Hogendorp, um general de Napoleão no Brasil

22 fev 2017
09h00
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Quem encontrou o general Dirk von Hogendorp no Brasil nos tempos primeiros do país pré-independente foi a famosa escritora inglesa Maria Graham, que desde 1823 tornara-se preceptora da princesa D. Maria da Glória filha de D.Pedro I. Em seus passeios pelos arredores do Rio de Janeiro se deparou casualmente aquele misterioso holandês. Descreveu-o como um tipo bizarro que morava num sitio no sopé do morro do Corcovado, o da Nova Sião, cercado em suas paredes por imagens estranhas pintadas sobre um fundo preto.

General Hogendorp (1761-1822)
General Hogendorp (1761-1822)
Foto: Divulgação

No passado, quando a serviço de uma companhia holandesa, ele fora famoso em outras épocas como um humanitário reformador abraçando a causa anticolonialista.

Retirou-se da Niederländische Ostindien-Kompanie (Companhia Holandesa das Índias Orientais) horrorizado com os maus tratos infringidos aos nativos pelos agentes da empresa sobre os quais ele não tinha nenhuma ingerência. Tornou-se um idealista e retornando à Europa viu em Napoleão Bonaparte, a quem serviu como ajudante de campo,  o único estadista que de alguma forma poria fim naquilo, primeiro na Europa e depois, com seu exemplo no resto do mundo. A derrota do imperador em Waterloo, em 1815, da qual ele participou, pôs fim às suas esperanças.

Prometeu no exílio-prisão de Santa Helena.
Prometeu no exílio-prisão de Santa Helena.
Foto: Divulgação

Entrementes, enquanto Napoleão se encontrava exilado na Ilha de Santa Helena desde 1815, desterrado de tudo, comparado por Lord Byron ao mitológico Prometeu preso a uma rocha (The Age of Bronze, Canto V), o seu irmão José Bonaparte conseguira transladar parte da fortuna da familia para os Estados Unidos. Lá não só tratou de amparar financeiramentre os bonapartistas que se abrigaram no Novo Mundo como estimulou a que um grupo de ex-oficiais se concentrassem na possibilidade de libertar a soberana águia do seu cativeiro no Atlântico Sul. Chegou a sondar a contratação de um corsário que ao preço de 100 mil duros assumiria a missão de resgatar o irmão.( para tanto ver  Emilio Ocampo – “La ultima campaña del imperador Napoleon y la independencia de America“).

Napoleão e os libertadores

Ainda que Napoleão repudiasse um projeto de fuga que lhe foi apresentado por Las Cases – abalaria sua imagem imperial e de heróico exilado martirizado pela contra-revolução dos príncipes europeus – não lhe foi estranha a possibilidade de formar um assentamento bonapartista no Novo Mundo. Seus familiares, por sua vez, basicamente José e Luciano, chegaram a esboçar um audacioso plano para vir a formar um Império Bonapartista nas Américas. Certamente a presença de Napoleão, libertado das rochas da ilha maldita, serviria como catalizador, atraindo gente talentosa e idealista de todos os cantos para vir ressucitar o poder dele num outro cenário geográfico que não o europeu. Um enviado dos bonapartistas chegou a viajar ao Brasil na esperança que a Revolução antiabsolutista Pernambucana de 1817 servisse de amparo ao projeto de resgatar o imperador. Detiveram-no no Rio de Janeiro e o enviaram cativo para Lisboa.

O grande exilado veio a falecer em 1821 colocando um ponto final naquelas expectativas quiméricas de José e dos seus próximos. A semente do bonapartismo entrementes frutificou. Não foram, todavia, os exilados franceses quem se encarregaram da independência das colonias espanholas e portuguesas,

Oficiais que até então serviam à Coroa de Madri assumiram a função de Libertadores (Bolivar, San Martin, Sucre, Santander, O`Higgins, Artigas, e tantos outros mais). É certo que eles, particularmente Bolívar,  inspiraram-se na bravura e na legenda de Bonaparte seguindo-lhe o caminho. Foram mais bem sucedidos que o herói. Napoleão, ainda que a abalasse profundamente,  não conseguiu derrubar a Velha Ordem da Europa. Os libertadores, ao contrário, destruiram para sempre as estruturas de dominação dos Impérios Ibéricos que já se estendiam por três séculos.

O sítio de Nova Sion, ultima morada do general Hogendorp (1820)
O sítio de Nova Sion, ultima morada do general Hogendorp (1820)
Foto: Divulgação

Hogendorp que certamente estava envolvido nos planos para libertar Napoleão, desmobilizou-se com o falecimento do corso vindo a falecer no Rio de Janeiro em outubro de 1822. Não se sabe se tomou ciência da declaração de independencia do Brasil feita por D. Pedro I, mas é bem provável que sua morte resultou ao saber do desparecimento do seu ídolo um ano antes.

O sítio de Nova Sion, ultima morada do general Hogendorp (1820)
O sítio de Nova Sion, ultima morada do general Hogendorp (1820)
Foto: Divulgação

- Graham, Maria Dundas. Diário de uma viagem ao Brasil e de uma estada nesse país durante parte dos anos 1821, 1822, 1823. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1956

- Hogendorp, Dirk von –  Mémoires du général Dirk von Hogendorp.Haia: 1881

- Mota, Carlos Guilherme – Nordeste, 1817: Estrutura e Argumentos. São Paulo: Perspectiva e EDUSP, 1972.

- Ocampo, Emilio – La última campana del emperador Napoleón : la independência de América. Buenos Aires; Claridad, 2007.

Fonte: Especial para Terra

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