Lincoln: a marcha da morte do general Sherman
15 jan
2013
- 14h54
(atualizado às 15h07)
Exibir comentários
Uma das maiores máculas da Guerra de Secessão americana (1861-65) foi a campanha de devastação realizada pelo general William Tecumseh Sherman contra os estados rebelados do Sul. Arrasando preferencialmente os campos, as fazendas, as fábricas, as ferrovias, as cidades dos confederados, encurtou a guerra, mas encheu os americanos de pavor: “A mais monstruosamente bárbara das marchas dos bárbaros”.
Garantindo a reeleição
Sherman com sua estratégia, somando rapidez à impiedade, para o historiador militar B.H.Liddel Hart, colocou-se como o “primeiro general moderno”, um dos fundadores da guerra total.
“Atlanta é nossa, e honestamente vencida”. Foram umas poucas palavras telegrafadas pelo general Sherman à Casa Branca, em setembro 1864, vindas diretamente do coração da Geórgia recém ocupada, quem garantiram a reeleição do presidente Abraão Lincoln. A campanha relâmpago que ele realizou sobre o território dos rebeldes estava estreitamente vinculada aos desejos do chefe nortista de continuar a guerra até o fim, até a rendição completa dos sulistas que se insurgiram contra a União em 1861.
Lincoln temia acima de tudo perder a eleição e assim, por meio da ascensão de um sucessor rival, abrir caminho para algum tipo de paz negociada ou um armistício que culminaria com a efetiva separação do país em duas partes.E isso se devia, entre outras coisas, ao cansaço geral da nação americana com o andamento da guerra, apesar da vitória dos nortistas na batalha de Gettysburg (na Pensilvânia) e na de Vicksburg (no Mississipi), ambas obtidas em 3 e 4 de julho de 1863, respectivamente.
Se isso ocorresse, todos os sofrimentos passados nas trincheiras e nas manobras forçadas, todo aquele sangue derramado pelos 300 mil mortos nortistas durante três anos seguidos teria sido em vão. A União estaria desfeita para sempre e os Estados Unidos rachado em dois. Poucas vezes na história da América um general salvou um presidente como Sherman, mais do que Ulisses Grant, fez com Lincoln.
Com a notícia da ocupação de Atlanta, situada nas profundezas do solo inimigo, os ianques sentiram finalmente que a guerra poderia vir a ser ganha, que era uma questão de alguns meses há mais, e votaram em massa no “velho Abe” (Lincoln recebeu 2.218,388 votos em 8 de novembro de 1864, ou 55% do total).
A franqueza de Sherman
O general William T. Sherman, nascido em Lancaster, Ohio em 1820, filho da elite local, graduado em West Point, era um homem duro e muito franco. Os seus cabelos avermelhados davam a cor do seu temperamento. Sintonizava com Abraão Lincoln em mover batalhas sem tréguas contra os confederados acompanhada de uma paz conciliadora quando eles por fim capitulassem. Ainda jovem, estivera na Califórnia como oficial a serviço do governador, chegando até a entrar no ramo bancário quando foi vizinho de Ulysses Grant, mas depois a guerra civil o arrastou para o meio da voragem. Em carta ao Secretário da Guerra ele voluntariamente se comissionou para lutar por três anos, tal ódio devotou aos separatistas e ao povo do Sul em geral.
Quando o prefeito de Atlanta ocupada implorou para que não expulsasse a população da cidade, a qual desejava por fogo, respondeu-lhe que as coisas eram assim mesmo: “guerra era crueldade e nada poderia refinar isso”, e não esperasse mercê enquanto os rebeldes não fossem batidos. Todos, pobres ou ricos, os homens e as mulheres do sul teriam que sentir o “braço duro da guerra”.
Não só isso, tinham que se submeter àqueles horrores todos para nunca mais sequer pensar no futuro vir a pegar em armas ou apoiar um levante sequer. Senão fosse assim, argumentou ele em carta ao prefeito Calhoun (datada de 12 de setembro de 1864), os Estados Unidos poderiam ter o triste destino do México (naquele momento, dividido internamente, encontrava-se ocupado por tropas franceses em apoio ao imperador Maximiliano, um monarca estrangeiro). Esse seu arrazoado fico resumido ao famoso dito a ele atribuído: War is Hell! “Guerra é um inferno!”
