Quando ser bilíngue é mais que opção

Colégios paulistanos botam aulas em português pela manhã e em outra língua no período da tarde

18 set 2018
07h41
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Vitória tem 10 anos de idade e recentemente foi a consultora da mãe quando essa precisou preencher um contrato de trabalho em inglês. Carolina, de 13 anos, costuma atuar como tradutora de outras crianças nas viagens internacionais. Pedro, de 8 anos, já entende pequenas histórias em alemão. Os três estão matriculados em escolas bilíngues, uma modalidade que cresce ano a ano em um mundo cada dia mais globalizado.

"Meu marido e eu sempre quisemos uma escola bilíngue, já era um conceito da família. Como o inglês é uma tendência mundial, foi uma escolha natural", conta a arquiteta Eliana Bernardes Passinho, mãe de Vitória e Joaquim (de 8 anos). Ambos estudam na Escola Builders desde os 2 anos. Atualmente matriculados no 5.º e no 3.º anos do ensino fundamental, eles ficam das 7h45 às 15h20 no colégio. Pela manhã, em geral, têm aulas em português e, após o almoço, o conteúdo é ministrado em inglês.

O currículo é formatado para que o conteúdo não seja repetitivo nem enfadonho. Se na aula de Ciências a explicação sobre as células é feita em português, as experiências no laboratório são realizadas em inglês. "Quando a escola surgiu, há 20 anos, tínhamos de implorar para convencer os pais sobre a eficácia do nosso ensino. Hoje, as famílias é que nos procuram porque entendem que o ensino bilíngue não diminui a capacidade na língua materna. Ao fazer a atividade em dois códigos, o aprendizado fica mais rico", afirma Ana Célia, diretora pedagógica do Colégio Builders.

Como não há uma regulamentação em âmbito nacional para esse tipo de ensino, as escolas costumam desenvolver as próprias metodologias, tendo como base o conteúdo obrigatório definido pelo Ministério da Educação (MEC). A Stance Dual, onde Carolina estuda, oferece o ensino infantil e fundamental em um formato que todas as disciplinas são ensinadas nos dois idiomas.

"Os alunos têm aulas de Matemática em inglês e em português, Ciências em inglês e português e assim para todas as disciplinas. As áreas têm certos conteúdos ensinados em cada uma das línguas. Há outras escolas bilíngues em que a disciplina é dada em apenas uma língua: oferecem Matemática em inglês e Ciências em português por exemplo", comenta Sarah Weiller, coordenadora de inglês do colégio.

A pedagoga conta que muitas famílias ainda temem que a formação bilíngue crie uma confusão na mente das crianças expostas a outros idiomas já nos primeiros anos de vida. Suposição que ela rebate com base em pesquisas científicas. "Mostramos estudos realizados em países bilíngues como o Canadá que mostram que o aprendizado simultâneo não prejudica a formação da criança. Claro que, quando começa a falar e a se alfabetizar, pode apresentar misturas das línguas, mas ao longo do tempo seu cérebro distingue claramente o que é cada idioma."

Quanto antes

Aliás, pouca idade pode mesmo ser considerada uma vantagem para o aprendizado: se a criança iniciar os estudos em uma escola bilíngue mais cedo, menores serão suas dificuldades. Se o aluno vai mais velho é importante garantir que a escola ofereça um programa de acompanhamento para que esse estudante tenha a possibilidade de sanar possíveis defasagens em relação a conhecimentos linguísticos ou de conteúdos.

"Não adianta receber o aluno e não apoiá-lo em seu percurso. Caso não ofereçam esse apoio, as famílias devem repensar o ingresso do aluno. É função da escola, ao aceitar alunos, oferecer programas adequados para seu desenvolvimento", afirma Antonieta Megale, coordenadora do curso de pós-graduação em Educação Bilíngue do Instituto Singularidades e doutora em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Quem ensina. O curso coordenado por Antonieta é um dos poucos voltados à formação dos docentes sobre os aspectos teóricos e práticos relacionados ao bilinguismo. De forma geral, os cursos de graduação em Pedagogia (formação mínima necessária para atuar na educação infantil e na primeira fase do fundamental) não têm disciplinas ou um trabalho específico com essa temática. Até porque ser um professor em escola bilíngue não depende só da fluência.

