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Summit Mulheres nas Profissões: 'IA não vai substituir o professor', afirmam especialistas

Educadoras destacam como formação continuada, novas metodologias e o uso da tecnologia podem fortalecer a educação

4 ago 2026 - 15h57
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Em um semestre, a professora Nilma Sladkevicius alfabetizou 60 alunos na Educação de Jovens e Adultos (EJA). O número, segundo ela, não veio de uma metodologia pronta, mas de um processo de formação contínua que a levou a repensar a própria prática em sala de aula. O caso foi um dos exemplos citados no painel "Quem forma os professores, transforma o futuro", realizado na abertura do 1.º Summit Mulheres nas Profissões, nesta terça-feira, 4.

O debate reuniu educadoras e gestoras de políticas públicas para discutir como a formação continuada, novas metodologias e o uso da tecnologia podem fortalecer a educação básica e preparar estudantes para os desafios do século XXI.

De modo geral, a conversa focou bastante na relação entre melhora da qualidade de educação e a necessidade de colocar o professor no campo de destaque. Além de tempo necessário para estudos, pesquisas e qualificação do professor, há também a pausa necessária para que o educador entenda as necessidades de cada aluno, conforme trouxeram as professoras da mesa.

Da esquerda para direita: Nilma Sladkevicius, Priscila Cruz, Rosejara Ramos (mediadora), Renata Moura e Dayana Cândido.
Da esquerda para direita: Nilma Sladkevicius, Priscila Cruz, Rosejara Ramos (mediadora), Renata Moura e Dayana Cândido.
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

O porcentual de professores da educação básica com formação continuada passou de 39,9% em 2020 para 42,7% em 2024, segundo o Censo Escolar do Inep; um avanço, porém, que ainda deixa mais da metade da categoria fora desse tipo de qualificação.

'Ser professora é mais difícil do que ser médico ou presidente de uma grande empresa'

Presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação, com mestrado pela Harvard Kennedy School, Priscila Cruz defendeu a criação de um projeto nacional e estruturado de valorização docente.

"Precisamos ter um projeto mais estruturado de valorização do docente. Não da forma que a gente vê, principalmente em ano eleitoral como esse, mas sim traçar um plano mais estratégico de valorização legítima da profissão que é a mais importante do país e que tem uma complexidade enorme", afirmou.

Para Priscila, a sociedade ainda subestima a complexidade da docência. "Ser engenheiro, ser médico, ser presidente de uma grande empresa não é tão difícil quanto ser professor", disse, ao criticar a ideia de que basta vocação ou afinidade com uma disciplina para formar um bom professor. "Existe uma concepção de que a aluna que é boa em matemática vai ser professora de matemática, ou que quem ama as crianças vai ser uma boa professora. [Mas] a gente não consegue dar aula só com o amor; ele não garante o aprendizado."

Justamente por conta disso, a especialista acredita que a tecnologia nunca poderá substituir o professor. "A gente tem mil anos de evolução aprendendo com outro profissional, e não com uma máquina. A gente evolui aprendendo em uma roda de conversa em volta da fogueira. A IA nunca vai poder substituir um professor", diz.

Nilma Sladkevicius faz discurso sobre aprendizados com a EJA. 'A coisa mais emocionante na EJA é o brilho no olho quando o adulto se vê lendo', diz.
Nilma Sladkevicius faz discurso sobre aprendizados com a EJA. 'A coisa mais emocionante na EJA é o brilho no olho quando o adulto se vê lendo', diz.
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

Para quem está na sala de aula, como a professora Renata Moura, que atua em regiões periféricas, é preciso "praticar para aprender com a prática". "Eu fui uma estudante dentro de uma zona de tiros e agora eu volto e começo um trabalho de pesquisa para mostrar para essas crianças que ser favelado não é motivo para se limitar", coloca ela.

Pela Lei do Piso do Magistério (Lei Federal nº 11.738/2008), o professor da rede pública tem direito a reservar 1/3 (33,3%) da sua jornada de trabalho para atividades extraclasse. Mas nem sempre essa é a realidade de todos.

Moura defendeu ainda que para que o tempo de estudo do professor seja garantido de fato é preciso que não seja necessário dobrar a jornada para sustentar a família, e que ele seja pensado de forma real: "De acordo com a necessidade daquela sala, daquela criança e principalmente daquele território", afirma.

Algo bem similar com o relato de Nilma, com 24 anos de atuação na EJA. "Quando ingressei, trabalhava com alfabetização de crianças e pensei que iria ser tranquila a transição, mas em pouco tempo percebi que não", desabafa.

Segundo ela, a virada veio ao perceber que a alfabetização só funciona quando dialoga com o cotidiano dos alunos - um princípio que buscou em Paulo Freire. Ao adotar uma abordagem mais dinâmica e conectada ao interesse dos estudantes, dobrou o número de matrículas.

"Se o professor não tomar ciência do aluno que tem em sala e só encher a lousa, não vai dar certo", afirmou. "Não é só leitura de mundo, é a leitura da janela de mundo que se abriu para ele."

Dayana Cândido afirma que é preciso voltar para a base para entender o que já é feito e o que precisa mudar.
Dayana Cândido afirma que é preciso voltar para a base para entender o que já é feito e o que precisa mudar.
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

O papel da gestão e das políticas públicas

Dayana Cândido, coordenadora de projetos com foco em políticas públicas de formação continuada de professores, colocou o debate em uma escala mais ampla: a de que boas práticas isoladas não bastam.

"Se a gente continuar com ações pontuais, vai continuar tendo professores pontuais que fazem a diferença - e se a gente não criar condições para mudar isso, nada feito", afirmou. Segundo ela, muitos professores já inovam mesmo sem as condições ideais, mas isso não é sustentável em larga escala: "O professor não precisa inventar a roda, precisa saber como fazer diferente. [Mas] se a gente não garantir o tempo para esse professor, [não muda]. A formação que vai mudar a prática desse professor é a que vai mudar o dia a dia daquela escola."

Cândido defendeu um olhar de "ecossistema educacional", em que a qualidade de uma aula depende também do incentivo da gestão escolar, do tempo disponível e da coerência entre formações, currículo e materiais didáticos. "O professor recebe muitas informações, e o papel do gestor é aprender a lidar com elas".

O ponto de partida é entender o que já é feito nas escolas antes de propor novidades. "Se eu não escuto o professor, eu não vou criar política pública que converse com ele", conclui ela.

Estadão
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