A impiedade dele visava longe. Agia como uma brasa comprimida sobre uma ferida para que ela, cicatrizada, jamais voltasse a abrir.
Antecedentes da Marcha de Sherman
Dera-se depois de dois anos de guerra civil um fenômeno curioso e raro. O Norte conseguira duas vitórias memoráveis no ano de 1863, invertendo a maré dos desastres iniciais. No fronte Leste, o general George Meade havia detido e batido o general Robert Lee na batalha de Gettysburg (1 a 3 de julho de 1863) que tentava a invasão da Pensilvânia, para dali assaltar Washington, enquanto que no fronte Oeste, o general Ulysses Grant, tomava de assalto a fortaleza de Vicksburg no Mississipi (que capitulou no dia 4 de julho, um dia depois de Gettysburg), ferindo as comunicações do Sul.
Todavia, a gente do Norte estava manifestando graves sintomas de exaustão. O mais radical deles, verdadeiramente alarmante, deu-se com a rebelião da população de Nova York, particularmente a de origem irlandesa, que em grande parte se amotinou contra o serviço militar e contra o que eles denominaram de “a guerra dos negros”.
O chamado Civil War Draft Riots que eclodiu no dia 13 de julho de 1863, apenas dez dias depois da vitória de Gettysburg, foi esmagado por regimentos tirados diretamente da frente de batalha.
Desde então a ideia de fazer algum tipo de acordo com os confederados começou a tomar corpo. Parecia que as duas vitórias de nada tinham servido. Embaraço que fez com que Lincoln começasse a pressionar seus generais para dar-lhe uma outra boa notícia, acelerando a capitulação dos rebeldes.
A campanha de Atlanta
Como George Meade mostrou-se inepto em perseguir Robert Lee depois de Gettysburg, os olhos de Lincoln voltaram-se para Ulysses Grant, que apresentara notável ousadia estratégica na submissão do estado do Mississipi. O presidente então o chamou para o comando supremo dos exércitos da União. Com isso o braço-direito de Grant no oeste, o major-general William T. Sherman, assumiu o Exercito do Tennesse, e, em seguida, o Supremo Comando do Oeste com 98 mil homens e 250 canhões.
Terminado o longo inverno de 1863-64, em 4 de maio de 1864 ele ordenou que os clarins de ataque voltassem a soar. Tinha inicio a famosa campanha de Atlanta, operação militar que partindo de Chatanooga, no Tennesse, evitando grandes batalhas, tinha por meta atacar o celeiro do Sul e faze-lo sangrar como nunca. Então, como disseram, “o Diabo resolveu descer na Geórgia”
Quatro meses depois, em 1º de setembro, a capital do estado foi conquistada e transformada num acampamento em armas. O primeiro passo para uma ampla manobra vinda do Oeste de cercar o exército confederado de Robert Lee, cuja maior parte estava concentrado no estado da Virginia, atacando-o a partir da retaguarda, fora dado.
Sherman, todavia, queria fazer de Atlanta um exemplo dos extremos a que ele recorreria para submeter a Confederação. Decidiu queimar a cidade depois que os civis fossem dela removidos. Em 14 de novembro de 1864, um enorme clarão de fogo se espalhou então pelo horizonte anunciando que a América do Norte tinha também o seu Átila.
O destino de Napoleão
Ainda que horrorizado com o destino imposto à capital da Geórgia, Jefferson Davis, o presidente dos Estados Confederados. tentou levantar o ânimo da população. Comparou a situação do Sul com a da Rússia invadida por Napoleão em 1812. A triste retirada do exército imperial francês estava, pois para se repetir. Sherman, como Napoleão, seria batido. A cavalaria confederada unida ao povo inteiro, enfatizou ele, atuaria como os cossacos fizeram contra as retaguardas francesas naquela ocasião, fustigando os invasores até que eles se retirassem totalmente derrotados.
O general ianque, garantiu Davis, teria o mesmo destino do Corso, escapando apenas com sua guarda pessoal. Iria ser empurrando para bem longe, para as barrancas do rio Ohio. Isso traria ao partido nortista pró-paz um impulso que nenhum editorial conseguiria.
Consta que quando o general Grant leu esse discurso comentou: “E quem fornecerá a neve para essa retirada de Moscou?” (James M. McPherson – Battle cry of Freedom, pag. 808). Não só neve faltava ao Sul, mas também não havia entre eles um general ardiloso como Kutuzov, nem a milícia dos caipiras da Geórgia ou das Carolinas era composta por cossacos.
