Napoleão, através dos Alpes

18 jan 2018
15h57
atualizado às 16h02
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“Quando o homem que quer criar grandes coisas precisa do passado, usa a história monumental"

F.Nietzsche, Considerações intempestivas, 1873-6

Napoleão cruzando os alpes ( L.David, 1801-05)
Napoleão cruzando os alpes ( L.David, 1801-05)
Foto: Reprodução

Nietzsche disse que os grandes homens liam a história de uma maneira diferente da gente comum. Para o simples mortal, a grandiosidade das coisas pretéridas resulta ser paralisante, fazendo vacilar a sua inteligência e sua vontade. Para os superdotados, ao contrário,  ela, “a história monumental”, age sobre eles como um desafio, algo a ser necessariamente superado. Pelo menos assim se deu com Napoleão. As incansáveis leituras que fez, quando ainda cadete, sobre o Mundo Antigo, tornando-o íntimo de Plutarco, Tácito  e de Tito Lívio, inspiraram-no a que ele, quando da célebre Campanha do Egito em 1798, seguisse o exemplo de Alexandre o Grande. Ao deixar a França e desembarcar no delta do Nilo, levara junto, no bivaque dos regimentos franceses, uma notável plêiade de mais de cem  cientistas para tentar desvendar o enigmático país das pirâmides.

Até então, o jovem general - tinha somente 29 anos - fizera uma carreira meteórica. A Revolução de 1789, ao devastar a nobreza militar francesa, abrira oportunidades de promoção do dia para a noite. O comando da força armada revolucionária era composto de egressos de todas as classes sociais. General-de-brigada aos 26 anos, Bonaparte entrara na Lombardia italiana com uma tropa de esfarrapados e  batera espetacularmente os exércitos austríacos que então a ocupavam. Dois anos depois, no Cairo, quando da fundação da Academia de Ciências do Egito, imaginou-se um califa, um representante do Profeta, ordenando que suas diretrizes fossem impressas em árabe. Fracassada a aventura pelos dissabores trazidos por Lorde Nelson, almirante inglês que afundou a esquadra francesa na baia de Aboukir em agosto de 1798, Napoleão, numa escapada mirabolante, astuto como um Ulisses, escapara ao bloqueio inglês no Mediterrâneo.

De volta à Paris, acusou o regime civil de incompetente e irresponsável. Na ausência dele, a França recuava em todas frentes. O Diretório se acovardara. Apoiado no exército, de quem  se tornara herói, derrubou-o em 48 horas, no Golpe do 18 Brumário ( 9-10 de novembro de 1799). A mensagem que então enviou ao povo francês não deixou dúvidas: ele não seria “um Robespierre a cavalo”, a Revolução de 1789 acabara. A era da turbulência seria sucedida pela era da ordem. Até de aparência Napoleão mudou. O descabelado e pouco elegante oficial do exército revolucionário, deu lugar ao visual sóbrio do primeiro cônsul, trajado  veludo, penteando o cabelo à la romana. O corte de um César. A nova carta que ele fez aprovar – a Constituição do ano VIII – não deixava dúvidas de quem mandava na França. Para tranqüilizar os burgueses, e também para merecer-lhes o voto de confiança, fundou, em janeiro de 1800, o Banco da França.

Faltava-lhe, porém, algo ainda mais espetacular para consolidar o regime. Uma façanha que embasbacasse o mundo. Os exércitos franceses que ele deixara na Itália em 1796 sentiam-se ameaçados pelos austríacos. Era preciso  uma operação relâmpago para socorrê-los. Veio-lhe à memória a passagem de Aníbal, o cartaginês,  pelos Alpes, ocorrida 2 mil anos antes, à época das Guerras Púnicas. O grande capitão africano chegara até a levar elefantes à Suíça!

Bonaparte não podia ficar-lhe atrás. Num rufar de tambores, arregimentou uma tropa, equipou-a para o frio e foi em frente. Se o cartaginês conduzira em meio aos picos gelados aqueles mastodontes que trouxera da África, ele carregaria à muque as peças de artilharia, improvisando  uns trenós para deslizá-las pelos desfiladeiros. Em maio de 1800, franqueou o passo de São Bernardo num zás (façanha que,  mais tarde, Jean Baron e d’Albe Louis imortalizaram numa belíssima tela). A seguir, em junho, ele esmagou os adversários em Marengo. Estonteado com o que fizera em menos de um ano, onde fora Alexandre, o grande, no Egito, e, em seguida, Aníbal Barca, na Suíça, cismou então superar um outro gigante do passado: Carlos Magno. Em 1804, ele iria coroar-se Imperador da França. Porque não ser também um Imperador do Ocidente?

Nietzsche afirmou que, por vezes, “uma grande vitória é um grande perigo”. As alturas dos Alpes, que Napoleão cruzou com sucesso há 200 anos, levaram-no aos excessos de grandeza. Dali à perdição nas estepes geladas da Rússia, em 1812. Mesmo assim, mesmo derrotado, foi o seu exemplo que inspirou o filósofo a conceber a existência do super-homem.

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Fonte: Especial para Terra

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