'Se as bolsas forem reduzidas, terei de voltar para minha cidade'

Estudante de Medicina da UFPB depende de auxílio para se manter em João Pessoa; com cortes, teme adiar seus objetivos

1 out 2019
06h11
atualizado às 06h38
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Eu e meu irmão estudamos a vida toda na escola pública da nossa cidade: Cajazeiras, na Paraíba. Meu pai é ambulante, e minha mãe, há pouco tempo, montou um pequeno comércio. O movimento não é grande, e o dinheiro que entra apenas ajuda a pagar parte das despesas lá de casa. Sempre tive o sonho de fazer faculdade, de mudar um pouco a história da minha família. De ter segurança, de poder ajudar meus pais. Nunca ninguém havia feito curso universitário. Sabia que não seria fácil e principalmente que teria de arrumar uma forma de pagar as despesas básicas quando saísse de casa para iniciar o curso. Primeiro, passei no curso de Relações Internacionais, na Universidade Federal da Paraíba. Foi uma alegria e tanto, mas logo vi que, apesar de gostar das disciplinas, não era a carreira que queria para mim.

Continuei estudando e passei para Medicina. Um curso que geralmente é feito por pessoas que têm mais recursos financeiros. A faculdade é período integral, e sempre soube que não poderia trabalhar. Por isso, logo batalhei por uma bolsa na assistência estudantil. Minha sorte é que elas não demoraram muito para chegar. Se tivesse demorado, não teria como ficar em João Pessoa. Recebo dois auxílios. Moradia e Alimentação. São R$ 570. É preciso muita organização. Faço todas as refeições no restaurante universitário, uma comida muito boa, gratuita.

Com a verba, pago a mensalidade do apartamento que divido com três colegas, pago conta de luz, internet, transporte. Dou valor a tudo que aprendo, a tudo que recebo, porque sei o quanto isso pode ser transformador na minha vida. Diante de tudo que ouvimos na faculdade, tenho medo que tudo isso vá por água abaixo.

Se as bolsas forem reduzidas, se houver atrasos, não haverá como permanecer no curso. Terei de voltar para minha cidade. Dar um tempo. Adiar meus objetivos. O pior é que tenho ainda um longo período pela frente. Estou no sétimo período de um curso que tem doze. É corda bamba, mas não vou me abalar.

Meu irmão, assim como eu, também está fazendo faculdade. Ele, um pouco mais novo, cursa Educação Física. Estamos no caminho certo, espero que não falte recursos. Nem para nós, nem para colegas que estão na mesma situação.

Estadão
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