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Qual é a diferença entre luneta e telescópio?

30 mar 2013 10h03
| atualizado às 10h03
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Vários tipos de telescópios, entre eles algumas lunetas, são usados para acompanhar um fenômeno astronômico na Austrália
Vários tipos de telescópios, entre eles algumas lunetas, são usados para acompanhar um fenômeno astronômico na Austrália
Foto: Getty Images

Os astrônomos já não olham para o céu em busca de novas estrelas e planetas. A luneta apontada manualmente para o alto perdeu espaço. Hoje, o alvo da atenção dos especialistas é o computador, que registra dados obtidos por telescópios poderosos, como o Gran Telescopio Canarias (GTC), o maior do mundo, ou o Hubble, entrando na órbita de sua aposentadoria.

O telescópio
Planetas, satélites, estrelas, galáxias e outros corpos astronômicos podem ser observados por meio de um instrumento óptico chamado telescópio. A palavra advém do grego "tele", longe, e "scopio", observar. Mas, ao contrário do que se imagina, o telescópio não aumenta o tamanho dos objetos. "O telescópio permite captar uma quantidade de luz maior do que a pupila humana e, portanto, permite enxergar objetos com brilho muito fraco, que não são visíveis a olho nu", explica Fernando Roig, doutor em Astronomia e pesquisador do Observatório Nacional, no Rio de Janeiro.

Luneta
Luneta
Foto: Getty Images
A luneta
Assim como o telescópio, a luneta também permite observar objetos longínquos. A luneta, no entanto, constitui-se de um tipo específico de telescópio, o refrator, que possui restrições em comparação com o telescópio refletor. Enquanto os telescópios refratores, chamados popularmente de lunetas, usam lentes como objetivas, os refletores utilizam espelhos. De acordo com Enos Picazzio, astrônomo do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP), os refratores produzem uma aberração cromática, isto é, a imagem não tem boa definição, afinal, cada cor de luz tem distância focal diferente. Já os espelhos não produzem essa distorção.

Limitação
Além disso, Roig argumenta que o uso de lentes limita o diâmetro do telescópio por questões estruturais. Os refratores são muito mais longos, precisando de muito mais espaço para serem acomodados. "Um refrator de um metro de diâmetro precisa de um domo de 30 metros de altura. Já um refletor de um metro de diâmetro cabe em um domo de cinco metros de altura", explica.

Para Jorge Márcio Carvano, doutor em Astrofísica e pesquisador do Observatório Nacional, além do fato de serem mais compactos, os telescópios refletores podem ser construídos com espelhos segmentados, ou seja, um arranjo de espelhos menores em vez de um único espelho. "Tudo isso permite que se construam telescópios refletores com aberturas que não seriam práticas (ou mesmo possíveis) em telescópios refratores", pontua Carvano. Assim, conforme Roig, as lunetas acabam ficando muito limitadas aos objetos mais brilhantes, devido às restrições no tamanho.

<p>Dia 1º de abril é aniversário do Very Large Telescope (VLT), maior conjunto de telescópios óticos do mundo, localizado no Observatório Astronômico Cerro Paranal, no deserto do Atacama, Chile</p>
Dia 1º de abril é aniversário do Very Large Telescope (VLT), maior conjunto de telescópios óticos do mundo, localizado no Observatório Astronômico Cerro Paranal, no deserto do Atacama, Chile
Foto: Reprodução

Quanto maior, melhor
Dessa forma, quanto maior o telescópio, maior sua capacidade de visualizar objetos distantes. Mas o tamanho do telescópio se refere ao tamanho da abertura (o diâmetro da objetiva em milímetros), e não a sua estrutura. "Quanto maior a abertura, mais luz pode ser concentrada, o que permite que se observem objetos mais fracos (em brilho)", ressalta Carvano.

