De 'herói' da democracia a 'cabo eleitoral involuntário' de Flávio: como Moraes impactou a eleição e corre risco de impeachment
Atuação do ministro na defesa da democracia foi contraposta a questionamentos sobre sua conduta e alimentou discurso da extrema-direita
Alexandre de Moraes chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelas mãos de Michel Temer, considerado um adversário político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ainda assim, ao longo dos últimos anos, o ministro passou a ser associado ao petista por sua atuação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na defesa da urna eletrônica e, posteriormente, na condução dos processos contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
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A relação, embora não tenha origem em uma indicação de Lula --o PT, inclusive, foi contrário à escolha de Moraes em 2017-- ganhou força no imaginário político bolsonarista. Na eleição de 2022, Moraes presidia o TSE e adotou medidas contra desinformação e ataques ao sistema eleitoral. Depois, como relator de investigações no STF, participou da condução dos processos que culminaram na condenação de Bolsonaro e aliados pela tentativa de golpe de Estado.
O resultado foi uma associação cada vez maior entre o ministro e o campo político de Lula. Essa percepção voltou a pesar na eleição de 2026 por um motivo diferente: as suspeitas envolvendo Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, que, segundo especialistas ouvidos pelo Terra, alimentaram o discurso da direita contra o STF e, por consequência, atingiram também o presidente.
De símbolo da defesa da democracia a alvo de críticas
A imagem pública de Moraes passou por uma mudança significativa desde 2023. Após os ataques de 8 de janeiro, o ministro se tornou uma das principais figuras associadas à reação institucional contra a tentativa de ruptura democrática e à responsabilização dos envolvidos.
O protagonismo também chamou atenção fora do Brasil. Em 2024, o Financial Times o apresentou como o "implacável juiz brasileiro que enfrenta Elon Musk", em referência ao embate com o dono do X. No ano seguinte, a The Economist o classificou como "juiz estrela" em um sistema formado por magistrados com "poder excessivo". A The New Yorker, por sua vez, publicou uma entrevista com Moraes acompanhada de um ensaio fotográfico.
A mudança de percepção, porém, não ocorreu de uma hora para outra. Moraes passou a ocupar uma posição central no conflito entre o STF e setores da direita, ao mesmo tempo em que era celebrado por grupos que viam sua atuação como parte da defesa das instituições democráticas. A própria imprensa internacional passou a retratá-lo como uma figura polarizadora, entre críticas ao alcance de seus poderes e elogios à atuação contra ataques à democracia.
Foi nesse contexto que as revelações sobre o Banco Master abriram uma nova frente de desgaste.
Caso Master muda o significado da associação com Lula
A divulgação de mensagens e documentos relacionados à relação entre Moraes e Daniel Vorcaro colocou o ministro no centro de uma crise que extrapolou o STF. Documentos e mensagens tornados públicos passaram a mostrar contatos entre o ministro, pessoas próximas a ele e o ex-banqueiro, além de contratos envolvendo o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Moraes nega irregularidades.
O caso também levou parlamentares a defenderem o afastamento do ministro. Em setembro, senadores apresentaram pedidos de impeachment e associaram as revelações a possíveis crimes de responsabilidade; cabe ao Senado processar e julgar ministros do STF por esse tipo de crime.
Para Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV, o episódio teve peso eleitoral justamente porque atingiu a imagem construída por Moraes nos anos anteriores.
"Ele basicamente seguiu o papel dele, só foi corajoso", afirma Paz, ao avaliar positivamente a atuação do ministro na condução dos processos relacionados aos ataques à democracia. Segundo o pesquisador, o caso Master, porém, "quebra um pouco essa imagem" de Moraes como um juiz ilibado.
Na avaliação de Adriane Buarque, coordenadora do Esfera Lab, da ESPM, os episódios envolvendo o STF também consumiram espaço que poderia ter sido utilizado pelas campanhas para discutir propostas e dialogar diretamente com os eleitores.
"O STF envolvido demandou um tempo da campanha [de Lula] que poderia ter trabalhado para ficar mais próximo do eleitor, para apresentar proposta."
Outro fator apontado pela especialista foi a falta de debates, que, segundo ela, reduziu o espaço para que Lula apresentasse suas propostas e explicasse como enxergava sua relação com Alexandre de Moraes.
