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Irã: A terra dos Aiatolás mete medo no mundo faz tempo

Kish Island, Mahsa Amini, Kiarostami e Persépolis...

22 mai 2024 - 05h45
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Resumo
O texto narra a história do Irã ao longo dos anos, desde sua luta pela liberdade e direitos das mulheres, as particularidades de sua cultura, história e língua, além de discutir os principais acontecimentos, tais como a Revolução Islâmica e o filme 'Onde Fica a Casa do Meu Amigo?' de Abbas Kiarostami e o livro 'Persépolis' de Marjane Satrapi.
Abbas Kiarostami (1987)
Abbas Kiarostami (1987)
Foto: Arte

Salve, salve!!! Salve-se quem puder.

Fruto de uma bem sucedida campanha de marketing dos americanos pra pintar o Irã como um vilão e ameaça ao mundo ocidental, a Terra dos Aiatolás mete medo no mundo faz tempo.

Tive um colega de Doutorado iraniano. Era uma moça de tão calmo, elegante e educado. Mr. Reza terminou sua tese em Ciências dos Materiais e se mandou de volta pra terrinha. Hoje é professor numa universidade no sul do país e vive feliz, apesar da imagem negativa que criam de seu país desde sempre.

A playlist “Top 50 Persian Songs” é um mergulho cultural neste mundo tão distante de nós. Nivad, Masih, Hossein Gorjifar, Yasin Torki e Erfan Tahmasebi vão pegar na sua mão e te levar pelo bom caminho da música persa moderna.

Prepare o chá, a shisha com essência de maçã e uns pistaches pra curtir um som diferente.

Kish Island: Tapete persa não voa

Em 2016 estive no Irã numa conferência a trabalho. As conexões eram péssimas e meu voo saia de Viena pouco após a meia noite chegando no meio da madrugada em Teerã. Do aeroporto internacional peguei um táxi e cruzei a cidade à noite rumo ao aeroporto doméstico, do outro lado da cidade, pois meu avião partiria logo cedo rumo ao sul.

Pra minha surpresa, muita gente ainda estava na rua. Carros, motos, ônibus, pessoas, locais abertos. Não era como no Cairo, mas havia um bom movimento.

Chegando no acanhado aeroporto local já com o dia raiando fiz o check-in, peguei um chá e segui rumo ao portão de embarque. A cia aérea dona do Airbus A-310, o avião mais cacareco que já voei na Vida, era a Zagros Airlines. Depois vim a saber que Zagros é o nome de uma cadeia de montanhas a oeste do país. Durante o voo pude vê-las da janela do avião. Dominavam uma área desértica e ocre com seus cumes pontiagudos de cor marrom escura.

O tecido puído dos assentos, a sujeira das janelas e encostos dos braços além da luz opaca vinda da luzinha de bordo me deram quase certeza de estar num avião fantasma rumo ao nada. Se chegasse vivo nas Ilhas Kish, onde seria o congresso, já me daria por satisfeito. Prometi a mim mesmo que assim que a aeronave tocasse o asfalto da pista uma nova fase da minha Vida se iniciaria.

Pra minha surpresa o vôo de duas horas e meia foi suave e sem uma mísera turbulência sequer. No serviço de bordo enchi a cara de chá enquanto observava aquela vastidão de terras persas tão importantes no passado e pintadas de diabólicas no presente.

As ilhas Kish são como Dubai fora nos anos 70. Tentava a época, e ainda tenta, atrair investimentos para construção de complexos hoteleiros e resorts devido à proximidade com os Emirados que ficam logo mais ao sul bastando cruzar o Golfo Pérsico. Mas no Irã a cultura e a orientação política e religiosa são outras. As tolerâncias idem, reflexo da teocracia controlada com mão de ferro pelos aiatolás.

Comida boa, povo cordial e hospitaleiro, segurança por todo lado, sol, restaurantes enormes e suntuosos de um luxo decadente e baranguice desconcertante, assim são as Ilhas Kish.

Soube lá que os pistaches iranianos estão entre os melhores do mundo. Na volta, já no vazio aeroporto de Teerã no meio da madrugada, pude ver as várias lojinhas vendendo a preciosa iguaria.

Prince of Persia

Se você tem mais de 40 anos, com certeza se lembra desse joguinho de computador. Ainda com monitor em fósforo verde, o objetivo final era passar pelo temido vizir e vencer, ou zerar, o jogo. Eu consegui algumas vezes, e você?

Até 1935 o Irã era conhecido como Pérsia. Foram um dos grandes impérios da Antiguidade, legado percebido até os dias de hoje na moderna sociedade iraniana. O país usa sua própria língua e no século XVI adotou a interpretação xiita do islã.

O termo "Iran" significa “terra dos arianos” e é derivado de Aryanam, forma encontrada em textos persas antigos.

Uma grande potência regional muçulmana xiita cercada de países sunitas, o país se tornou uma república islâmica em 1979 após a queda da monarquia numa grande revolução. Iniciou-se uma teocracia com os clérigos assumindo o controle político sob a então liderança do aiatolá Khomeini.