As razões da marcha do mar
Do mesmo modo que a cidade de Chatanooga, no Mississipi, servira como trampolim para Sherman marchar para Atlanta, esta agora iria se prestar como a base do impulso para um novo salto. Desta feita em direção ao mar, tendo como objetivo a tomada de Savannah, porto atlântico e antiga sede colonial do estado.
Escrevendo a Grant ele expôs que a manobra cortaria a Confederação em duas partes e poria em risco a retaguarda do general Robert Lee, exposta ao reide da cavalaria ianque. “Mostraríamos ao mundo”, seguiu ele, “que podemos marchar com um exército bem equipado diretamente para dentro do território de Jefferson Davis, numa demonstração para o mundo, externo e doméstico, que nós temos um poder que ele não tem como resistir”... “eu posso fazer a marcha e fazer a Geórgia gemer!”
Os ganhos maiores seriam os psicológicos. Nada perturba mais um soldado na frente de guerra do que vir a saber que o seu lar, sua mulher, seus filhos e seus bens estão expostos à sanha do inimigo lá longe na sua terra distante. Isso o faz inseguro e se sentindo culpado por não estar na soleira da cabana, protegendo a prole, espantando os danados com seu rifle.
O efeito é terrível. Acelera a deserção justificada e desmoraliza o comando geral por ser impotente em por um fim naquilo. A intenção dele expressa em correspondência dizia: "O simples fato de que o lar deles ter sido visitado pelo inimigo”, registrou ele, “fará com que os soldados de Lee ou de Johnston fiquem muito ansiosos para voltar para casa.”
Uns tempos depois, em fevereiro de 1865, o general Lee constatava a contragosto a “epidemia de deserções” que se abateu sobre as fileiras dos confederados, atacados pela “depressão e o desamparo”, resultante da marcha de Sherman. “Centenas fugiam a cada noite” para alcançarem suas casas a fim de defenderem o que restava delas.
Em direção a Savannah
No dia 14 de novembro de 1864, duas colunas da cavalaria nortista partiram das proximidades de Atlanta, ainda em chamas, em direção ao mar. Uma delas, a da ala esquerda, era comandada pelo general Henry Slocum, a outra, a da direita, pelo general Oliver Howard, cada um com 12 mil soldados, com a tarefa de arrasar tudo o que vissem pela frente. A ordem dele talvez espelhasse inconscientemente o nome de batismo que lhe deram, Tecumseh, “a pantera do céu” (era um shawnee de Ohio, tido como profeta nativo que movera uma guerra bárbara contra os brancos em 1812), como também foi “democrática”, pois a tropa incinerou tanto as pequenas e médias propriedades da gente miúda como as famosas herdades de estilo neoclássico dos grandes proprietários de escravos do Sul (como se deu ficcionalmente com a fazenda “Tara” no famoso filme “E o vento levou” de 1939).
Sherman determinou que seus homens conseguissem a forragem pelo caminho para não perderem tempo com as bagagens e a lentidão das carroças de mantimento. Para tanto, lançaram mão dos bummers, apelidados “os vadios de Sherman”, que atacavam os sítios e as fazendas em reduzidos bandos como se fossem uma alcatéia de lobos famintos, levando tudo o que podiam e tocando fogo no que restava.
Até alcançarem a periferia de Savannah, 460 km distante e 35 dias depois, nas vésperas do natal de 1864, fazendo uma média de 19 a 24 km/ por dia, tudo foi devastado pelos ianques. A guarnição do porto, uns 10 mil confederados, decidiu abandonar a cidade sem dar combate. O pavor de cair nas mãos do general nortista chegara até eles. Acatavam assim ao aviso que as vanguardas dele gostavam de dar: “somos os homens de Bill Sherman, é bom vocês irem embora”.
Com isso consagrou um dos seus propósitos: “Meu intento então era chicotear os rebeldes, rebaixar o orgulho deles, perseguí-los até o mais fundo dos seus recessos, e fazer eles terem medo e terror de nós” (in “Memórias do general Sherman”)
Num telegrama a Lincoln, Sherman escreveu que a tomada de Savannah era um “Christmas gift, um “presente de Natal” ao presidente, informando-lhe a captura da cidade, de 150 canhões pesados e mais 25 mil fardos de algodão.
