Eleição em Curitiba coloca “herdeiros políticos” frente a frente
Os candidatos que ostentam as maiores coligações na disputa para a Prefeitura de Curitiba têm em comum o fato de serem “herdeiros políticos”. Tanto o atual prefeito, Gustavo Fruet (PDT), que concorre à reeleição, como seus principais adversários, Requião Filho (PMDB), Rafael Greca (PMN), Ney Leprevost (PSD) e Maria Victoria (PP), pertencem a famílias tradicionais no meio. O pedetista, o peemedebista e a pepista são filhos, respectivamente, de Maurício Fruet, que ocupou o Palácio 29 de Março (sede do Executivo municipal) entre 1983 e 1985; do senador Roberto Requião (PMDB-PR); e do ministro da Saúde, Ricardo Barros (PP), com a vice-governadora do Estado, Cida Borguetti (PP).
De acordo com o cientista político e sociólogo Ricardo Costa Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que é autor do livro Na Teia do Nepotismo (Insight Editora, 2012), mesmo Leprevost e Greca ingressaram na carreira devido à influência de parentes. O avô do primeiro, que tinha o mesmo nome, foi prefeito em 1948. “E o Greca é das mais antigas oligarquias do Paraná, a família Macedo, muito influente na Associação Comercial e no Tribunal de Justiça. Tem poder desde o período colonial, atravessando o Império e a Primeira República, no século 20”, afirmou. Ele citou ainda o fato de o vice de Greca, Eduardo Pimentel Slaviero (PSDB), ser neto do ex-governador biônico Paulo Pimentel.
Também concorrem ao posto a advogada e militante feminista Xênia Mello (PSOL), coligada com o PCB; o deputado estadual Tadeu Veneri (PT); o empresário Ademar Pereira (Pros) e o pró-reitor da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) Afonso Rangel (PRP), estes três últimos em “chapas puras”. Com exceção do petista, que exerce o terceiro mandato na Assembleia Legislativa (Alep) e tem origem no movimento sindical, nenhum deles ocupou cargos eletivos.
Para o sociólogo, o nepotismo estrutural organiza a política em todo o País. “A política é um negócio de poucas famílias. [Isso] só mostra a oligarquização familiar que o Brasil vive atualmente. É a maneira como a classe dominante controla o Estado”, avaliou. O professor disse ainda que o Paraná apresenta algumas oligarquias piores que as do Nordeste, especialmente Alagoas, Piauí e Maranhão, também conhecidos por esse tipo de hereditariedade. “É um caráter arcaico, que mostra o nosso atraso e amplia a desigualdade”.
Os candidatos, contudo, fazem análises distintas. Greca contou que seu pai foi engenheiro do Departamento de Estradas e Rodagem (DER) do Paraná e que sua mãe era professora normalista, enquanto os avós exerceram diversas profissões, incluindo a de madeireiro, a de ervateiro e a de comerciante. “Não sei onde ele [Oliveira] viu tanta nobreza”, brincou. “O primeiro prefeito de Curitiba na regência [regime monárquico] foi [José] Borges de Macedo. Não é meu antepassado. Não acredito, mas adoro essa história”, completou. Segundo o ex-ministro do Turismo, falar em hereditariedade na política é uma bobagem. “Somos todos parentes por parte de Adão e Eva. E o bom é que me sinto parente de todos os curitibanos”.
Maria Victoria argumentou que, independentemente da origem, a decisão sobre o voto cabe ao eleitor. “É um orgulho para mim ser filha dos dois [Cida e Ricardo Barros]. Tenho certeza que isso vem a colaborar pela trajetória política que foi traçada até hoje, com uma política séria e honesta, que é o que as pessoas estão buscando (…) Eu nasci na política. E quem escolhe são as pessoas. Se minha família está na política há tanto tempo, é um reconhecimento ao nosso trabalho”, comentou.
Na avaliação de Fruet, a discussão em torno do tema é permanente. “Os Estados Unidos podem eleger a [ex-primeira-dama] Hillary Clinton. Da minha parte, falo com orgulho desta história. Mas nós temos que ter a capacidade de renovação, não cristalizar. É isso que está em jogo nesta eleição: a volta ao passado, a métodos que marcaram a política e as eleições nas décadas de 80 e 90 ou a capacidade de não fossilizar, não cristalizar e ter, inclusive, a humildade de se adequar e compreender a mudança do momento”, opinou.
Já Requião Filho citou o fato de que “todo mundo é filho de alguém”. “Não tem ninguém filho de chocadeira. Vejo isso com naturalidade. Vi o trabalho que meu pai fez na politica e quis seguir. Eu me coloco hoje com o nome e a marca Requião, mas apresento meu próprio trabalho na Assembleia, as minhas ideias e as minhas posições. Acho que ninguém é eleito apenas pelo nome. Ou não será mais eleito pelo nome, até porque os filhos de políticos que me antecederam acabaram queimando os marcas”.
Por outro lado, o peemedebista admitiu que, com a atual legislação, é sim muito mais fácil ter um sobrenome conhecido. “Nós temos uma reforma eleitoral que beneficia quem já exerce cargo e já tem nome. Será uma campanha mais curta, em que é proibido fazer divulgação e colocar novas ideias”, lamentou. A lei 13.165, sancionada em 2015 e válida a partir deste pleito, reduziu o prazo oficial de campanha, de 90 para 45 dias, e o período para propaganda no rádio e na TV. Além disso, estabeleceu um limite para captação e proibiu o financiamento privado.
Chapas e coligações em Curitiba
• Gustavo Fruet (PDT)
Vice: Paulo Salamuni (PV)
Coligação: PDT, PV, PTB, PRB e PPS
• Rafael Greca (PMN)
Vice: Eduardo Pimentel Slaviero (PSDB)
Coligação: PMN, PSDB, PTN, PSB, PTdoB, PSDC e DEM.
• Ney Leprevost (PSD)
Vice: João Guilherme Moraes (PSC)
Coligação: PSD, PSC, PEN, PPL, PTC, PSL e PCdoB.
• Maria Victoria (PP)
Vice: Luciano Pizzatto (PRTB)
Coligação: PP, PMB, PR, PRTB, PHS e SD.
• Requião Filho (PMDB)
Vice: Jorge Bernardi (Rede)
Coligação: PMDB e Rede Sustentabilidade
• Tadeu Veneri (PT)
Vice: Nasser Ahmad Allan (PT)
Chapa pura
• Xênia Melo (PSOL)
Vice: Rodolfo Jaruga (PSOL)
Coligação: PSOL e PCB
• Ademar Pereira (Pros)
Vice: Porfírio Vengue (Pros)
Chapa pura
• Afonso Rangel (PRP)
Vice: Rick Vilarinho (PRP)
Chapa pura