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Marxismo e Vanguarda - Parte I

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Voltaire Schilling

Dois momentos historicamente distintos marcaram a relação entre o marxismo e a vanguarda artística. No primeiro deles, mais ou menos entre 1890 e 1930, foi assinalado pela simpatia e aproximação, depois disto deu-se um crescente estranhamento, quando não aberto repúdio da vanguarda pelo marxismo.

Quem melhor encarnou esta última fase foi o famoso teórico da cultura, o marxista húngaro-germano George Lukács, um dos expoentes do stalinismo nas questões da estética.

A perspectiva marxista
Para melhor entender-se o escopo da critica feita por Lukács, senão que um anátema lançado contra as vanguardas, é preciso situar como o marxismo se posicionava frente à cultural ocidental.

Via-se ele, em parte, como herdeiro do iluminismo, sentindo-se como uma expressão da emancipação do homem dos grilhões da necessidade (econômicas, políticas e sociais) e, por outro, posicionava-se como seguidor da tradição humanista (que colocava o Homem como centro das suas preocupações fundamentais). Tradição esta que denunciara como deformadas pela ¿fria lógica do capitalismo¿ e pelos interesses mesquinhos e lucrativos da burguesia ocidental.

Aproximando-se da vanguarda
Ao tempo em que o marxismo era uma doutrina marginal ao sistema filosófico e político vigente na Europa do século XIX, quase que considerada uma ideologia subversiva, senão que criminosa aos olhos das autoridades (perseguida na França depois do levante da Comuna de Paris, de 1870, e proscrita da Alemanha por Bismarck, após um atentado fracassado contra o imperador Guilherme I, em 1878), era natural que visse com simpatias as rebeldias e injurias dos artistas e dos boêmios em geral contra a arte oficial e a 'ordem burguesa'.

A inquietação dos pintores, dos escultores, dos poetas e dos literatos, era entendida como revolta salutar. Um desaforamento ao conformismo filisteu que dominava o cenário cultural hegemonizado então pelo academicismo (a verdadeira besta-negra das vanguardas).

A crítica incisiva deles aos costumes e valores tradicionais parecia aos marxistas como equivalente ao que Marx e Engels fizeram ao se insurgirem contra o pensamento político e econômico convencional. Demonstrativo desta estreita relação entre as artes avançadas e a revolução no período que antecede a Primeira Guerra Mundial foi o fato de que quando o bolchevismo ensaiou seus primeiros passos como movimento revolucionário radical, Lenin, num famoso ensaio intitulado 'O que fazer?', de 1902, não hesitou em denominar seu partido como sendo a 'vanguarda do proletariado'.

Esta 'afinidade eletiva' é que fez com que inúmeros artistas se manifestassem abertamente como 'socialistas' ou 'anarquistas' (como os pintores Courbet e Pissarro, e tantos outros).

O caso dos surrealistas franceses neste aspecto foi exemplar, sabendo-se que um número significativos deles militou abertamente entre os comunistas nos anos vinte e trinta (os poetas André Breton e Paul Éluard), o mesmo podendo-se dizer dos expressionistas alemães (vistos como 'artistas malditos', simpáticos aos comunistas) e dos futuristas russos (que, pelas mãos e Maiakóvski e Málevitch aderiram em peso á revolução de 1917).

Do apoio ao afastamento
Quando a Revolução Bolchevique ainda não se consolidara na Rússia, o novo regime sob o comando do Narkompros , o comissário da educação e cultura ¿ também chamado de Comissariado do Esclarecimento - Anatoly Lunacharsky ( 1917-1929), convocou os vanguardistas de todos os setores para se expressarem, garantindo a eles ampla liberdade de criação (até os trens militares de Trotski eram profusamente decorados com temas futuristas).

Aceitaram o abrigo do comissariado os artistas Vladmir Tatlin, O.Rozanova, Alexander Rodchenko, Wassily Kandinsky e Málevitch.A situação de lua de mel entre a revolução política e arte arrojada começou a desandar com a estabilização do regime comunista no começo dos anos trinta. Historicamente o afastamento de Lunarcharsky, em 1930, assinalou o fim da aliança entre o bolchevismo e a arte vanguardista.