A fim de "enxergar" mais longe, constroem-se telescópios cada vez maiores. Inaugurado em 2009, o maior telescópio do mundo é o Gran Telescopio Canarias, também conhecido como GTC, que possui um espelho refletor de 10,4 metros de diâmetro e situa-se a 2.267 metros de altura. Localizado no Observatório del Roque de los Muchachos, na ilha de La Palma, nas Ilhas Canárias, na Espanha, o telescópio pertence à Espanha (90%), ao México (5%) e aos EUA (5%). Começou a ser construído em 1987 e custou 130 milhões de euros.

Existem projetos de telescópios com aberturas ainda maiores, entre 20 e 40 metros. No Brasil, porém, esse é um objetivo distante. Aqui, o maior telescópio possui 1,6 metro de diâmetro (do espelho) e está localizado a 1.684 metros de altitude, no Observatório do Pico dos Dias, entre os municípios de Brazópolis e Piranguçu, no sul de Minas Gerais.

O telescópio Hubble foi o responsável por algumas das mais conhecidas fotos do espaço. Para produzir essas imagens, ele passou por diversas manutenções ao longo dos anos, incluindo esta, em 1993, a primeira
O telescópio Hubble foi o responsável por algumas das mais conhecidas fotos do espaço. Para produzir essas imagens, ele passou por diversas manutenções ao longo dos anos, incluindo esta, em 1993, a primeira
Foto: Nasa / Divulgação

Pequeno notável
O único telescópio que foge à regra "quanto maior, melhor" é o telescópio espacial Hubble (HST). Comparado com os maiores telescópios terrestres, o Hubble tem uma abertura relativamente pequena, de 2,4 metros de diâmetro. O que o torna especial é o fato de se situar no espaço e receber as imagens sem a perturbação causada pela atmosfera, o que lhe permite captar imagens mais nítidas.

Lançado pela Nasa em 1990, a bordo do Ônibus Espacial Discovery, o Hubble produziu algumas das mais impressionantes imagens do universo e revelou tanto respostas quanto novas questões sobre cosmologia. Após 23 anos rastreando novas galáxias, estrelas em formação, buracos negros, entre outros corpos celestes, o telescópio deverá cessar suas atividades em breve. Seu substituto será o telescópio espacial James Webb, com lançamento previsto para 2018.

A origem
Há controvérsias sobre quem inventou o primeiro telescópio. Em 1609, Galileu Galilei teria construído a primeira luneta (telescópio refrator) para observar o céu e registrar suas descobertas. Até então, as observações astronômicas eram feitas a olho nu. Entretanto, um ano antes de Galilei, Hans Lippershey, um alemão naturalizado holandês, criou um instrumento para observar objetos à distância, com o objetivo de usá-lo para fins bélicos. "Galileu apenas tomou conhecimento do instrumento, fez seus próprios telescópios e os utilizou na astronomia", destaca Picazzio.

Alguns anos mais tarde, em 1668, o cientista inglês Isaac Newton iria substituir a lente do telescópio por um espelho côncavo, criando, assim, o primeiro telescópio refletor. Conhecido mais tarde como telescópio Newtoniano, é o modelo mais utilizado por astrônomos amadores.

Fora os refratores e os refletores, os telescópios também podem ser catadióptricos, que usam lentes e espelhos combinados.

Janela fechada
Desde as criações de Galilei e Newton até hoje, muita coisa mudou. No lugar dos astrônomos com os olhos grudados nas oculares para observar o céu durante as frias madrugadas, computadores em salas climatizadas. Picazzio explica que, nos observatórios profissionais, os telescópios são muito grandes e, por isso, automatizados. "Apontar manualmente não é uma opção, e o apontamento é feito a partir de coordenadas celestes, e nunca 'no olho'", destaca Carvano. Sensores eletrônicos chamados CCD registram as imagens, e o processamento é realizado no computador.

Assim, o trabalho dos astrônomos é operar o telescópio de uma sala fechada, mirando a tela do computador. "Eles só veem o céu se resolverem dar uma volta rápida, nas pausas das observações", finaliza Carvano.

Fonte: Terra
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