O que pensam alunos das redes pública e privada sobre a educação no Brasil

Grupos do 1º e do 2º ano do ensino médio falaram ao 'Estado' sobre assuntos como bullying, desigualdades e pressão social

4 dez 2019
12h11
atualizado em 5/12/2019 às 12h41
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SÃO PAULO - O que ajuda a explicar o desempenho fraco do Brasil no Pisa, principal avaliação internacional de educação básica? Além de procurar respostas para esse questionamento com especialistas em educação, o Estado ouviu quem vive a situação no dia a dia ao conversar com estudantes do primeiro e do segundo ano de duas instituições da cidade de São Paulo, uma pública e a outra, privada.

O grupo de 27 alunos de uma escola pública no Parque Dom Pedro II, região central, apontou diversas vezes que era "privilegiado" por estar em uma instituição pública considerada modelo e que oferece educação integral. Mesmo assim, parte deles relatou dificuldades, como levar até uma hora e meia de transporte público, pois as opções próximas de casa não são tão boas.

"Todos os meus irmãos trabalharam durante o ensino médio (e estudavam à noite). Nisso, sou um privilegiado. Às vezes, até os pais não entendem a importância", conta Gustavo Galvão, de 16 anos.

Ele mora na Vila Nova Galvão, bairro da zona norte, a quase 20 quilômetros de distância do centro. "Engraçado que quem mora na Vila Galvão procura escola no Jaçanã, quem mora no Jaçanã procura no centro, porque não tem oportunidade onde se mora."

Laura Oliveira, de 16 anos, também considera que as desigualdade sociais impactam no baixo desempenho do Brasil no Pisa. "Tudo influencia, sua casa, a saúde. Se não dão uma estrutura para a gente, a gente não consegue estudar direito. Quem mora longe, já chega cansado", comenta ela, que também leva mais de uma hora até o colégio.

"Se tivesse escolas como essa na minha zona, não estaria aqui. Se tivesse empregos, minha família não mudaria tanto. Aí, quem sabe, o gráfico (do Brasil no Pisa) poderia subir. Isso porque os professores dizem que a nossa escola é uma bolha."

Laura e outros alunos relatam ter convidado amigos para estudar na São Paulo, mas que a carga letiva (de cerca de 9 horas) foi um dos principais empecilhos. "Aqui mesmo, quando o ensino ficou integral, muitos saíram para trabalhar", explica Ronaldo Oliveira, de 15 anos.

Outra questão que afasta os alunos são os relatos de roubos e furtos na região. "Antes, quando um aluno era assaltado, chegava nervoso, transtornado. Isso fica na cabeça", comenta Gustavo.

Ester Kerolyn Lima, de 16 anos, relata ter percebido diferenças quando visitou amigos em Orlando, nos Estados Unidos. "Eles não precisam se preocupar em como ir para escola, o ônibus busca em casa, eles têm bom material de informática, com computador da Apple, as escolas são enormes, e são públicas."

Eles também comentam que atividades, como o acolhimento de novos alunos, também ajuda a atenuar o bullying. "Na minha antiga escola, tinha um amigo que era bem afeminado. Eu e uma amiga tivemos de ir na diretoria reclamar para fazerem alguma coisa (contra o bullying que o garoto sofria). Os gays assumidos eram trancados nos banheiros, e a direção não fazia nada, só quando era algo muito grave", recorda Laura.

Neste momento da conversa, um rapaz que não tinha se manifestado até então comentou que parou de sofrer bullying apenas quando a São Paulo se tornou de turno integral. "O acolhimento fez as pessoas se conhecerem mais", comentou. "No decorrer do tempo, vai ser muito melhor", aposta Gustavo.

Rede particular

O Estado também conversou sobre os resultados do Pisa com sete estudantes do 1º e do 2º ano do ensino médio de uma escola particular na Vila Clementino, zona sul da capital. Entre eles, a maioria dos comentários fazia referência à pressão por tirar boas notas, passar no vestibular e ao sistema de ensino em geral no País.

Eles comentam que professores não têm metodologias de ensino adaptadas aos jovens de hoje, repetindo fórmulas (como passar muito material para copiar) e não trazendo atividades atrativas e práticas, que poderiam ser mais interessantes - como estudar barroco em uma igreja antiga ou ensinar geopolítica com música, exemplificam. Por isso, alguns preferem estudar por vídeos e afins.

"Me vejo lecionando no futuro. E a minha preocupação é ser um professor que realmente se preocupa se os alunos estão entendo a matéria", comenta Arthur Zamonaro, de 15 anos.

Para ele, o fato de o ensino no Brasil ainda estar mal avaliado mostra que são necessárias revisões. "Nosso método não está dando certo. As tecnologias são diferentes, os presidentes são diferentes, os professores são diferentes. O que está dando errado então? Quem garante que, em 2021, o Brasil vai se sair melhor no Pisa?", questiona. "Se aumentou pouco é porque se investiu no que não está dando certo", completa Aika Takahashi, de 15 anos.

Os alunos comentam, contudo, que o esforço para melhorar o desempenho não depende só das instituições, mas também dos estudantes. "Faz parte se esforçar para não dormir, perguntar para o amigo do lado se tem uma dúvida", afirma Victor Martins, de 16 anos.

Outra questão é o constrangimento de tirar dúvidas com o professor ou de sofrer algum tipo de segregação por ser bom ou mau aluno. Eles comentam de casos de colegas que chegaram a passar mal por causa de provas e da competição por melhor desempenho. "É humilhante ficar de recuperação. Repetir de ano é humilhante", comenta Enzo de Almeida, de 16 anos. "A gente pode ser taxado de burro se não souber uma coisa, o professor mostrar a prova", acrescenta Gabriel Bertolly, de 16 anos.

"A gente entra na escola feliz, no fundamental, que vai fazer amigos. Aí vem um taco de beisebol na nossa direção que são as notas, a cobrança. A cobrança só aumentando em uma bola de neve", desabafa Enzo.

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Estadão
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