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Eleições 2026: estudo aponta que 69% dos eleitores não estão polarizados, enquanto crescem negatividade e apatia

Também cresceu o número de eleitores que rejeitam um dos campos ideológicos sem mostrar vínculo positivo com o outro. O que sugere que a rejeição ganhou peso próprio e também passou a organizar a relação dos cidadãos com a política

3 set 2026 - 11h18
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Resumo
Pesquisa da FESPSP revela que 69% dos eleitores brasileiros não vivem a polarização afetiva estrita entre Lula e Bolsonaro. Embora esse grupo extremo tenha crescido de 19% para 31% entre 2006 e 2026, a maior mudança no país é a negativização política: aumentaram a indiferença e a rejeição a um lado sem adesão ao outro. Esse contingente não polarizado é heterogêneo e marcado por desencanto e apatia, fatores que impulsionam a abstenção eleitoral e fragilizam as bases da democracia representativa.

No Brasil atual, Lula e Bolsonaro se consolidaram como referências afetivas de campos opostos. Para muitos eleitores, eles simbolizam pertencimento, ameaça, esperança, medo ou raiva. Mas ainda que a imagem de um país dividido em dois blocos equivalentes seja muito forte e disseminada, essa é uma visão incompleta do comportamento dos eleitores.

Para captar as nuances desse cenário, comparamos dois levantamentos nacionais que cobrem duas décadas. O primeiro, realizado em 2006, ouviu 2.400 pessoas e mediu sentimentos em relação a Lula e Geraldo Alckmin. O segundo, feito em maio de 2026, com 1.500 entrevistas, abordou Lula e Bolsonaro como referências dos principais campos políticos nacionais. As duas pesquisas foram realizadas presencialmente, face a face, com amostras representativas da população brasileira.

Conduzida pelo Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), a pesquisa mostrou que 69% dos brasileiros não se enquadram no perfil de uma polarização afetiva estrita. Ela ocorre quando os sentimentos positivos em relação ao próprio campo político se combinam com sentimentos negativos e rejeição ao campo oposto. Ou seja, adesão positiva a um grupo e ódio ao oposto.

Não se trata apenas de preferir um candidato, mas de gostar de um lado e, sobretudo, rejeitar o outro. A política deixa de ser apenas disputa entre programas ou opiniões e passa a envolver sentimentos intensos de identidade e rejeição.

O fato de quase sete em dez eleitores estarem fora dessa configuração polarizada significa que, embora a polarização tenha crescido nas últimas duas décadas, ela se mantém restrita a uma minoria do eleitorado. Mas como se comportam os outros?

Nem tão polarizados assim

Nesse estudo, utilizamos um modelo bidimensional de mensuração dos afetos políticos, inspirado na literatura de inteligência afetiva e psicologia das emoções. O modelo analisa duas dimensões relativamente independentes: os afetos positivos (como entusiasmo, esperança e orgulho) e os afetos negativos (como raiva, medo e decepção).

Essa é uma diferença importante em relação às pesquisas que se concentram apenas na identidade política declarada — petista, antipetista ou bolsonarista, por exemplo — ou que utilizam escalas tradicionais de gosto e desgosto. Essa abordagem permite identificar a composição emocional da relação do indivíduo com os principais campos políticos, sem supor que gostar menos de um lado significa necessariamente gostar mais do outro.

A partir das respostas dadas, os entrevistados foram classificados em seis tipos: polarização afetiva, rejeição negativa sem adesão, dupla rejeição, adesão positiva sem rejeição, indiferença e ambivalência.

Assim, conseguimos distinguir os eleitores que gostam de um campo e rejeitam o outro, os que rejeitam um campo sem aderir ao adversário, os que rejeitam os dois, os que demonstram adesão positiva sem hostilidade e os que mantêm sentimentos indiferentes, mistos ou pouco definidos.

Rejeição com ou sem adesão ao adversário

A comparação entre 2006 e 2026 revelou uma mudança importante. Em duas décadas, a polarização afetiva estrita cresceu de 19% para 31%, um aumento de 12 pontos percentuais. Isso confirma que aumentou a parcela de brasileiros que combina a simpatia por um campo político com a rejeição ao adversário. Mas esse não é o único movimento relevante.

A rejeição a um lado sem adesão ao outro passou de 6% para 19% no mesmo período. Ou seja, cresceu fortemente o número de eleitores que rejeitam um dos campos sem demonstrar vínculo positivo claro com o outro.

Esse deslocamento sugere que a política brasileira não ficou apenas mais polarizada. Ela ficou mais negativa. A rejeição ganhou peso próprio e, em muitos casos, passou a organizar a relação dos cidadãos com a política antes mesmo que exista adesão positiva a um projeto, partido ou liderança.

Ao mesmo tempo, a adesão positiva sem rejeição caiu de 32% para 16%, uma redução de 16 pontos percentuais. Tornou-se menos comum gostar de um campo político sem rejeitar o adversário.

