O fator Lula e o fim do carlismo: como a Bahia trocou a devoção a ACM pela hegemonia petista
Disputa entre ACM Neto (União) e Jerônimo Rodrigues (PT) permanece imprevisível para analistas políticos
Na disputa ao governo da Bahia este ano, de um lado, há um candidato que carrega no próprio nome parte significativa da história política do Estado. Do outro, um candidato à reeleição com índice de aprovação menor que seu antecessor e que chegou na política quase como um desconhecido. Este segundo, porém, divide o palanque com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), atualmente o mais importante cabo eleitoral no Estado.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
O pleito de 2026 na Bahia revive a batalha travada em 2022: ACM Neto (União) enfrenta Jerônimo Rodrigues (PT). A disputa é acirrada e imprevisível, com as pesquisas de intenção de voto colocando-os como tecnicamente empatados. Naquele primeiro embate, Neto percebeu que não lhe bastava o nome do avô para chegar ao governo e o PT conseguiu passar por sua maior prova de força desde sua chegada ao poder no Estado, em 2006, com Jaques Wagner.
A Bahia e o carlismo
Para entender melhor o xadrez político da Bahia é preciso, primeiro, relembrar o carlismo. A política moderna no Estado é marcada pelo nome de Antônio Carlos Magalhães (ACM), três vezes governador – duas na Ditadura Militar e uma por voto direto –, além de ter sido prefeito de Salvador, deputado estadual e federal, ministro e presidente do Senado Federal.
Da figura de ACM nasceu a expressão “carlismo”, que pode ser interpretada de três diferentes formas, segundo o cientista político e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Paulo Fábio Dantas Melo.
- O carlismo como o grupo de seguidores de ACM, organizado de forma vertical em torno do líder político;
- O carlismo como um grupo político mais amplo, com diferentes alas, partidos aliados e dinâmica própria, que tinha ACM como principal liderança, mas não se limitava à sua figura;
- O carlismo como uma forma de fazer política, marcada por determinadas práticas e comportamentos que podem permanecer mesmo depois do fim do grupo e de suas principais lideranças.
Para Melo, os dois primeiros tipos de carlismo já não existem mais. O grupo de seguidores de ACM teria deixado de existir em 2001, após ele, então senador, renunciar ao cargo para escapar de um processo de cassação. Na época, estourou o escândalo da violação do painel do Senado, em que ACM teve acesso a informações sigilosas de votação dos senadores em uma sessão.
Já o segundo tipo de carlismo, que se refere ao grupo político mais amplo, para Paulo Fábio Dantas, acabou em 2010, justamente com a reeleição de Jaques Wagner ao governo e a cooptação do político Otto Alencar, que foi seu vice, para a base petista.
“Eu digo que o carlismo acabou não quando perdeu o governo em 2006 [também para Jaques Wagner], nem quando Antônio Carlos Magalhães morreu em 2007, mas perdeu em 2010, quando a operação, a estratégia política do PT, incorporando não apenas outros aliados, como principalmente o Otto Alencar, dizimou o grupo carlista”, afirma.
Em entrevista a um site baiano em 2020, Otto confessou que, se em 2010 ACM estivesse vivo, não teria aceitado o convite para ser vice de Wagner. “Eu só devia satisfações a Antônio Carlos”, disse.
Com relação à permanência de um terceiro grupo do carlismo na Bahia, como uma forma de se fazer política, o professor Paulo Fábio considera que há, sim, “um legado pairando com diversos atores da política baiana, estejam eles na oposição ou no governo atualmente”.
ACM Neto e o carlismo
Na campanha de 2022, ACM Neto reviveu um clássico jingle de seu avô, que começa com a seguinte pergunta: “Você se lembra de mim?” até chegar ao refrão “ACM, meu amor”. Para o também cientista político e professor no Mestrado de Ciências Sociais da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Cláudio André de Souza, o uso do jingle é um exemplo de como Neto ainda resgata a imagem do avô.
“Essa imagem nunca deixa de estar presente. Ela pode até mudar o enfoque, estar mais, estar menos, mas é importante destacar como é um referencial de memória, de como ele ainda reverencia a influência, a imagem do avô”, afirma.
Para Cláudio André, no entanto, Neto já não estaria inserido no “carlismo”, mas em uma espécie de “pós-carlismo”. “É uma nova etapa que passa a ser liderada por ACM Neto, ele passa a ser uma liderança de um grupo que existiu antes com seu avô”, diz.
O cuidado em não se tornar um reflexo indissociável da imagem do avô não é à toa. Há, na Bahia, muitos eleitores que ainda pensam em ACM com saudosismo, enquanto outros, mais alinhados à esquerda, associam o carlismo a uma era negativa na história baiana.
O professor Cláudio André explica que a gestão de ACM avô promoveu, sim, uma agenda modernizadora na Bahia e representava os interesses baianos no cenário nacional. Isso não mudaria o fato, porém, de que sua atuação teria sido ancorada no autoritarismo, tendo sua figura ficado marcada como a de um “coronel”.
“Sem dúvida, o passado de ACM foi muito marcado por uma centralização política e uma perseguição aos adversários, uma situação de que ele não permitia, por exemplo, a liberdade de imprensa”, afirma.
O professor Paulo Fábio Dantas também avalia que Neto usa prudentemente a imagem do avô em sua campanha. Nessas eleições, inclusive, ele destaca como o candidato abraçou apenas o nome “Neto” nos jingles deste ano.
“Ele também apela para a memória do avô, mas muito pontualmente. Certas coisas que ele quer lembrar, outras ele não quer lembrar. O administrador, o cara que modernizou a Bahia, ele usa prudentemente, mas ele não quer uma identificação política com o avô”, diz.
A força do lulismo e presidencialismo na Bahia
A eleição de Jaques Wagner, em 2006, pode ser considerada a primeira grande quebra com o carlismo na Bahia. Desde 1991, quando ACM foi eleito democraticamente pela primeira vez, até então, apenas candidatos de sua base haviam chegado ao governo estadual. Wagner quebrou o ciclo.
Mas, para os cientistas políticos ouvidos pelo Terra, o feito não está na figura de Wagner em si, mas em um outro nome: Lula.
“O PT chegou ao governo federal antes de chegar ao poder estadual. E o Jaques Wagner, em 2006, já foi um candidato que não teve mais que lutar contra duas máquinas, a máquina estadual e a máquina federal”, afirma Paulo Fábio Dantas, se referindo à eleição anterior, de 2002, que Wagner não conseguiu arrematar.
O cientista político explica que, na Bahia, é observado historicamente que os governadores eleitos tendem a estar alinhados com os presidentes da época. Ao menos desde 1958, e descontando os anos de ditadura, “nunca aconteceu um candidato vencer as eleições para governador sendo oposição nos dois níveis simultaneamente”, afirma o professor.
Além de não ter o apoio de Lula, Neto não possui campanhas fortes no âmbito nacional para se atrelar. Em 2022, ele optou por uma postura de neutralidade, que, para Paulo Fábio, lhe custou muito.
“Ele não precisava de um candidato [à Presidência] que ganhasse a eleição, bastava ele ter um candidato para chamar de seu”, diz. “Faltou ousadia e estratégia”, complementa.
Nesta eleição, Neto optou por apoiar Ronaldo Caiado (PSD), que aparece com apenas 1% das intenções de voto. Para os analistas, o herdeiro de ACM só teria chances ao governo estadual baiano caso angarie votos cruzados, como defendem os eleitores que se dizem “Luleto”. “Neto precisaria criar uma inflexão no eleitorado lulista”, avalia o professor Cláudio André.

Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.