Rússia invadida: atravessando o Rio Niemen

16 abr 2018
17h34
atualizado às 17h35
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A invasão russa de Napoleão Bonaparte a Adolf Hitler.

O incêndio de Moscou (1812)
O incêndio de Moscou (1812)
Foto: Divulgação

Napoleão na Rússia (1812)

Pareceu mais uma viagem triunfal. Quando Napoleão chegou a Dresden, a capital da Saxônia, em maio de 1812, o Ocidente inteiro veio prestar-lhe homenagens. O rei prussiano rivalizou-se com o imperador austríaco, e com miríades de príncipes e demais satélites da constelação de bajuladores, em exaltar o poder do grande homem. As águias napoleônicas, excetuando-se a teimosa Inglaterra, espantaram toda resistência e, doravante, a Europa, em séquito, seguiria obediente ao seu comando.

Com ele, com aquele Imperador do Ocidente, em direção aos limites russos, deslocaram-se 480 mil soldados, de um total de 617 mil. Era uma Babel armada. Lá estavam os soldados bávaros, os prussianos, os austríacos, os suíços, os croatas, os italianos, os espanhóis, os holandeses, os poloneses e, naturalmente, os seus fiéis franceses. Formavam o maior exército do mundo de então. O motivo da guerra contra a Rússia era nebuloso. Napoleão concluíra que o Velho Continente não podia continuar vacilando entre Paris e Moscou, entre o Espírito racionalista francês e a Tirania obscurantista asiática, decidindo-se por atacar aquela imensa extensão de estepes, de florestas e de gelo, habitada por um povo visto pelos demais europeus como semi- bárbaro.

No início do verão daquele ano, em 23 de junho, partindo da aldeia Poniemen, no norte da Polônia, três pontes foram lançadas sobre o Niemen, o rio que separava o Império Napoleônico do Império Czarista. Em seguida, uns botes com sapadores franceses chegaram à margem oposta. Depararam-se com um solitário pelotão de cossacos, espantados ao saberem tratar-se de uma invasão. Nos oito dias seguintes a vanguarda do Grand Armée, uns 220 mil soldados, sem encontrar resistência, pôs os pés em solo inimigo. Foi o único e último momento de descanso das suas vidas.

Cinco meses depois, menos de 4 mil deles, enregelados, famintos  e apavorados, entre os quais Napoleão num trenó especial, , conseguiam atravessar a fronteira de volta. Eram as sombras humanas de um dos maiores desastres militares de todos os tempos. As nevascas, o gigantismo geográfico, a bravura do mujique e astúcia tártara do Marechal Kutuzov, devoraram os invasores.

Hitler na Rússia (1941-1945)

“É só chutar a porta. Todo o resto cairá junto!”
Hitler, nas vésperas de invadir a URSS, 1941

129 anos depois, no 22 de junho de 1941, um dia após o aniversário do ataque napoleônico à Rússia, foi a vez das divisões hitleristas e demais aliados fascistas atravessarem o Rio Niemen. Desta vez era o Império Nazista quem afrontava o Império Soviético. Os tanques do General Höppner, não tiveram dificuldade alguma em cruzar suas águas. Atrás dele, numa frente que se estendia por 1.600 km, seguiam-no, em vinte sucessivas ondas, 3 milhões de soldados, 3.550 panzers e 2.770 aviões. A maior máquina de guerra dos tempos modernos marchava para o interior da União Soviética para destruir a Rússia e os bolcheviques.

Cumpria-se o tão sonhando Drang nach Osten , o ímpeto para o leste dos alemães às custas das terras russas. Com ele, solidários com Hitler na destruição da URSS, fascistas de todas as partes apresentaram-se como voluntários. Uma Internacional da extrema Direita o seguiu, imbuída. do arraigado e perene ódio que a Rússia provoca nos ocidentais desde os tempos do czar e que se acirrou ainda mais com a implantação do poder bolchevique em Moscou. (*)

Quatro anos depois, em 1944, também num verão, o que restou deles, da poderosa engenharia militar nazi-fascista, retirou-se em frangalhos para as linhas da Germânia do leste,deixando para trás em solo russo os corpos de 2.745 mil soldados. Se bem que os generais de Hitler houvessem arrasado com tudo com que se deparassem no caminho, a imensa Rússia conseguira sobreviver e contra-atacar. Hitler e os seus viraram pó.

Passados decênios do ataque nazista, novamente o Ocidente aproxima-se perigosamente da Rússia. A Organização do Atlântico Norte, a OTAN,  integrada recentemente pela Polônia, pelas republicas Checa e Húngara, chegou às bordas do Rio Niemen. Igual a manobra preliminar do Führer, atacou primeiro os Bálcãs ( bombardeando a Sérvia) para fechar-lhe  o flanco sul. Como Napoleão em 1812 e Hitler em  1941, um outro Imperador do Ocidente, o presidente dos Estados Unidos da América,  também comanda uma coligação de europeus ocidentais anti-russos que de novo se põe em guarda.   O ódio ao russo, a fobia à Rússia, ainda lateja no espírito dos ocidentais.

(*) Um dos aspectos mais intrigantes da Operação Barbarossa é o que teria motivado uma operação daquela dimensão contra as terras russas. Hitler estava longe de ser um ignorante em história, e certamente lera sobre a catástrofe do ataque napoleônico ao Czarado e o desastre que causou ao exército francês e ao Império Bonaparte. Os oficiais alemães certamente tinham em alta conta o “filosofo da guerra” Carl von Clauzewitz ( autor do livro clássico sobre temas estratégicos, Vom Kriege, 1832) que alertou num dos capítulos da impossibilidade de mover uma guerra de conquista sobre os eslavos do leste. A Rússia, observou ele, devido aos seus quase infinitos espaços geográficos compondo 17 milhões de km², saindo do leste europeu e alcançando no extremo oriente as margens do oceano Pacífico, a maior extensão de terras na mão de um comando centralizado ( o czar, e. depois, os tiranos soviéticos) não permitia ocupação.

Sempre haveria algum lugar para resistir e contra-atacar os invasores. Quando Hitler, após vencer e ocupar a França, comunicou aos altos oficiais a sua decisão de atacar o regime de Moscou logo que possível, causou perplexidade. Todavia,  que se saiba, nenhum deles se opôs ao plano Barbarossa. O silêncio deles foi um gesto de aceitação e obediência que conduziu a Alemanha a maior tragédia da sua história.

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Fonte: Especial para Terra

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