Entenda como Douglas Ruas conseguiu ficar à frente de Paes na eleição do RJ
Candidato do PL terminou o primeiro turno com 49,27% dos votos, enquando Paes registrou 42,76%
O primeiro turno da eleição para o governo do Rio de Janeiro foi marcado pela larga vantagem de Douglas Ruas (PL) sobre Eduardo Paes (PSD). O cenário contrariou as projeções da maioria dos institutos de pesquisa, que indicavam vantagem para Paes na primeira etapa.
Ruas terminou o primeiro turno com 49,27% dos votos, enquanto seu principal adversário registrou 42,76%. As porcentagens chamaram a atenção, uma vez que as principais pesquisas de intenção de voto indicaram vantagem de Paes durante todo o primeiro turno.
O levantamento do Datafolha, divulgado no último sábado, 5, por exemplo, projetava 46% dos votos válidos para o candidato do PSD, ante 38% para Ruas. A Quaest, no mesmo dia 5, apontou 49% para Paes e 40% para Ruas.
De acordo com Ricardo Ismael, professor de Ciência Política da PUC-Rio, a nacionalização da campanha do candidato do PL contribuiu para o resultado do primeiro turno.
“A estratégia de Douglas Ruas de nacionalizar a eleição para governador do estado do Rio de Janeiro produziu o resultado esperado. Sua candidatura ganhou impulso ao pedir voto associado a Flávio Bolsonaro”, observou.
Força do bolsonarismo
Para Mayra Goulart, professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o resultado no Rio de Janeiro ajuda a explicar também o desempenho de Flávio Bolsonaro (PL) na disputa presidencial. Segundo ela, a votação do candidato foi maior no estado do que o esperado pelas pesquisas de intenção de voto.
“Primeiro, o Rio de Janeiro explica de onde saiu boa parte da margem superior que extrapolou as pesquisas de intenção de voto, uma vez que a votação a favor de Bolsonaro foi muito maior no Rio do que se esperava, principalmente no início da eleição”, afirmou.
Na avaliação da professora, o resultado do primeiro turno também mostra os limites para uma candidatura de direita que tente se afastar do bolsonarismo.
“O Rio de Janeiro mostra que não existe espaço na direita para nada que não seja o bolsonarismo”, disse.
Paes e a direita ‘não bolsonarista’
Mayra avalia que Eduardo Paes tentou se apresentar como uma alternativa que não era de esquerda e, apesar da ligação com o governo federal, buscou alcançar eleitores de uma direita não bolsonarista.
“O Eduardo Paes se lançou como um candidato que não era de esquerda, como um candidato que rejeitava [ser identificado com a esquerda], embora tivesse uma ligação com o governo federal. Ele não se apresentava como de esquerda, queria pegar os votos de uma direita não bolsonarista”, afirmou.
Para ela, no entanto, a estratégia não funcionou.
“E foi trucidado dentro disso, teve apenas os votos da esquerda. Essa é a minha leitura sobre a votação de Eduardo Paes: que ele ficou com os votos da esquerda.”
A avaliação é semelhante à feita por Ismael, que apontou uma mudança no cenário eleitoral ao longo da campanha. Para o professor, Paes apostou que seria suficiente se colocar como principal nome de oposição ao ex-governador Cláudio Castro.
“O principal erro foi pensar que seria suficiente para vencer se colocar como principal candidato de oposição ao governo Cláudio Castro. Quando a eleição presidencial entrou no radar do eleitorado, Paes ficou sem saber o que fazer”, afirmou.
Dificuldade da esquerda em eleições majoritárias
A professora Mayra Goulart também relacionou o resultado à dificuldade da esquerda de conquistar eleições majoritárias no estado. Ela citou como exemplo a disputa pelo Senado.
“Nem a Benedita da Silva foi eleita, mesmo tendo uma larga experiência, tendo uma votação também que se enraíza na comunidade evangélica. Mas, mesmo assim, a esquerda encontra muita dificuldade.”
Redes sociais e tecnologia
Outro fator apontado pela professora é a capacidade da direita de se enraizar no estado por meio de redes políticas e sociais. Segundo ela, a estrutura da direita e as redes clientelares ajudam a explicar a força desse campo político.
Ela também destacou o uso de influenciadores e grupos de WhatsApp para alcançar eleitores em diferentes ambientes sociais.
“Mas sobretudo, de usar uma tecnologia de informação através de influencers, grupos de WhatsApp, dos mais diferentes tipos. Na igreja, na academia, no local de trabalho.”
Segundo Mayra, essa capilaridade permite que o eleitor receba informações fora dos canais tradicionais de comunicação.
“Tudo isso, todo esse caldo de cultura permite que eles informem esse eleitor de maneira muito mais dissonante do que os veículos de mídia tradicional fazem”, afirmou.
Ainda segundo Ricardo Ismael, a vantagem de Ruas ilustra a força do bolsonarismo no eleitorado fluminense. “O bolsonarismo no estado do Rio de Janeiro é uma força política eleitoralmente forte, como pode ser visto nas eleições de 2018, 2022 e 2026.”
Ruas pode ser eleito já no 1º turno
O ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos) desistiu nesta segunda-feira do recurso contra o indeferimento de seu registro de candidatura pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ). Com a retirada do recurso, os 274.411 votos recebidos por ele são excluídos da apuração, reduzindo o total de votos válidos e fazendo com que Douglas Ruas ultrapasse a marca de 50%.
Com isso, o candidato do PL poderá ser proclamado governador eleito do Rio de Janeiro já no primeiro turno. A decisão de Garotinho foi encaminhada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e, no documento, o ex-governador afirmou ter tomado a decisão de forma "voluntária, consciente e desprovida de qualquer vício de vontade."
Até então, o cenário era de segundo turno entre Ruas e Eduardo Paes. Favorito nas principais pesquisas de intenção de voto no primeiro turno, Paes afirmou, após o resultado das urnas, que o Rio não seria governado por Flávio Bolsonaro ou Lula e criticou o adversário.
"Mais uma vez, graças a Deus, a população teve a sabedoria de não permitir uma vitória no primeiro turno. Mais uma vez a população do Estado do Rio de Janeiro quase foi enganada e votou num sujeito que ninguém conhece, ninguém sabe de onde veio, a partir de um cenário nacional”, afirmou Paes.

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