Desemprego, o paraíso perigoso

20 ago 2018
12h38
atualizado às 12h46
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                            “a consciência que trabalha chega, pois, deste modo à intuição de ser independente como de si mesma.”

                                               G.W.F. Hegel - Fenomenologia do Espírito, 1807.

Kathe Kolwitz - Protesto
Kathe Kolwitz - Protesto
Foto: Reprodução

Como em nenhuma outra época  enfrentamos uma situação  que jamais  geração alguma se deparou . Se recuássemos ao  passado,  uns cento e vinte ou cento e cinqüenta anos atrás,  facilmente se constataria que a maioria deles ainda explorava largamente o trabalho servil, senão o escravo. A Rússia,  por exemplo, emancipou seus camponeses da gleba  somente em 1861. Nos Estados Unidos a alforria dos escravos só foi obtida pela 13ª emenda, em 1863, em meio a uma violentíssima guerra civil. Em Cuba e no Brasil, centros de  latifúndios monoculturais, ela resultou de leis abolicionistas que foram gradualmente sendo aprovadas desde 1871 até chegar-se à consagrada Lei Áurea de 1888.

O trabalho livre, assalariado, é, portanto, historicamente, uma  novidade entre nós. A  atual geração é recém a quarta ou quinta que não conheceu a desgraça daquela forma de exploração humana. Paralelamente à desescravização sistemática, acentuou-se a mecanização da produção. A Revolução Industrial iniciada na Inglaterra do século 18 espalhou-se pelo mundo inteiro e, desde então, mais e mais engenhos têm sido inventados. Parecia que nos encaminhávamos para a situação sonhada pela humanidade através dos séculos, a de não ter mais que “ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto”. Nossas mãos não se encontram mais abrutalhadas pelos duros ofícios manuais nem as costas vergadas por terem que suportar pesos absurdos.

Cercamo-nos de eletrodomésticos, de computadores e guindastes que são nossos escravos eletrônicos. Mais gente se dedica ao lazer ou ao simples dolce far niente. Vivemos num conforto desconhecido em qualquer outra época da humanidade. Hoje, seguramente, uma pessoa da classe média desfruta de mais segurança e bem estar do que um rei ou um barão feudal.

Num repente, nos damos conta de que a difusão da robotização e da informática está formando um bando de desocupados. Associamos sempre , no passado, o estigma do desemprego ao homem sem instrução, ao desqualificado. Agora é o graduado quem não obtém um emprego. A concorrência globalizante, de um lado, nos força a uma maciça utilização da tecnologia, e do outro, a que se repudie sistematicamente o uso da mão-de-obra.

Nossa inquietação não se resume nisso. Os conceitos éticos que nos sustentam, o somatório de virtudes que envolviam o trabalho, encontram-se ameaçados. Nenhuma cultura como a Ocidental celebrou o trabalho como fonte perene da auto-realização humana. Adam Smith, Hegel e Marx  foram os que mais afastaram dele o estigma de ser só uma maldição teológica ou um preconceito aristocrático (na história, o privilégio de um nobre era exatamente não trabalhar). 

Cada um a seu modo tornaram-no  na verdadeira fonte de liberdade do homem, na ferramenta da sua emancipação, no mais valioso demonstrativo de que superamos os desafios da natureza. Nele, no trabalho, é que Max Weber enxergou a essência do que chamou de “espírito do capitalismo”, o qual Marx denunciou como sistema de exploração do homem pelo homem.

Com o desemprego grassando em todas as latitudes e os postos de trabalho fechando um a um, é a própria razão de ser do homem ocidental que se vê em risco. Num período historicamente curtíssimo passamos da escravização à robotização e desta à possibilidade da ociosidade forçada em massa. Em pouco mais de um século saltamos do inferno do escravismo ao perigoso paraíso da desocupação. Tornaremo-nos em breve obsoletos. Expulso pelos robôs e máquinas dos campos, das fábricas e dos escritórios, condenamos o homem do futuro a confinar-se, a ser um Adão desempregado.                  

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Fonte: Equipe portal

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