Queimadas na Amazônia, Museu Nacional e interdisciplinaridade marcam Fuvest

Primeira fase trouxe alguns temas sensíveis ao Brasil neste ano, como a reaproximação diplomática do Brasil com os Estados Unidos; a prova,que foi colorida pela primeira vez, foi usada como recurso para cobrar interpretação

24 nov 2019
21h00
atualizado às 21h41
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SÃO PAULO - A primeira fase da Fuvest foi marcada ontem pela abordagem de problemas sociais da atualidade e pelo alto nível de exigência na área de Exatas. Entre os assuntos cobrados estavam as queimadas na Amazônia, o incêndio no Museu Nacional, no Rio, e a aproximação diplomática entre o Brasil e os EUA. Também chamou a atenção questões com teor interdisciplinar.

O exame da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest) é a principal porta de entrada para a Universidade de São Paulo (USP). Neste ano, 129 mil candidatos se inscreveram para realizar a prova em 35 cidades em todo o País.

Segundo candidatos ouvidos pelo Estado, embora a prova não tenha feito citações diretas ao governo Jair Bolsonaro, foram abordados temas sensíveis ao Brasil neste ano. "Caíram mais questões envolvendo problemas sociais do Brasil do que em outros vestibulares, como o Enem, que foi muito neutro", afirmou Isabelly Lira, de 17 anos, que tenta uma vaga em Medicina Veterinária. A amiga Fernanda Marques, de 17 anos, que presta para Terapia Ocupacional, concordou: "A prova da Fuvest foi mais 'posicionada'."

Em Geografia, além das queimadas na Amazônia, foram abordados os conflitos na Síria e discutido o processo de gentrificação, a partir da experiência em Barcelona, na Espanha. A prova não abordou diretamente a crença do terraplanismo, mas trouxe em uma questão um mapa da Terra de 1545.

Já História cobrou o incêndio do Museu Nacional, que aconteceu em setembro de 2018 - o local abrigava o crânio de Luzia, o mais antigo fóssil das Américas. Outra questão que chamou atenção dos candidatos foi a que trouxe a letra de Geração Coca-Cola, de Renato Russo, para discutir a redemocratização nos anos 1980, as Diretas Já e o movimento estudantil.

Kaili Takamori, professora de História do Cursinho da Poli, destacou o fato de a prova ter trazido duas questões que abordaram o período da ditadura militar no País. "O assunto ficou fora do Enem, mas a Fuvest trouxe e com grande destaque. Isso é normal, afinal, todos os grandes vestibulares sempre abordam esse período. O choque foi não ter caído no Enem."

Na avaliação do professor Fernando da Espiritu Santo, gerente de Inteligência Educacional e Avaliações do cursinho Poliedro, a Fuvest se destacou por aprofundar o nível da interdisciplinaridade das questões.

Houve questão de Matemática misturada com Inglês, em que o aluno tinha de entender uma tirinha de Calvin & Haroldo na língua estrangeira para responder; de Geografia com Química, em que o candidato precisava compreender relevo e altitude dos Andes para traduzir o contexto de processos químicos; e de Biologia com Geografia, que abordou o problema de superbactérias resistentes e o prejuízo em especial às populações mais carentes.

Para Gilberto Alvarez, diretor do Cursinho da Poli, o formato e as habilidades cobradas na prova têm deixado mais explícito o tipo de alunos que a USP quer em seus cursos de graduação. "Ter uma questão de Matemática com um enunciado em Inglês não é apenas para ter interdisciplinaridade na prova. É uma demonstração de que o idioma é obrigatório para quem vai ingressar na universidade."

O professor de Química Bruno Valle, do cursinho Objetivo, afirmou que as questões adotaram cenários pouco triviais dos usados em sala de aula. Uma questão, por exemplo, abordava a forma de fazer substâncias com o manejo de átomos com laser. "Isso não é óbvio, mas um aluno com bom conhecimento do conteúdo fundamental de química conseguia responder."

Enem.

Santo acredita que assim como o Enem vai em direção à Fuvest, também ocorre o contrário. "A Fuvest continua sendo um vestibular mais tradicional, mas cobrou que o aluno saiba e entenda o conteúdo de um modo mais abrangente, não apenas como decoreba", disse o professor, que também destacou que, em algumas questões de Exatas, era preciso dominar vários assuntos de uma mesma disciplina para acertar a pergunta.

Para o professor de Geografia Eduardo Britto, do Objetivo, chamou a atenção o uso, pela primeira vez, de cores na prova. "Para a Geografia, o recurso foi maravilhoso, porque permite explorar a interpretação, por exemplo, em mapas e gráficos." Ele também destacou a interdisciplinaridade na questão que abordou a Amazônia. "Ela caiu na parte de Biologia, mas para respondê-la o aluno também precisa de conhecimento de Geografia."

Nível de dificuldade

Para a maioria dos candidatos, as provas de Humanas foram mais fáceis. "Só em História que tinha de saber muito detalhe", conta Pedro Gonzalez, de 17 anos, que se inscreveu para Engenharia Aeronáutica. Entre os quesitos, a prova cobrou o período holandês no Nordeste e a Revolução Inglesa.

Prestando Fuvest pela segunda vez para Medicina, o estudante Bruno Souza, de 18 anos, concordava com a opinião da maioria: a prova de Física foi a mais difícil. "Tradicionalmente, o nível da Fuvest é alto, mas este ano achei mais complicado do que no ano passado."

Segundo os concorrentes, as Exatas exigiram domínio de fórmulas e exploraram menos questões teóricas. Assuntos tradicionalmente menos comuns, como eletromagnetismo, foram cobrados.

Outra prova "acusada" de ser difícil foi Português, que exigiu leitura das obras sugeridas - entre elas, Sagarana, de Guimarães Rosa, e Angústia, de Graciliano Ramos. "Eu preferi fazer a parte de Exatas", comenta Guilherme Ferreira, de 17, que prestou vestibular para Engenharia Química.

Segundo o professor Santo, a Fuvest seguiu a tendência de trazer questões longas em Português, com vários textos para serem lidos.

Estadão
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