A campanha da Carolina do Sul
Feito isso, abastecido por mar pelas cargas nortistas, Sherman após um mês de descanso voltou-se para o norte para assediar as Carolinas (do sul e do norte). A marcha recomeçou a 1º de fevereiro de 1865 para, segundo ele, “saciar o desejo de vingança contra a Carolina do Sul”, estado “covarde e traidor” que para os seus soldados “era o buraco do inferno da secessão”.(*)
Columbia, a sua capital, era seu objetivo (Liddel Hart exalta o fato de que o general ianque, naquela marcha épica, nunca deixou transparecer qual seria o seu verdadeiro alvo, provocando grande confusão nas fileiras confederadas que tentavam criar obstáculos à ofensiva dele).
Com a travessia do rio Salkahatchie começava o martírio da Carolina do Sul, que suportou o avanço de mais de 60 mil homens de Sherman e, pior, dos seus bummers, que acompanhavam as colunas assaltando as propriedades como se fossem nuvens de gafanhotos predadores (até os dias de hoje, transcorridos mais de 140 anos da invasão da Carolina do Sul, ainda se encontram as cicatrizes deixadas pela passagem dos ianques).
Ainda que no inverno, com parte do terreno formado por pântanos submetidos a aguaceiros intensos, precisando transpor nove rios, nada os deteve. Façanha que arrancou admiração do seu adversário, pois o general Johnston, que lhe dava combate, afirmou que somente as legiões de César conseguiam aquele tipo de feito.
Deu-se então a vez de Columbia arder. Evacuada no dia 17 de fevereiro de 1865 pelo general confederado Hampton que não resistiu, uma multidão de escravos negros, prisioneiros libertos, misturados às tropas ianques que chegavam, encharcados com uísque, tomou conta das ruas. Prendendo fogo em fardos de algodão deixados ao acaso, depois de pilharem o que havia, terminaram por jogar tochas acesas nas casas e nos prédios públicos. Tudo de madeira, tudo ardeu.
O espetáculo chocou um oficial nortista Thomas Osborn, um artilheiro que testemunhou o holocausto da capital sulista. Um local que chegara a abrigar 20 ou 30 mil habitantes reduziu-se às cinzas em questão de horas. Os prisioneiros capturados estavam em estado deplorável. A maioria dos milicianos que se renderam aos ianques era formada por gente idosa, “de cabelos brancos”, assegurou ele, ou de rapazolas imberbes e maltrapilhos que mal tinham força para carregar um mosquete (ver Thomas Osborn - The Fiery Trail, p. 128). Era enfim um retrato vivo da agonia dos confederados.
Sherman chegou a comentar os acontecimentos que se passavam dizendo “todo exército está queimando tomado pela insaciável vingança contra a Carolina do Sul. Eu a todo momento tremo pelo seu destino, mas sinto que ela merece tudo o que lhe foi reservado”(James M.McPherson – The Battle cry of Freedom, p. 826)
(*) O começo da guerra civil dera-se quando os confederados atacaram de surpresa o Forte Sumter, situado na Carolina do Sul, em 12 de abril de 1861, em protesto contra a posse de Abraão Lincoln na presidência dos Estados Unidos.
A etapa final da marcha
Quando Sherman retomou o roteiro da devastação, rumando para Fayetteville, na Carolina do Norte, ocupada em 11 de março de 1865, deixou para trás 66 dias de inferno.
A Carolina do Norte, ao contrário da sua gêmea, recebeu tratamento melhor. Uma ordem do general Slocum determinava que os praças e oficiais não considerassem a população civil local como inimiga, visto que aquele estado foi o último a aderir à secessão e que antes da guerra abrigava um forte partido pró-união, determinando portanto que não promovessem a destruição desnecessária das propriedades nem maus tratos contra os seus habitantes.
Ainda assim não salvou Fayetteville de ser submetida da pilhagem, sendo que quadra por quadra da cidade foi entregue à sanha da soldadesca ianque. Como registrou uma senhora sobrevivente, “eles mataram as galinhas, os gansos, os perus, as vacas, os bezerros e qualquer outra coisa viva, inclusive nosso cão de estimação” (citado por Tony L. Crumbley - General Sherman's March Across North Carolina). Foi uma espécie de fecho final da barbárie cometida contra os confederados. A retaguarda de Lee finalmente estava exposta. Premido por Grant ao norte e por Sherman ao sul a Confederação por fim capitulou depois de quatro anos de luta.
