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Lula pode vencer no primeiro turno? Especialistas apontam fatores que devem ser decisivos

Pesquisa Ipec indica chance de vitória do candidato do PT, mas eleitores de Ciro Gomes e mulheres podem mudar o rumo da eleição

30 ago 2022 - 12h50
(atualizado às 13h47)
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Lula em debate na Band
Lula em debate na Band
Foto: Renato Pizzutto/Band

Pesquisa Ipec divulgada nesta segunda-feira, 29, indicou estabilidade na corrida presidencial e manteve a perspectiva de vitória em primeiro turno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), líder de intenções de voto segundo a maioria das sondagens. De acordo com a amostra, o candidato do PT tem 51% dos votos válidos (descontados nulos e brancos), ante 38% do presidente Jair Bolsonaro (PL). Isso significa que, se a eleição fosse hoje, o petista poderia sair vitorioso já na primeira rodada de votação.

Especialistas ouvidos pelo Estadão afirmam que há uma tendência de estabilidade das intenções de voto em Lula no primeiro turno, enquanto para Bolsonaro a perspectiva é de alta discreta. Eles concordam que o resultado do pleito não está definido, mas divergem sobre os fatores que podem influenciar o resultado até 2 de outubro.

Pelas regras da Justiça Eleitoral, um candidato só vence o pleito majoritário se for escolhido pela maioria dos eleitores, ou seja, por pelo menos 50% mais 1 dos votos. No primeiro turno, quando há vários presidenciáveis à disposição na urna, há maior dispersão de votos, mas, caso um dos postulantes receba sozinho mais de 50% dos votos, o pleito se encerra.

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    O cálculo dos votos válidos que determina a vitória exclui os votos brancos (quando se pressiona a tecla "branco" na urna) e nulos (quando se digita o número de um candidato que não existe).

    O cientista político Humberto Dantas, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP-SP), afirma que a definição do pleito em primeiro turno está nas mãos dos eleitores de Ciro Gomes (PDT). Pesquisa BTG/FSB divulgada nesta segunda-feira, 29, mostrou que 47% dos que declaram voto no candidato do PDT ainda consideram mudar de ideia até 2 de outubro. Segundo Dantas, a maior parte do eleitorado "indeciso" de Ciro estaria inclinada a migrar para Lula, não para Bolsonaro, em tese.

    "O horário eleitoral gratuito e a aproximação com a campanha vão fazer com que o eleitor do Ciro Gomes se mexa. Se o Ciro conseguir aumentar a sua capacidade de voto, vai haver segundo turno. Se esse eleitor do Ciro optar por votar em Lula no primeiro turno, cresce a chance de vitória do petista", afirma o cientista.

    Na avaliação do cientista político Humberto Dantas, os eleitores de Ciro Gomes (PDT) serão decisivos para a resolução em primeiro turno. Foto: Miguel Schincariol/AFP

    "Hoje, pelo Ipec, o Lula estaria muito próximo de se eleger no primeiro turno. E não há nenhuma dúvida que a campanha dele se esforçará para dizer isso de maneira sutil e discreta, sobretudo para o eleitor do Ciro", completa.

    Dantas pondera que o crescimento mais expressivo de Bolsonaro ocorreu em abril, quando Sergio Moro (à época presidenciável pelo Podemos) saiu da disputa. O ex-juiz, segundo o cientista, era visto pelo eleitor como uma alternativa, uma "estepe" do presidente da República.

    A cientista política Carolina Botelho, do Laboratório de Estudos Eleitorais, de Comunicação Política e Opinião Pública da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), avalia que a peça fundamental para a resolução em primeiro turno são as mulheres, grupo no qual a rejeição do presidente Bolsonaro é alta.

    Carolina aponta que ainda há uma parcela significativa de mulheres indecisas, principalmente as mais velhas. A direção do voto dessa parcela da população pode ser decisiva, segundo ela. No debate exibido pela Band no último domingo, 28, o presidente Bolsonaro teve dois episódios com a jornalista Vera Magalhães e a senadora Simone Tebet (MDB) que repercutiram mal. O chefe do Executivo chegou a afirmar que Vera deve "dormir pensando nele".

    "A resolução no primeiro turno não é impossível. As mulheres são um grupo importante para Lula se aproximar e do qual o presidente Bolsonaro tem se desgarrado cada vez mais", afirma.

    "Também é importante dizer que Bolsonaro ampliou um pouco mais a vantagem entre evangélicos. Outro ponto, ainda, é que não sabemos se haverá abstenção no primeiro turno", avalia Carolina. Esses e outros detalhes que ainda podem surgir pelo caminho tornam incerta a chance de vitória de Lula em 2 de outubro, segundo ela.

    Contudo, Carolina e Dantas concordam que o cenário eleitoral ainda pode sofrer alterações no decorrer de setembro. Carolina recorda que, historicamente, as eleições presidenciais no Brasil são levadas para o segundo turno, e, embora Lula tenha apresentado alguma chance de vitória na primeira rodada, a melhora no desempenho de candidatos como Tebet e Ciro Gomes trazem dificuldade para o petista. Dantas observa que a pesquisa Ipec ainda não reflete com consistência o efeito do horário eleitoral gratuito, que começou na última sexta-feira e deve ter relevância este ano.

    Na avaliação do cientista político Cláudio André de Souza, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), os números da avaliação do governo na pesquisa Ipec mostram uma tendência de alta para Bolsonaro, apesar do cenário de estabilidade apontado pelo levantamento. O especialista afirma ainda que um segundo turno beneficiaria Bolsonaro porque daria a ele mais tempo para melhorar sua avaliação. "(O segundo turno) pode dar um fôlego para gerar impacto maior da recuperação do presidente quanto à diminuição da avaliação negativa, e isso pode se tornar intenção de voto", diz.

    Estadão
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