os tucanos são representados por Bruno Covas, neto de um dos fundadores do PSDB, o ex-governador Mário Covas.

De acordo com o cientista político Tiago Daher, professor na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o ponto de convergência entre o partido do atual prefeito e o de seu adversário, Guilherme Boulos (PSOL), é que ambos surgiram a partir da dissidência de partidos mais tradicionais, ainda que em épocas diferentes. De perfil moderado, Bruno Covas simboliza uma renovação no partido: "A geração da redemocratização envelheceu. Por isso, a renovação acontece com certa velocidade", explica ele. Isso, segundo Daher, sem deixar de manter a postura típica do partido. "Ele mantém o discurso pró-eficiência, que é típico de candidatos do partido", diz.

Veja, a seguir, como surgiu o PSDB, as principais diretrizes do partido e o histórico em eleições.

Como surgiu o PSDB

Fundado em 25 de junho de 1988, o PSDB foi idealizado por dissidentes do PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro), hoje chamado apenas de MDB. Franco Montoro, governador de São Paulo entre 1983 e 1987, entregou a sua carta de desfiliação do partido em junho de 1988, alegando acreditar que o partido havia se distanciado da oposição ao regime militar e estava "dominado pelo fisiologismo".

Nos dias seguintes, outros dissidentes se juntaram ao ex-governador, como os então senadores Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso. Em 24 de junho, um grupo de apoiadores se reuniu na Câmara dos Deputados, em Brasília, para oficializar a união; o nome só foi decidido no dia seguinte. "Longe das benesses oficiais, mas perto do pulsar das ruas, nasce o novo partido", disse Montoro na ocasião.

Em linhas gerais, o grupo estava descontente com o governo de José Sarney já há algum tempo. Em 1987, o então presidente contrariou a proposta de estabelecer um regime parlamentarista com mandato de quatro anos para o País, defendida por alguns membros de seu próprio partido. A partir desses entraves, criou-se o Movimento da Unidade Progressista (MUP), grupo suprapartidário que seria o embrião do PSDB, identificado como uma ala mais progressista do partido.

O primeiro presidente do partido foi Mário Covas, que mais tarde seria governador de São Paulo, eleito por uma comissão provisória. De acordo com reportagem publicada no Estadão em 26 de junho daquele ano, o "maior obstáculo" à permanência de Covas no antigo partido era a falta de renovação e de espaço para que ele pudesse se candidatar à Presidência da República.

Em 6 de julho, o partido foi registrado provisoriamente, o que possibilitou que disputasse as eleições municipais que ocorreriam naquele ano.

Quem participou da fundação

O livro de fundadores teve 880 assinaturas, de acordo com reportagem do Estadão publicada em 25 de junho de 1988. Entre os primeiros membros do PSDB, se destacam:

  • Franco Montoro, governador de São Paulo entre 1983 e 1987;
  • Mário Covas, então senador por São Paulo. Governou o Estado depois, entre 1995 e 2001;
  • Fernando Henrique Cardoso, então governador por São Paulo. Foi presidente da República entre 1995 e 2003;
  • Sérgio Motta, ex-presidente da Eletropaulo e Hidrobrasileira, mais tarde ministro de Comunicações no governo de FHC;
  • José Richa, governador do Paraná entre 1983 e 1987;
  • José Serra, então deputado, foi governador de São Paulo entre 2007 e 2010 e hoje é senador pelo Estado;
  • João Pimenta da Veiga, ex-deputado federal e prefeito de Belo Horizonte entre 1989 e 1990. Hoje preside o Instituto Teotônio Vilela.

Por que o tucano virou o símbolo do PSDB?

Já no evento de fundação do partido, o tucano estampava as decorações do partido. A ave foi escolhida por ser uma espécie brasileira e para facilitar a comunicação com o eleitorado.

Além disso, Franco Montoro escreveu neste documento que o animal foi escolhido por ter penugem amarela no seu peito; a cor faria, então, referência ao movimento das Diretas-Já, campanha pelas eleições diretas e cujos participantes se identificavam pelas camisetas de cor amarela.

Azul, amarelo e branco foram definidas como as cores oficiais do partido.

Quantos filiados tem o PSDB?

O partido é um dos maiores do País em número de filiados. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em outubro deste ano, contava com 1.373.790 membros. Estava atrás apenas do MDB (2.158.996) e do PT (1.534.821).

De quantas eleições o PSDB participou em São Paulo?