No dia 26 de abril, em Durham, na Carolina do Norte, o general confederado Johnston rendeu-se ao general Sherman, encerrando-se assim a campanha das Carolinas, simultaneamente ao fim da guerra da secessão, que já havia sido acertada pela da Paz de Appomatox entre o general Robert Lee e o general Ulyssses Grant, assinada na Casa da Corte daquela cidade da Virginia, no dia 9 de abril daquele mesmo ano.
A marcha que se estendeu por mais de mil quilômetros, superara todos os obstáculos a que cavalaria sulista do general John Wheeler e os milicianos locais se lhe antepuseram.
É difícil calcular os prejuízos causados pelo vandalismo propositado dos ianques, pelo incêndio das cidades pelas quais as colunas de Sherman passaram , pelos inúmeros deslocamentos da população civil forçada à fuga em massa, pela dizimação do gado e outros animais domésticos, pelo estrago das colheitas, somados ao implacável tratamento dado aos prisioneiros quando eram capturados em número pequeno.
Casos de fuzilamentos sumários e mesmo de degolas e mutilações eram comuns, além dos estupros e assassinatos, sem deixar-se de mencionar as terras desoladas e moradias e celeiros queimados que ficaram para trás nos seus deslocamentos em direção a Savannah e depois às Carolinas.
Um general moderno
Para Lidddel Hart, os famosos líderes das divisões blindadas alemãs da Segunda Guerra Mundial, como os generais Guderian e Rommel, se abeberaram nos ensinamentos de Sherman, estrategista que privilegiou o movimento e não a cautela, o avanço constante, ininterrupto, e não a ocupação do terreno.
Antecipou a todos porque ampliou o leque dos inimigos colocando a população civil como alvo e não somente as formações militares do inimigo, travando contra ela um escancarado vandalismo e uma operação de terror com fins de atingir o moral da tropa adversária. O efeito psicológico disso era tão eficaz quanto uma barragem de artilharia ou uma carga de cavalaria.
Assediou as famílias para desmoralizar o pai, o marido ou o filho confederado que lutavam distantes, bem longe de casa. Abertamente valeu-se do terror para quebrar o espírito de resistência e o orgulho dos sulistas. Sempre que possível evitou o enfrentamento direto para poupar seus homens, escolhendo uma saída que evitasse mais baixas do seu lado sem com isso atrapalhar o destino e a rapidez da marcha.
Quanto aos seus temidos forrageadores, os brummers, eles os viu como um poder de pressão sobre os inimigos e não hesitou em usá-los. Para a gente do Sul ele foi “o primeiro general terrorista”, “um açougueiro”, um general dos mudsills ( expressão pejorativa que significava “ os debaixo”), um graduado que não abdica as regras cavalheirescas. Um bruto, enfim.
Como sempre ocorre em torno de personagens como Sherman, um historiador de Ohio, do mesmo estado do general, Mark Grimsley (in The Hard Hand of War, 1997) procurou atenuar a violência da campanha contra o Sul, assegurando que ele travou uma “ guerra dura” mas não uma “ guerra total” contra os confederados, e que em momento algum se desviou dos alvos militares, assediando a população civil apenas como parte da guerra psicológica movida contra os rebeldes. Ele não era um monstro, sim um estrategista metódico que procurou quebrar a espinha da resistência dos inimigos da União.
Nas Memórias dele, aparecidas somente em 1875, dez anos depois da derrota do Sul, não demonstrou nenhum arrependimento com o estrago que promoveu com sua bem sucedida investida. Para ele ela abreviou a tragédia.
Sherman nunca foi um entusiasta da guerra em si, tanto assim que registrou: “Eu confesso sem nenhuma vergonha que eu estou doente e cansado de lutar – a glória é um brilho de luar: mesmo o sucesso o mais brilhante é obtido sobre uma massa de corpos, acompanhado da angústia e lamentação das famílias distantes, apelando para mim atrás dos seus filhos, maridos e pais...somente aqueles que nunca ouviram um tiro, nunca escutaram os gritos e gemidos dos feridos e dos mutilados...é que gritam alto querendo mais sangue, mais vingança, mais desolação.” (citado por Liddel Hart)
Fonte: Terra