'Professora inquieta': educadora da periferia de SP vence prêmio mundial e impacta mais de 5 mil escolas
Débora Garofalo foi eleita como a educadora mais influente do mundo; trajetória até reconhecimento foi de muitos desafios e resiliência
"Uma professora inquieta". É assim que Débora Garofalo, de 46 anos, define sua trajetória na sala de aula. Recentemente, a paulistana ganhou os holofotes no Brasil e no exterior ao ser reconhecida como a educadora mais influente do mundo pela Varkey Foundation, fundação internacional que criou o Global Teacher Prize, principal prêmio voltado a professores. Mas, para chegar até aqui, o caminho de Débora ficou marcado por alguns desafios e muita resiliência para desenvolver um trabalho que hoje impacta mais de 5,4 mil escolas e cerca de 3,7 milhões de estudantes.
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A história dela começou no extremo Sul da capital paulista, local onde nasceu e cresceu. Débora é a caçula de três irmãs e teve uma infância humilde, com pouco recurso financeiro. "Moramos de favor em um quartinho, não tinha banheiro, tinha que fazer necessidades em baldes e tinha muita cobrança da família de que a gente não seria ninguém porque não tinha pai", detalha.
Filha de mãe solo, a professora conta que, embora sua genitora tenha estudado apenas até os anos finais do ensino fundamental, ela era uma "leitora incrível" e foi a sua maior incentivadora de que "a educação pode transformar vidas". "Eu cresci não me lamentando por aquilo que eu tinha passado, mas olhando sempre de uma forma otimista para aquilo que eu poderia ter. Isso me fez uma pessoa muito inquieta", afirma a educadora.
Débora se formou em Letras e Pedagogia, mas, para pagar a faculdade, precisou trabalhar por um tempo em um banco e na indústria, na parte de Recursos Humanos, no início dos anos 2000. Foi aí que percebeu que muitas pessoas, mesmo com o ensino médio concluído e buscavam um emprego, tinham dificuldades com a tecnologia. "Ali começou a me causar uma inquietação e eu sempre acreditei que o meu trabalho seria muito mais potente se eu pudesse desenvolvê-lo para a escola pública e, preferencialmente, em periferias. Essa sempre foi a minha motivação para trabalhar", diz.
Em 2005, ela passou no concurso público para professores do Estado de São Paulo e, a partir de 2008, conseguiu deixar a indústria e seguir somente com a carreira de educadora. Em 2015, Débora chegou na Escola Municipal Ary Parreiras, em São Paulo (SP), onde desenvolveu o projeto Robótica com Sucata, que utiliza materiais recicláveis e lixo eletrônico, combinados com componentes eletrônicos básicos, para construir robôs e protótipos funcionais. O trabalho rendeu uma série de prêmios e reconhecimentos.
Como foi o início do 'Robótica com Sucata'
Quando Débora chegou à escola, que fica na Vila Babilonia, na Zona Sul de São Paulo, ela encontrou um local com altos índices de violência e de drogas e lembra que viu os alunos olhando "para aquele espaço não como local de aprendizagem, mas como local de entretenimento". Ao surgir uma vaga, ela decidiu sair da sua zona de conforto e lecionar tecnologia na sala de aula para todas as turmas, do 1º ao 9º ano, "porque acreditava que podia transformar a vida" deles.
Ao assumir o projeto, ela também foi entender melhor um pouco da realidade das crianças naquele território, onde muitas passavam fome, outras não tinham saneamento básico em casa, por exemplo.Ouvia dos alunos que "robótica não é para gente".
"A primeira vez que eu dei uma volta no bairro, eu fiquei dois dias sem me alimentar, porque eu não me conformava. Foi quando eu propus às crianças para a gente ir para as ruas e pegar material para levar para a sala de aula", recorda.
"Precisou de todo um trabalho de sensibilização, de mostrar para essas crianças que elas eram capazes. E começou o meu trabalho também de entender de que maneira eu poderia mediar essa construção desse lixo para produzir alguma coisa que encantasse esses meninos. Nosso primeiro protótipo foi um carrinho movido a bexiga."
E os alunos gostaram do resultado e, a partir daí, foi estruturado como seria esse projeto, com aulas públicas, sensibilização da comunidade, recolhimento dos materiais e parceria com Organizações Não Governamentais (ONGs) para tornar o trabalho sustentável.
"A gente começou a pensar em como criar jogos interativos, ao mesmo tempo, as crianças estavam pensando em criar sensor de enchente para colocar no córrego para que quando atingisse um certo limite, disparasse e avisasse os moradores. Outro, começou a criar cadeira de roda com inteligência artificial para os estudantes", conta Débora. "A gente atingiu alguns resultados com esse trabalho: combate a evasão escolar em 93%, o combate ao trabalho infantil em 95%, saltamos o Ideb de 4,2 para 5,2 e retiramos mais de uma tonelada de lixo das ruas de São Paulo", acrescenta.
O projeto chamou a atenção e, em 2019, a professora foi finalista no Global Teacher Prize, considerado o "Nobel da Educação", ficando entre os 10 melhores professores do mundo.
Trabalho para projeto se tornar política pública
Após esse reconhecimento e outros prêmios, Débora passou a "lutar para que esse trabalho realmente se torne uma política, uma técnica e uma metodologia de ensino". Ela saiu da sala de aula e passou a trabalhar na gestão de políticas públicas, com atuação na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo e na Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.
Em São Paulo, ela trabalhou na criação do Centro de Educação Básica Paulista, um espaço da rede estadual de ensino para aprendizados de robótica, programação e ferramentas digitais. Já no Rio de Janeiro, ela atuou no Ginásio Educacional Tecnológico, um espaço também de uso de tecnologias para o aprendizado.
Desde junho do ano passado, Débora abriu uma consultoria e, atualmente, trabalha como consultora de tecnologia para ajudar a formar docentes, a formar redes e a estruturar políticas públicas que olham para a inovação. Mestre em Linguística Aplicada pela PUC-SP e Fab Learn Fellow pela Columbia University, nos Estados Unidos, ela também atua como professora convidada da Universidade de São Paulo (USP).
O prêmio de educadora mais influente do mundo veio neste ano, pegou Débora "de surpresa" e foi entregue no início de fevereiro, em Dubai. Ela se tornou pioneira a ganhar na categoria, que foi criada neste ano para reconhecer um "professor excepcional que utiliza as mídias sociais para expandir o aprendizado para além da sala de aula". "É um prêmio que diz 'olha você está no caminho certo. Vamos lá, mais um gás para você continuar insistindo"', afirma Débora.
Segundo a educadora, agora sua missão continua em democratizar o acesso à tecnologia e à inovação. "Meu desejo é continuar contribuindo em diferentes frentes, porque eu acredito que, como professora, nós somos agentes da transformação e acredito mais ainda que, como professora, a educação é transformadora. Não existe caminho se a gente não passar por educação e se não houver investimento. Meu maior desejo é fazer esse trabalho chegar em todas as escolas e de alcançar os méritos dele de estar como política pública realmente do Brasil."