Outros dados reforçam essa interpretação. A ambivalência caiu de 29% para 10%, indicando menor espaço para sentimentos mistos ou pouco definidos. Já a indiferença cresceu de 12% para 19%, um aumento de 7 pontos percentuais. A dupla rejeição, formada por aqueles que rejeitam os dois campos, avançou 3 pontos.

Ao lado da intensificação dos dois principais campos políticos, cresceu, portanto, uma zona de negatividade e frieza afetiva diante da política. A mudança mais relevante não está apenas no aumento da polarização, mas também na ampliação de vínculos negativos, frios ou desencantados.

O processo de decisão eleitoral não é movido apenas por ideias, programas ou identidades positivas. O que observamos é um eleitorado cada vez mais orientado pela rejeição ao adversário e, em muitos casos, por uma relação fria ou desencantada com a política. A negatividade tornou-se um dos principais balizadores do voto e pode gerar desalento e enfraquecer a representatividade democrática.

De modo geral, os 69% do eleitorado que estão fora da polarização afetiva estrita não formam um bloco homogêneo, moderado ou necessariamente disponível para alternativas.

Nesse conjunto, há eleitores que mantêm uma adesão positiva sem rejeitar o adversário, mas também aqueles marcados pela dupla rejeição, pela ambivalência, pela indiferença ou pela rejeição sem adesão. Não estar polarizado não significa estar necessariamente aberto a outras alternativas políticas. Muitas vezes, significa estar distante, frustrado ou desconfiado.

Afetos políticos e participação

A origem da palavra emoção ajuda a entender a relação entre sentimentos e política. O termo deriva do latim emovere, associado à ideia de mover, deslocar, pôr em movimento. Emoções não são apenas estados internos; elas impulsionam ações. Na política, podem estimular o voto, sustentar identidades coletivas e dar sentido à participação.

A ausência de paixão política pode ser sintoma de desconexão, e isso significa menor ímpeto inclusive para a participação eleitoral. Ao mesmo tempo, nem todo afastamento dos polos significa moderação democrática. Os polos, nesse caso, são os dois principais campos políticos organizados em torno de Lula e Bolsonaro. Estar fora deles pode indicar abertura ao diálogo, mas também desconfiança, desalento ou desinteresse.

Essa hipótese ganha força quando observamos o comportamento eleitoral declarado em 2022. Ao cruzar a tipologia afetiva com a participação no segundo turno da eleição presidencial de 2022, nota-se que a alienação eleitoral — aqui entendida como voto branco, voto nulo ou não comparecimento — é muito maior entre os grupos mais afastados dos polos.

Entre os eleitores em dupla rejeição, chegou a 46% o percentual daqueles que declararam ter votado em branco ou nulo ou não ter comparecido. Entre os indiferentes, foi de 45%. Entre os polarizados, somente 7%.

O contraste sugere que os vínculos afetivos mais estruturados tendem a aproximar os eleitores da disputa, enquanto a rejeição simultânea aos dois campos e a indiferença estão associadas ao afastamento eleitoral. Os afetos políticos, portanto, não servem apenas para explicar preferências. Eles também ajudam a explicar mobilização.

Democracia e conflitos

A democracia não depende apenas de instituições, regras eleitorais e partidos funcionando. Ela também precisa de confiança mínima, interesse, pertencimento e disposição para reconhecer o conflito político como legítimo. Quando esses vínculos enfraquecem, a democracia pode continuar existindo formalmente, mas passa a operar sobre uma base social mais frágil.

A democracia pode conviver com conflito intenso. O problema não são os afetos em si. Esperança, entusiasmo e pertencimento são importantes justamente porque movem os cidadãos em direção à política. O risco aparece quando a política passa a ser organizada pela hostilidade ou pela apatia.

A hostilidade transforma adversários em inimigos. A apatia interrompe o movimento: transforma a política em algo distante, irrelevante ou inútil. Uma corrói a disposição de reconhecer legitimidade no outro; a outra corrói a disposição de participar.

Por isso, a crise democrática não deve ser pensada apenas como excesso de polarização. Ela também envolve a perda de vínculos positivos com a política. O Brasil contemporâneo parece combinar, neste momento, campos políticos fortes com segmentos que se relacionam com a política por rejeição, frieza ou desalento.

A principal transformação das últimas duas décadas talvez seja esta: tornou-se menos comum gostar de um campo político sem rejeitar o outro e mais comum rejeitar antes de aderir. A isso chamamos de negativização afetiva da política brasileira.

Nos próximos meses, daremos continuidade ao estudo no Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP. Novas rodadas de pesquisa, inclusive online, permitirão testar hipóteses adicionais sobre comportamento eleitoral, emoções políticas e voto de rejeição.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Jairo Pimentel é cientista político e tem ampla experiência em pesquisas eleitorais, governamentais e de mercado. Nas últimas décadas, tem trabalhado em campanhas eleitorais para prefeituras no estado de São Paulo, para governos estaduais e à Presidência da República.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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