Mussolini, Hitler e mais ditadores que atraíram multidões

5 jun 2018
14h27
atualizado às 14h53
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“Os homens continuam se arrastando, mesmo quando já desapareceram completamente todas as possibilidades imagináveis de salvação”.

Elias Canetti “Massa e Poder”, 1960

Benito Mussolini (1883-1945), série de Selos da Segunda Guerra Mundial
Benito Mussolini (1883-1945), série de Selos da Segunda Guerra Mundial
Foto: iStock

Nos anos vinte, invariavelmente pela manhã, saía a trote em seu belo cavalo branco em direção à Vila Borghese, o grande parque de Roma, no caminho jovens e belas mulheres lançavam-lhe abanicos e graciosos olhares e as crianças, espontaneamente, enfileiravam-se nas calçadas saudando-o com o cumprimento fascista. Era o passeio do duce, Benito Mussolini, que acontecia cercado de satisfação geral. Uns tempos depois, na Alemanha nazificada, o führer Adolf Hitler, quase era engolfado por multidões histéricas que freneticamente estendiam suas mãos para tocar naquele deus-vivo, marchando como carneiros obedientes para a mais das terríveis tosquias deste século.

Em dezembro de 1949, as gares de Moscou entupiram-se com intermináveis filas de vagões carregados de presentes vindos de todos os cantos do império soviético, para agradecer Stalin que estava celebrando o seu 70º.  Aniversário. Não houve cidade, vilarejo, fábrica, escola ou colcós, que não lhe enviasse algum tipo de regalo. Suas raras aparições, no alto do palanque oficial, instalado no Kremlin da Praça Vermelha, provocavam violentas emoções na multidão que estremecia ao ver a figura do “Pai dos Povos”. No seu enterro, em março de 1953, como relatou Evtuchenko, comovido, centenas de inocentes pereceram nas ruas esmagados antes de poder enviar-lhes as despedidas.

Na China, como recentemente revelou um dos seus médicos privados, Mao Tse-tung, tal um mandarim lascivo, recebia em seus aposentos um infindável séquito de jovens mulheres que consideravam-se honradas em prestar favores sexuais a quem atribuíam dons divinos. Enquanto isto, lá fora, na Praça da Paz Celestial, seu nome escoava entre milhares de vozes que para lá afluíam como um mar humano, gritando slogans em seu favor.

Também foram milhares os que, em 1952, acompanharam chorosos o féretro da precocemente falecida mulher do ditador argentino Juan D. Perón, Eva Perón que, depois disto, tornou-se uma espécie de santa do justicialismo. Na ilha de Cuba, o líder revolucionário Fidel Castro, que mantém grande parte da população eletrizada com sua peroração anti-americana, em discursos que se prolongam por horas a fio, é o homem mais popular da história do país.

No Rio de Janeiro, no Maracanã, no princípio dos anos 70 anunciou-se pelos alto-falantes que o General Emílio Médici encontrava-se presente para ver o jogo. Espontaneamente, uma estrondosa salva de palmas de mais de cem mil mãos ecoou pelo estádio aclamando o ditador: era o “Presidente, amigo da gente!” Nada diferente do que ocorria no Chile naquela mesma época. Bastava o carro presidencial surgir numa das avenidas de Santiago para que os populares apinhados nas calçadas gritassem “Da-le, da-le, Pinochet!”

Em Uganda, na África,  o ditador Idi Amin deliciava seu povo fazendo com que os poucos brancos e alguns estrangeiros comessem o pão que o diabo amassou, submetendo-os à implacáveis humilhações públicas.

Estes exemplos extraídos de momentos diversos da história do nosso século nos obrigam a constatar que bem ao contrário das esperanças dos humanistas e dos progressistas, as massas, independentemente da localização geográfica em que se encontram,  da ideológica que seguem ou do estágio cultural  de alcançaram, adoraram seus ditadores, os tiranos que as governaram e que as levaram para o abismo da guerra. A liberdade e a fraternidade, na verdade,  são breves  suspiros no tempo, pausas curtas na História, durando apenas o suficiente para que os povos aguardem em silenciosa veneração a chegada salvadora do “grande homem”....de preferência chegando montado no cavalo branco.

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Fonte: Especial para Terra

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