Apartando-se das vanguardas
Doravante, entendeu a liderança stalinista, não se tratava mais de desrespeitar as regras e os cânones. O comunismo agora alcançara o estatuto da ordem. O trabalho de desmontagem do velho regime czarista já fora concluído. A nova plataforma enfatizava 'a construção do socialismo num só país', e, por conseguinte, a época das experiências radicais e da insubordinação havia passado. A sátira e o deboche das instituições começaram a ser mal vistos.

O regime, a partir do Iº Congresso de Escritores da URSS, realizado em Moscou em 1934, exigiu a mobilização dos artistas e literatos para que se engajassem no desafio de transformar a velha Rússia numa sociedade de engenheiros e operários e não mais de senhores de terras e camponeses ignorantes.

As mensagens, além de terem que ser remetidas em invólucros simples e objetivos, tinha que ser obrigatoriamente 'otimistas', exaltando a tarefa gigantesca em que o partido e o seu líder máximo, ainda que isolado do restante do mundo, se lançava. Desta forma, o escritor foi visto como um tribuno popular, defensor sem disfarces da causa do povo e um obediente seguidor da 'linha do partido'.

Este reposicionamento do estado soviético rumo ao conservadorismo liquidou com a Arte de Vanguarda russa visto ela não se ajustar aos propósitos da política oficialmente determinada. O partido agora exigia ordem e disciplina e não posições iconoclastas ou irreverentes (isto é que explica o destino trágico do suprematista Málevitch, preso e torturado, morto na extrema pobreza, em 1935).

Nesta reformulação, a categoria do Realismo tornou-se a 'categoria central da crítica literária e artística em geral'.

A crítica de Lukács à vanguarda ¿ particularmente à sua face literária - pertence inteiramente a este período: a fase em que o marxismo tornou-se doutrina oficial do estado soviético e não mais o combustível teórico da revolução social. (*).

Momento este que combinou com a época em que o pensador igualmente abandonava seu passado utópico, entrando para a etapa que Miguel Vedda denominou de 'Lukács tardio'.

(*) Imensamente erudito, os estudos estéticos de Lukács concentraram-se nas letras, não na música, artes plásticas ou arquitetura.

Exaltação do realismo
Como o Iº Congresso de Escritores soviéticos acatara, a linha das publicações obedeceria às exigências do Realismo Socialista. Tudo devia ser exposto numa prosa e uma poesia simples com um comprometimento ideológico sincronizado com os objetivos do regime stalinista. Evidentemente que ninguém naquele momento cogitou que tal decisão comprometeria a obra de arte fazendo dela um mero panfleto político a serviço do estado soviético, quando não tornando o romance um prolongamento das diretivas do partido.

Tal ênfase no 'realismo' fez com que o marxista Lukács, que era um dos maiores eruditos da literatura européia do século XIX, paradoxalmente, viesse a celebrar o romance burguês (Balzac, Stendhal, Flaubert, Heinrich e Thomas Mann, Gottfried Keller, Tolstoi, Romain Rolland, etc..) como a melhor fonte na qual os escritores socialistas deveriam beber. Se bem que a enriquecessem com a perspectiva revolucionária ou crítica. Preocupando-se em dar um escopo histórico social à estética contribuiu para o enquadramento das artes à vontade da direção central partidária.

Desde os começos de 1930, refugiado em Moscou, ele, que era húngaro de nascimento, mas de formação filosófica e cultural alemã, se integrara aos quadros do Instituto Marx-Engels empenhando-se como um ideólogo da ortodoxia do regime, emprestando seu estudo e vasto conhecimento à solidificação da linha adotada em 1934, entronando, contraditoriamente, o Realismo do passado como a bússola da literatura soviética do presente. Denominou sua tese como 'realismo revolucionário'.

Não somente a literatura burguesa - fundamentalmente o romance oitocentista - lhe parecia como o melhor modelo como também o 'romance histórico', particularmente os de Walter Scott e de J. Fenimor Cooper. Eles serviam perfeitamente como lição a todo jovem literato engajado com intento de se comunicar com as massas.

Viu naquele gênero uma maneira democrática e acessível de ensinar história às multidões. Por tanto, o Realismo (na arte ou na literatura) afirmou-se como o compromisso primeiro e inquestionável do artista politizado.

Fonte: Especial para Terra
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