O algoritmo influencia o que você vê. Mas até onde isso afeta seu voto?
Redes ampliam o alcance de conteúdos políticos, mas ainda há limites para medir seus efeitos sobre as escolhas eleitorais.
Você nunca seguiu um político, não procurou seu nome e, mesmo assim, começou a encontrar vídeos dele no feed. A repetição pode dar a impressão de que aquele candidato está em toda parte. Mas como esses conteúdos chegam até você? E quanto essa exposição influencia seu voto?
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No TikTok, as recomendações não dependem apenas das contas seguidas. O sistema considera sinais como interações e tempo de visualização para selecionar vídeos que possam interessar ao usuário. Um estudo do InternetLab, publicado em 2022, analisou a atuação de Lula e Jair Bolsonaro na plataforma, mostrando a importância de observar a circulação dos conteúdos para além do número de seguidores. Isso, porém, não comprova que o algoritmo determine resultados eleitorais.
Parte dessa circulação pode ser explicada pelo ragebait, conteúdo que provoca indignação para estimular interações. Um estudo publicado em 2017 na revista PNAS analisou mais de 563 mil mensagens sobre temas polarizadores e identificou um aumento de 20% na difusão para cada palavra de conteúdo moral e emocional. Já uma meta-análise de 2025, com quase 4,8 milhões de observações, encontrou um efeito de aproximadamente 13%. Os resultados indicam que a emoção favorece o compartilhamento, mas não demonstram, por si só, como o algoritmo distribui essas publicações.
Como os políticos se adaptam
Atentas à dinâmica das plataformas, campanhas passaram a investir em vídeos curtos, cortes de entrevistas e confrontos. O Instituto Democracia em Xeque (DX) identificou esse movimento também na esquerda. Segundo Beatriz Besen, coordenadora da organização, o campo passou a apostar em vídeos de confronto, inclusive com lideranças da extrema direita.
A diferença aparece nos temas: enquanto a extrema direita enfatiza disputas nacionais, candidaturas de esquerda ainda recorrem à mobilização por direitos. Para Besen, a adaptação aos formatos digitais tornou a comunicação mais dinâmica e favoreceu o engajamento, ainda que o alcance, isoladamente, não garanta votos.
O que os experimentos mostram
Para investigar essa relação, pesquisadores alteraram o funcionamento dos feeds em estudos realizados em parceria com a Meta nos Estados Unidos (GUESS et al., 2023). Usuários do Facebook e do Instagram passaram a receber publicações em ordem cronológica, em vez de recomendações algorítmicas. Embora tenham passado menos tempo nas plataformas e visto mais conteúdo político e não confiável, não apresentaram mudanças significativas na polarização das opiniões nem na hostilidade entre grupos opostos.
Uma carta publicada na Science, em 2024, apontou 63 mudanças emergenciais feitas pela Meta durante o período estudado, aspecto relevante para interpretar os resultados (BAGCHI et al., 2024).
Engajamento não garante votos
Nas eleições brasileiras, a relação também é complexa. Segundo Besen, salvo em votações excepcionais, não é possível estabelecer correlação direta entre engajamento nas redes e desempenho eleitoral, já que fatores como financiamento, experiência em mandatos e capital político familiar igualmente pesam na disputa.
O caso de Vitória Souza ajuda a ilustrar essa diferença. Com quase 5 milhões de seguidores no Instagram em 2024, ela recebeu 52 votos na disputa para vereadora. Em 2026, concorreu a deputada federal por São Paulo, obteve 43.643 votos e ficou como suplente. A trajetória mostra que a audiência digital não se converte automaticamente em votos, embora seja parte da estratégia eleitoral.
Para Besen, não basta depender da autorregulação das plataformas. A pesquisadora defende que a regulação considere não apenas os conteúdos publicados, mas também sua distribuição.
Entender a influência dos algoritmos sobre a política exige investigar quem recebe cada conteúdo, com que frequência e quais efeitos essa exposição produz. Afinal, entre aparecer no feed e convencer alguém a votar, existe um caminho que a popularidade nas redes, sozinha, não explica.
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