Essa Revolução Iraniana acabou com o regime do xá Reza Pahlevi, o mandatário que havia sido alçado ao poder gracas ao apoio dos EUA, sempre eles. O Xá Reza tinha alienado as poderosas forças religiosas, políticas e populares numa tentativa de modernizar e ocidentalizar o país. Desceu o cacete em quem era contra, reprimindo com violência qualquer opinião contrária. A polícia secreta SAVAK era o braço direito do Xá e tentava controlar a oposição.

A teocracia do atual líder supremo, o Aiatolá Khamenei de 85 anos cujo cargo é vitalício, controla a mídia de rádio e TV com mão de ferro. Influência e poder sobre a população ocorrem através desse mecanismo refletindo a ideologia oficial do regime islâmico. Entretanto, nos jornais e na internet ainda se encontra uma certa liberdade de opiniões.

Hijab

Até hoje, em pleno 2024, o Irã tenta abafar mais uma tentativa de ocidentalização. Tudo começou em 16/09/2022 quando a jovem Mahsa Amini de 22 anos morreu em Teerã enquanto estava sob custódia policial. Seu crime foi nao usar um hijab, o véu islâmico obrigatório que cobre o cabelo das mulheres.

Mahsa foi presa pela Patrulha de Orientação, uma espécie de polícia da moral e dos bons costumes iranianos. Pra piorar ela era curda, um dos grupos étnicos minoritários mais oprimidos no país.

Após a morte de Mahsa, a fúria dos protestos da população contra a repressão às mulheres chegou a 31 províncias do país marcando um momento histórico. Muita gente foi às ruas protestar contra o uso obrigatório do hijab e denunciar o aiatolá Khamenei e a brutalidade de seu regime contra as mulheres.

Até Setembro de 2023, 551 manifestantes foram mortos, incluindo 56 jovens menores de 18 anos, numa reação violenta e sem precedentes da teocracia xiita que influencia fortemente o Oriente Médio.

O comandante dessa carnificina é o Presidente ultra conservador Ebrahim Raisi que acaba de morrer num acidente de helicóptero. Não à toa, foguetes foram ouvidos no país em comemoração.

A demanda por mudanças radicais no Irã é cada vez mais forte e significativa. O desejo de liberdade das mulheres é crescente e pode ser que consigam finalmente sensibilizar a opinião pública internacional com uma possível mudança de comportamento na Presidência

Pra ver e ler

FILME: Onde Fica a Casa do Meu Amigo? – Abbas Kiarostami (1987). A beleza da amizade na primeira infância.

A cultura iraniana moderna é rica e reconhecida no mundo todo, em especial no cinema. Cineastas como Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf, Samira Makhmalbaf e Jafar Panahi levaram os filmes do Irã mundo afora tornando-os internacionalmente respeitados. O diretor iraniano Asghar Farhadi recebeu duas vezes o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Este filme de 1987 catapultou a carreira de Kiarostami em nível internacional. Conta a história de um menino de 8 anos do vilarejo de Koker que foge de casa após desobedecer a mãe para procurar um companheiro de turma na aldeia vizinha. Ele queria apenas devolver um caderno pego por engano que causara problemas ao amigo.

A inocência e a amizade pura da infância é retratada de forma simples e bela.

Kiarostami nasceu em Teerã em 1940 e morreu no dia 4 de julho de 2016 em Paris. Fez de tudo um pouco: foi roteirista, produtor, cineasta, fotógrafo, artista plástico e poeta. Nunca saiu de sua terra natal para criar seus roteiros e fazer seus filmes, mesmo com os pobres recursos de produção disponíveis e de todas as dificuldades e restrições devido à teocracia absolutista dos regimes políticos e religiosos. 

Foi sem dúvida o maior divulgador do sensível e essencial cinema iraniano.

LIVRO: Persépolis – Marjane Satrapi (2007). Aos 9 anos com uma guerra no quintal.

Persépolis é a comovente história de uma jovem iraniana durante a Revolução Islâmica. É através dos olhos da precoce Marjane de nove anos por onde vemos as esperanças de um povo frustradas à medida que os fundamentalistas tomam o poder forçando o uso do véu às mulheres e prendendo milhares de pessoas.

Inteligente e destemida, ela supera os “guardiões sociais” e descobre o punk, o ABBA e o Iron Maiden. No entanto, quando o seu tio é executado sem sentido enquanto bombas caem em Teerã durante a guerra Irã x Iraque, o medo diário que permeia a vida no país é palpável.

A animação foi baseada na história em quadrinhos da própria Satrapi sobre sua vida no Irã pré e pós-revolucionário e depois na Europa. O filme traça o crescimento de Marjane desde criança até a adolescente rebelde e amante do punk em seu país. Como pano de fundo estão as crescentes tensões do clima político nas décadas de 70 e 80, com membros da sua família de tendência liberal detidos e depois executados, e a desastrosa guerra contra o Iraque.

Persépolis é o nome da antiga capital do império persa da dinastia Aquemênida.

(*) Pedro Silva é engenheiro mecânico, PhD em Materiais, vive em Viena na Áustria, queria muito conhecer Isfahan antes da queda do helicóptero do Presidente assassinos sanguinário, e escreve semanalmente a newsletter Alea Jacta Est.

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