Apesar do contexto amplo e diversificado, a especialista enumera competências que seriam imprescindíveis ao professor que atua na escola bilíngue, como conhecimento sobre os processos e fatores envolvidos no biletramento; conhecimento linguístico e semântico das línguas ensinadas; conhecimento acerca das teorias de aquisição de primeira e segunda língua; e compreensão da organização de currículos e de planejamentos com a interculturalidade como eixo central.

"Não se trata de apenas adicionar uma segunda língua ao repertório do aluno. Esse tipo de educação deve ter como questão central o desenvolvimento de práticas linguísticas complexas que abrangem múltiplos e, muitas vezes, diversificados contextos sociais e o professor precisa dominar tudo isso", resume.

A formação dos docentes é um dos parâmetros considerados para uma escola se associar à Organização das Escolas Bilíngues de São Paulo (Oebi). Criada em 2000, a entidade reúne 14 colégios bilíngues que adotam o inglês e atua tanto na gestão quanto com os alunos. Em relação às instituições de ensino, a Oebi promove troca de experiências para planejar ações de gestão e efetua a formação de professores e funcionários. Já os estudantes são beneficiados com atividades de integração, por exemplo, viagens e eventos esportivos e culturais.

Mas, para se cadastrar, é preciso que a escola interessada cumpra requisitos como garantir que os professores sejam "fluentes na fala e não só na escrita" e dedicar parte substancial da grade ao inglês. "Quando as escolas pedem cadastro, muitas se dizem bilíngues, mas entendemos que não é tão simples assim. Na educação infantil, tem de existir a imersão total na segunda língua, e no fundamental, pelo menos 40% de carga horária em inglês. Uma escola monolíngue não vira bilíngue da noite para o dia. É necessária uma reforma muito grande, principalmente de cultura", afirma Ana Célia, que além de ser a diretora pedagógica do colégio Builders também é presidente da Oebi.

Mercado aquecido

A disseminação de escolas bilíngues em inglês no Brasil aqueceu o mercado de produção de conteúdo didático exclusivo. A editora Systemic, por exemplo, especializou-se na elaboração de métodos para o segmento. Atualmente, atende a cerca de 16 mil alunos de educação infantil e fundamental em 80 escolas do Brasil.

"Entregamos à escola uma sugestão de conteúdo, um fichário com atividades nas mais diversas disciplinas ministradas em inglês. A escola tem a flexibilidade de montar de acordo com seu currículo, com a sua proposta pedagógica", explica Rone Costa, gerente de desenvolvimento da editora. "Em nosso conceito de educação bilíngue, não há hierarquia linguística. Falamos de Matemática, Ciências, Geografia e junto entregamos a língua. Ela aparece contextualizada em uma abordagem que integra conteúdo, cognição e cultura."

O que é ser bilíngue

-Educação Infantil

No mínimo de 75% da carga horária diária deve ser dada no idioma estrangeiro

-Ensino Fundamental I

Pelo menos 1/3 da carga horária diária deve ser em outra língua, que não o português

- Ensino Fundamental II e Ensino Médio

No mínimo de 1/4 da carga horária diária deve ser em um idioma diferente do português

A diferença entre escola bilíngue e internacional

Uma escola bilíngue utiliza um segundo idioma para o aprendizado do currículo. Dessa forma, disciplinas como Matemática, Ciências e História têm seus conteúdos transmitidos tanto em português como em outro idioma. Além disso, ocorre uma imersão nas culturas referentes aos idiomas utilizados no colégio, em que autores brasileiros e internacionais são trabalhados. A instituição conta com profissionais fluentes em ambos idiomas e alguns só se comunicam com os alunos na língua estrangeira. Não há a obrigatoriedade de os professores serem nativos no segundo idioma. No Brasil, o inglês é o idioma mais comum nas escolas dessa modalidade, mas também há colégios bilíngues que adotam o francês e o alemão, entre outras línguas.

Em colégios internacionais, o uso é praticamente exclusivo do idioma do país de origem. Da mesma forma, o calendário e a grade curricular são alinhados ao sistema educacional internacional ao qual a escola é vinculada. Neles há também uma atenção à formação dos estudantes para possíveis vivências fora do Brasil, com programas de certificação internacional que possibilitam ingressar em instituições de ensino no exterior. São muito procuradas por estrangeiros que estão no Brasil apenas por algum tempo e, por isso, não priorizam o aprendizado do português.

Estadão

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