Nota em Português da rede estadual de SP cresce, mas não supera nível anterior à gestão Tarcísio
Alunos têm conhecimento apenas básico da disciplina; em Matemática, resultado foi o melhor da série histórica. Governo diz que ainda há impactos da pandemia
O desempenho dos alunos do 9.º ano das escolas estaduais de São Paulo em Língua Portuguesa cresceu entre 2024 e 2025, mas não superou o patamar registrado em 2022, antes da atual gestão (Tarcísio de Freitas, do Republicanos). A rede também não atingiu a nota que tinha em 2019, último ano antes da pandemia, quando os alunos tiveram queda de aprendizagem por causa do fechamento de escolas e das aulas remotas.
Já em Matemática, no 9º ano, os resultados são melhores: o desempenho registrado em 2025 foi o mais alto da série histórica desde 2011, muito próximo do que havia sido medida em 2019, no pré-covid.
Os resultados do Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado (Saresp) foram divulgados nesta quarta-feira, 24, no Palácio dos Bandeirantes. Essa foi a primeira vez que Tarcísio participou da divulgação das notas desde que assumiu o governo.
Segundo ele, o desempenho do 9º ano em Português ainda sofre impactos da pandemia. "Tenho certeza que quando os alunos mais novos chegarem ao 9º ano os resultados serão melhores", afirmou.
A nota de Português do 9º ano ficou em 243,0 no Saresp 2025. No último ano da gestão João Doria/Rodrigo Garcia (então no PSDB), havia sido de 244,2. Já em 2019, ainda na gestão Doria, era de 249,6.
Essas três notas estão no patamar considerado básico pelo governo, o que significa que eles têm domínio mínimo dos conteúdos aos 14 anos (há ainda os níveis abaixo do básico, adequado e avançado). O nível básico em Português significa, por exemplo, que os adolescentes não entendem o sentido do uso de expressão entre aspas, em título de reportagem ou em um texto literário.
Em Matemática, os alunos ficaram com nota 260,3 na avaliação mais recente e tinham 259,9 em 2019. No entanto, também estão no patamar considerado básico. Isso significa que eles não conseguem determinar a velocidade média de um avião quando são apresentadas a distância total do percurso e a duração total do voo.
Alfabetização
No 2º ano, série em que se avalia a alfabetização, também houve queda numérica nas notas de Língua Portuguesa, mas ainda dentro do nível considerado avançado. A média foi de 191,7 pontos; em 2024 era 195,8.
Para o secretário da Educação, Renato Feder, trata-se de uma "estabilidade" e mostra ainda que avaliação precisa ser aprimorada porque as crianças já chegaram no máximo do desempenho. Segundo o governo, 10% das escolas acertaram todas as questões de Português no 2º ano, por exemplo. Em Matemática, houve aumento, de 196,7 para 200,8 pontos, também dentro do nível avançado.
No 5º ano, cresceram as notas tanto em Português quanto em Matemática entre 2024 e 2025. Mas ainda não chegaram ao nível considerado avançado.
Aumento no índice de frequência
"Os resultados nos empolgam bastante", disse o governador. "Não se trata de não enxergar que ainda há muito o que fazer, mas tem que celebrar cada etapa". Tarcísio comemorou o fato de ter aumentado a frequência na escola, ou seja, houve menos faltas. Segundo o governo, 300 mil alunos a mais estão nas escolas todos os dias - o índice de frequência cresceu de 78% para cerca de 90%, segundo o governo.
"Melhorar a qualidade educacional é missão de qualquer mandato, então é sempre bem-vindo o aumento dos resultados de aprendizagem. Dito isso, os resultados apresentados, que sinalizam o retorno ao que tínhamos pré-pandemia, não deveriam ser celebrados. Não me parece ser o patamar que São Paulo, o Estado mais rico da nação, deveria ambicionar depois de 4 anos de gestão", disse a presidente do Todos pela Educação, Priscila Cruz, que acompanhou a divulgação.
Antes de apresentá-los à imprensa, o governador mostrou os dados a um grupo de especialistas ligados ao terceiro setor.
Na entrevista coletiva, o governo destacou que a evolução das notas dos anos finais do fundamental foi de 16,5% em comparação a 2024. E também citou a diminuição da quantidade de alunos em níveis abaixo do básico na rede estadual.
"Foi uma avanço interessante, mas estamos ainda lutando com o patamar da pandemia, o que mostra que a urgência segue forte em São Paulo", disse o diretor-fundador do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), Ernesto Faria, que também estava no Palácio dos Bandeirantes. "Não se pode dizer ainda que há outro cenário educacional no Estado."
"Os resultados mostram avanços e desafios ao mesmo tempo", completa o professor da Faculdade de Educação da Universidade de Stanford, o brasileiro Guilherme Lichand, que também acompanhou a divulgação. Para ele, a etapa do fundamental 1 teve avanços mais claros e o fundamental 2 continua sendo o grande desafio. "Existe ainda uma proporção gigante de alunos abaixo do básico. Há alguns programas promissores da secretaria para lidar com as defasagens extremas, mas os resultados demoram um pouco."
No ano passado, o principal avanço havia sido nas turmas de 2º ano do fundamental, em que o desempenho dos alunos melhorou 45,3% em Matemática em relação a 2023, e avançou 28% em Língua Portuguesa.
Já no 5º ano e no 9º ano do fundamental as notas tinham crescido pouco e ainda não haviam voltado ao que eram antes da pandemia.
Em 2023, o resultado havia sido pior: a média dos alunos do 9º ano, por exemplo, havia caído voltarado a patamares de dez anos atrás e ainda eram piores do que as registradas imediatamente após a pandemia.
O desempenho veio logo após medidas polêmicas de Feder, que chegou anunciar a intenção de não usar mais livros didáticos e depois recuou.
O Saresp avalia os alunos da rede estadual e municipal em Português e Matemática no 2º, 5º, 7º, 8º, 9º anos do ensino fundamental. O 3º ano do ensino médio também é avaliado, mas por meio do Provão Paulista e não mais pelo Saresp.
Indicadores nacionais
As notas do 2º ano atualmente são usadas também pelo Ministério da Educação (MEC) para compor o Índice da Criança Alfabetizada (ICA).
São Paulo melhorou seu desempenho no indicador divulgado em 2025, passando de 51,91% das crianças alfabetizadas para 58,13% (a meta era de 56%). No entanto, apesar de ser o mais rico do País, continua com o índice menor que a média nacional, que é de 59,2% das crianças alfabetizadas.
Ensino médio
O governo do Estado não apresentou os dados do ensino médio porque deixou de fazer o Saresp para essa etapa desde que foi criado o Provão Paulista. O exame é feito com alunos da rede estadual para selecionar estudantes para as universidades de São Paulo (USP), Estadual Paulista (Unesp) e Estadual de Campinas (Unicamp).
O governo havia anunciado ano passado que não mais faria o Saresp para o ensino médio porque usaria os dados do Provão, o que tinha sido criticado por especialistas por acabar com uma série histórica de resultados. No entanto, nesta quarta-feira, a gestão voltou atrás e informou que haverá um novo Saresp para alunos do 3º ano do médio em 2025 e que não é possível comparar as duas provas.