Na avaliação de Adriane, parte dos eleitores acabou buscando outras alternativas e, na reta final da campanha, pode ter migrado para Flávio Bolsonaro, mesmo diante das associações do candidato do PL com o caso Master. O senador é investigado pela Polícia Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros crimes correlatos no caso “Dark Horse”, que apura o financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro. A investigação busca esclarecer a origem e o destino dos recursos repassados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para a produção do filme.
Para ela, a percepção de que diferentes atores estavam envolvidos nas controvérsias também pode ter influenciado esse movimento, contribuindo tanto para o chamado voto útil quanto para a abstenção.
“Muitas vezes, as pessoas falaram: ‘Eu não concordo com nenhum dos lados, então eu vou acabar não votando em nenhum dos dois’. Então teve esse movimento da opinião pública desgastada por isso, sendo que a pessoa que representava a democracia, que era o Alexandre de Moraes, acabou sendo envolvida em um escândalo.”
Como Moraes passou a ser associado a Lula
Apesar de não ter sido indicado por Lula, Moraes acabou vinculado ao presidente em dois momentos principais, segundo Paz. O primeiro ocorreu durante a eleição de 2022, quando o ministro comandava o TSE. A atuação contra fake news e outras formas de desinformação, além da defesa da segurança das urnas, foi interpretada pelo bolsonarismo como uma ação favorável a Lula. "Então, ele foi visto como um ator que ajudou o Lula a se eleger", afirmou Paz.
A associação ganhou um segundo componente depois da eleição. Como relator de processos envolvendo Bolsonaro e seus aliados, Moraes passou a ocupar uma posição central nas investigações e no julgamento da tentativa de golpe de Estado.
Lula também elogiou publicamente a atuação do ministro na defesa da democracia, o que reforçou, no campo político, a percepção de proximidade entre os dois. Para Paz, no entanto, essa associação é resultado de uma confusão entre instituições e governo.
“Muitas vezes, as pessoas têm dificuldade de distinguir as instituições. Quando acontece alguma coisa em uma ou outra, tudo vira culpa do presidente. Então, no caso do Moraes, é a mesma coisa. O Moraes é associado ao Lula por ser parte do Supremo. Se o Supremo está dando errado, está passando por crises de corrupção séria, e o presidente Lula está na gestão dele, ele acaba sendo relacionado com isso, de forma equivocada, porém de forma direta.”
Impeachment entra no cálculo eleitoral
A pauta de responsabilização de ministros do STF ganhou espaço especialmente nas campanhas para o Senado. Segundo Paz, a defesa de uma bancada capaz de abrir processos de impeachment foi um dos elementos mais presentes no discurso de candidatos de direita durante a eleição.
"As candidaturas Senado, principalmente a da extrema direita, foram totalmente vinculadas à ideia: 'Precisamos fazer um Senado que consiga fazer impeachment de ministro do Supremo'."
O principal alvo desse discurso foi Moraes. Após as eleições, a composição do Senado passou a ser observada como um fator importante para a possibilidade de avanço da pauta. Uma bancada relevante de senadores eleitos favoráveis ao impeachment de ministros do Supremo, embora ainda sem o número necessário para garantir, por si só, a abertura e aprovação de um processo.
Na prática, porém, não basta reunir votos. O andamento de um pedido depende também da Presidência do Senado, responsável por decidir sobre a pauta da Casa. Paz destaca justamente esse ponto ao projetar o cenário para 2027. "Também não adianta você ter os votos para o impeachment e o presidente da do Senado não pautar, não adianta nada."
O Senado já recebeu pedidos contra Moraes. Em setembro, por exemplo, o senador Carlos Viana (PSD-MG) protocolou uma representação por crime de responsabilidade e pediu o impeachment do ministro, citando as suspeitas relacionadas a Vorcaro.
Para Adriane, a principal consequência política desse processo é que o STF acabou ocupando um espaço maior do que deveria em uma disputa presidencial que, na visão dela, deveria estar concentrada em propostas e políticas públicas. Por isso, a especialista considera que o segundo turno precisa reduzir esse peso e recolocar os candidatos diante de questões diretamente relacionadas ao governo. "A eleição precisa ser pautada em proposta, em governo", declarou.

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