Na cidade de São Paulo, o partido teve candidato em todas as eleições municipais desde a sua fundação, em 1988. Apenas dois foram eleitos até o momento: José Serra, em 2004, e João Doria, em 2016.

  • 1988: José Serra (quarto colocado);
  • 1992: Fábio Feldmann (quarto colocado);
  • 1996: José Serra (terceiro colocado);
  • 2000: Geraldo Alckmin (terceiro colocado);
  • 2004: José Serra (eleito);
  • 2008: Geraldo Alckmin (terceiro colocado);
  • 2012: José Serra (segundo colocado);
  • 2016: João Doria (eleito);
  • 2020: Bruno Covas (disputa o segundo turno no dia 29).

No mandato de 2021-2024, o partido terá uma bancada na Câmara Municipal com oito membros.

Figuras famosas do PSDB e ex-membros

Outras lideranças políticas que ainda são filiadas ao PSDB, como:

  • João Doria, governador de São Paulo;
  • Tasso Jereissati, ex-governador do Ceará;
  • Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo e candidato à Presidência em 2018;
  • Aécio Neves, ex-governador de Minas Gerais e candidato à Presidência em 2014;
  • Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul;
  • Reinaldo Azambuja, governador de Mato Grosso do Sul;
  • Alberto Goldman, ex-governador de São Paulo.

Outros políticos ainda em atividade já fizeram parte do PSDB, mas se desligaram do partido. Entre eles:

  • Ciro Gomes, hoje no PDT, foi o primeiro governador eleito pelo partido, no Ceará;
  • Celso Russomanno, hoje no Republicanos, concorreu à Prefeitura de São Paulo em 2020;
  • Eduardo Paes, hoje no Democratas, está no segundo turno da disputa pela Prefeitura do Rio de Janeiro;
  • Andrea Matarazzo, hoje no PSD, concorreu à Prefeitura de São Paulo em 2020;
  • Luiz Carlos Bresser Pereira, cientista político e ministro da Fazenda em 1987. Deixou o partido em 2010, alegando que o partido se tornara "conservador".

Estatuto do partido

Em seu estatuto, documento que consolida o regimento interno e o princípios do partido, o PSDB destaca que tem como base a "democracia interna e a disciplina" e nele prevalece o "respeito ao pluralismo de ideias, culturas e etnias", "o exercício democrático participativo e representativo" e a "soberania nacional", entre outros.

O programa também estabelece a prevalência do "trabalho sobre o capital", tendo como fim a "distribuição equilibrada da riqueza nacional entre todas as regiões e classes sociais".

Participação em momentos históricos, polêmicas e posicionamento político

O PSDB tem, em sua história, algumas passagens polêmicas, além da participação em momentos históricos do País. Veja algumas delas:

  • Impeachment de Collor: a união do PSDB ao PT e ao PMDB garantiu quase metade dos votos na Câmara a favor do impeachment de Fernando Collor. Depois que o então presidente foi afastado, o vice-presidente e tucano Itamar Franco assumiu a cadeira;
  • Mensalão mineiro: a campanha pela reeleição de Eduardo Azeredo para o governo de Minas Gerais, em 1998, culminou em um escândalo de peculato e lavagem de dinheiro que ficou conhecido como "Mensalão mineiro";
  • Licitações no transporte público de São Paulo: outro escândalo envolvendo membros do partido estourou em 2013, quando empresas ferroviárias e de tecnologia relataram a existência de um cartel na construção do metrô na capital;
  • Impeachment de Dilma Rousseff: o partido foi favorável ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT); membros participaram de manifestações contra o governo da petista, mas o partido não chegou a organizar diretamente nenhum deles.

O PSDB apoia o governo Bolsonaro?

O partido se situa no bloco independente da Câmara; ou seja, não faz parte nem da base nem da oposição ao governo de Jair Bolsonaro. No entanto, já há algum tempo que membros do partido propõem o rompimento absoluto com o atual presidente, situação essa agravada pela pandemia do novo coronavírus e os constantes ataques de Bolsonaro ao governador de São Paulo, João Doria.

Em junho, Bruno Araújo, atual presidente do partido, publicou no site do partido um texto esclarecendo a posição. "O PSDB disputou a eleição contra o PT e contra Bolsonaro. O PSDB não é PT e não é Bolsonaro. O PSDB continua tendo sua própria história, da qual se orgulha", escreveu no texto. Segundo ele, o partido não era favorável, naquele momento, a um processo de impeachment do presidente por causa da pandemia e que o "caminho do PSDB é a oposição ao governo Bolsonaro, distante dos extremos".

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Estadão
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