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Eisenkot usa suas raízes marroquinas para desafiar Netanyahu em Israel

27 out 2026 - 09h56
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Resumo
Gadi Eisenkot, principal rival de Benjamin Netanyahu nas eleições israelenses, usa sua ascendência marroquina para conquistar eleitores em Sderot, reduto tradicional da direita. Líder do partido liberal Yashar, o general desafia o Likud ao mobilizar o eleitorado mizrahi — historicamente marginalizado frente à elite asquenaze. O movimento busca romper divisões sociopolíticas históricas, promovendo o orgulho dessa identidade e redefinindo o peso político dessa comunidade no sul de Israel.

Gadi Eisenkot, o principal rival do premiê nas eleições em Israel, está tirando proveito de sua ascendência marroquina para conquistar eleitores em tradicionais redutos do Likud.Às vésperas das eleições desta terça-feira (27/10) em Israel, anúncios partidários recebem as pessoas que chegam de trem aos arredores da cidade de Sderot, no oeste do país.

Anúncios eleitorais de Gadi Eisenkot usam a expressão "um primeiro-ministro dos nossos" em árabe marroquino
Anúncios eleitorais de Gadi Eisenkot usam a expressão "um primeiro-ministro dos nossos" em árabe marroquino
Foto: DW / Deutsche Welle

Cartazes de campanha com diferentes slogans promovem o partido de direita Likud e o partido de extrema direita Otzma Yehudit. No entanto, um cartaz aparece mais do que todos os outros: o do partido liberal Yashar.

Seu slogan, Rosh Memshala Dialna, combina o termo hebraico para "primeiro-ministro" com a expressão árabe marroquina para "um dos nossos".

E há uma boa razão para a campanha do ex-chefe das Forças de Defesa de Israel, o general Gadi Eisenkot, em Sderot e outras cidades da periferia sociopolítica de Israel destacar suas origens marroquinas.

A herança marroquina como ativo político

Sderot, localizada no deserto do Neguev, cerca de 75 quilômetros ao sul de Tel Aviv e a apenas um quilômetro da fronteira com Gaza, é uma cidade com uma grande comunidade judaica marroquina. Nas últimas décadas, a cidade tornou-se um símbolo da cultura judaico-marroquina em Israel, expressa na música, no cinema e também na política nacional.

Sderot é considerada um reduto da direita israelense e, especialmente, um bastião do Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Em 2022, o Likud recebeu mais de 40% dos votos em Sderot, em comparação com 23% no país como um todo.

Esse padrão reflete divisões históricas mais profundas em Israel entre os asquenazes, judeus de origem europeia, e os mizrahim, judeus originários principalmente do Oriente Médio e do Norte da África. Segundo estimativas, cerca de metade da população judaica de Israel é de origem mizrahi, o equivalente a cerca de 4 milhões de pessoas.

Os judeus mizrahim enfrentaram discriminação e negligência desde os primeiros anos do Estado de Israel. Essa desigualdade ainda molda a realidade econômica e social do país, bem como seu discurso político.

O tema recebe atenção especial na campanha de 2026, pois Eisenkot, o principal desafiante de Netanyahu, é de origem marroquina e cresceu em Eilat, cidade com uma grande população judaica norte-africana. O Yashar acusou o Likud de deixar seus políticos mizrahim em segundo plano, usando o slogan da campanha, "Netanyahu: deixe os mizrahim dar entrevistas".

Durante uma transmissão ao vivo na televisão, o jornalista de direita Yinon Magal, um dos apoiadores mais vocais de Netanyahu, afirmou que Eisenkot era controlado por um grupo elitista de asquenazes e o chamou de "macaco".

Netanyahu, que é de origem europeia, condenou a declaração.

Daniel Ben-Simon, um jornalista israelense premiado, nascido no Marrocos e ex-membro do parlamento, disse à DW que a valorização das próprias origens por Eisenkot pode ter sido provocada pelos comentários de Magal, mas , ao memso tempo, tem importância histórica.

"As pessoas não usam termos como Dialna com orgulho", afirmou Ben-Simon, referindo-se ao uso da palavra árabe para "um dos nossos" nos cartazes da campanha de Eisenkot. Segundo ele, a sociedade israelense tentou durante muito tempo reprimir a identidade árabe dos judeus norte-africanos.

Para Ben-Simon, a valorização de sua identidade por Eisenkot representa uma forma de "sair da moldura" imposta pela sociedade. "Ao usar esse termo, você está criando uma nova identidade: uma identidade israelense-marroquina", disse. "Eisenkot é o primeiro a tornar possível que se use abertamente essa identidade se sentindo totalmente à vontade com ela."

Após a fundação de Israel, o partido socialista no governo, o Mapai, cuja liderança era majoritariamente ashkenazi, adotou políticas discriminatórias contra os mizrahim. Muitas vezes, esperava-se que eles se "europeizassem" em vez de preservar sua própria cultura, herança ou o idioma árabe.

Essas desigualdades também assumiram uma dimensão material. Nas primeiras décadas do Estado, enquanto imigrantes europeus frequentemente recebiam melhores moradias e empregos, muitos judeus vindos de países de língua árabe eram enviados para os ma'abarot, campos de trânsito temporários geralmente localizados em áreas remotas com pouca infraestrutura. Muitos desses locais posteriormente se transformaram em "cidades em desenvolvimento", que continuaram subfinanciadas em comparação com as regiões centrais de Israel.

Esse processo resultou em pobreza. Sderot, no sul do país, é uma das mais conhecidas dessas cidades em desenvolvimento.

Para muitos mizrahim, o acesso limitado a empregos, educação e infraestrutura simbolizava uma exclusão histórica promovida pelo establishment do Mapai. O Likud, fundado em 1973 como uma aliança de direita, soube explorar essa frustração sob a liderança de Menachem Begin.

O apoio dos mizrahim a Begin ajudou a produzir a chamado mahapach, ou "virada", quando o Likud derrotou pela primeira vez o campo socialista e chegou ao poder. Desde então, os mizrahim frequentemente têm sido associados ao Likud, embora o partido jamais tenha tido um líder mizrahi.

Como o 7 de Outubro transformou Sderot

Nas últimas duas décadas, a proximidade de Sderot com a Faixa de Gaza transformou a cidade em alvo frequente de foguetes lançados pelo grupo radical palestino Hamas. Durante os ataques terroristas liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, Sderot foi especialmente atingida. Mais de 50 pessoas morreram.

Nos três anos desde o ataque, a população da cidade aumentou em cerca de 5 mil habitantes, chegando a 40 mil moradores. Muitas famílias jovens passaram a viver ali, tanto por idealismo quanto pelos benefícios oferecidos pelo governo.

Ao caminhar pela cidade, é difícil não perceber que a chamada comunidade nacionalista-religiosa está se tornando cada vez mais dominante. Esse grupo tende a votar no Partido Sionista Religioso, de extrema direita, liderado por Bezalel Smotrich, um dos principais integrantes da coalizão de Netanyahu.

Como votos em Smotrich e em seu partido são, na prática, votos no bloco político de Netanyahu, o próprio Likud pode sofrer perdas em Sderot.

Independentemente do resultado da eleição, a percepção de Sderot como uma cidade de judeus marroquinos não deve mudar tão cedo. Para Ben-Simon, uma eventual vitória de Eisenkot poderia representar uma oportunidade para redefinir a identidade futura dos judeus marroquinos em Israel.

"A ligação que cidades como Sderot têm com suas raízes marroquinas passaria a ser mais forte com uma vitória de Eisenkot", afirmou Ben-Simon.

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