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América: armas e direitos

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13 out 2017
09h30
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Quincy Skinner, um dos eméritos de Cambridge, diz-nos que a moderna teoria da resistência à opressão resultou da Reforma Protestante. Cansados de se verem perseguidos pelos príncipes católicos, quando não literalmente caçados e mortos como hereges, como ocorreu na Noite de São Bartolomeu em 1572, teólogos calvinistas, como Ponet e Knox, mandaram às favas a tradição cristã da total submissão ao braço de César. Um rei mau que “exceder o poder que lhe foi conferido por lei” tinha que ser detido e até derrubado do trono. A fé de cada um era um assunto pessoal, e nada, nem mesmo o soberano poderia intervir nisso. Resistir era, pois para eles, antes de tudo, uma questão de moral religiosa.

Coube ao Dr.Locke, o patriarca mor do liberalismo do século 17, pelos seus ensaios e tratados de 1690, secularizar o que herdara da teologia rebelde. Para ele o direito à revolta configurava-se especialmente no caso do em que “governo age contrariando seu fim”, deixando de proteger a liberdade e a propriedade dos súditos. Os reis ingleses sentiram o efeito disso na própria pele quando a Revolução Puritana decepou o ilustre pescoço de Carlos I em 1649, e, depois, ao correrem com o seu neto Jaime II, em 1689.

A idéia de ser justo recorrer às armas em caso da opressão ser intolerável atravessou também o Atlântico. Quando os primeiros peregrinos aportaram o Mayflower na América do Norte, em 1620, traziam em seus baús, em meio aos livros santos, o sagrado direito à  insurgência. Um século e tanto depois, seus descendentes não se contentaram somente em  amotinar-se contra outro rei inglês, Jorge III, mas também ousaram  criar, concluída a Revolução de 1776,  um novo sistema político: a República Presidencialista.

Temerosos, porém, em dar-se um retrocesso que fizesse com que um neomonarquismo, de inspiração inglesa, voltasse a ser implantado, os democratas insistiram em dois pontos: impedir a formação de um exército permanente que servisse de suporte a um futuro Cromwell americano; e legalizar a posse de mosquetes e pistolas em mãos do homem comum, do cidadão americano. O que terminou consagrado pela Segunda Emenda à Constituição, aprovada em 1791.

Acreditavam que aquela era a melhor maneira de preservar-lhe a liberdade e ao mesmo tempo meter medo em qualquer  autoridade com inclinação autoritária. Fazendo ver a quem ambicionasse alçar-se à tirania que não teria pela frente ovelhas mansas prontas para a tosquia. O povo americano era  livre porque todos tinham armas.

O Dr.John Locke já , bem antes,  pensara nesta situação e afastara qualquer temor. Ao contrário de Hobbes, ele não via perigo nos súditos, eventualmente,  ensarilhar baionetas se o magistrado era bem intencionado, visto que o povo é intrinsecamente conservador. Em hipótese nenhuma subverteriam um governo benigno e legítimo, ainda que incompetente ou inoperante.

Além disso, perambular arcabuzado nas colônias americanas era uma realidade. Na conquista de um Continente desconhecido, enfrentando nativos hostis e animais ferozes como as  pumas e os ursos  era um absurdo supor-se que algum lavrador ou rancheiro e seus familiares pudessem sobreviver sem uma boa carabina com uma porção de pólvora e chumbo à sua disposição.

Isto nos faz entender a razão de todo o herói popular americano ser um homem destro nelas, nas armas. Daniel Boone, David Crockett, General Custer ou o velho Búfalo Bill eram peritos em tiro e faca. Veneram-se entre eles os revólveres e os rifles. São os instrumentos de trabalho e afirmação de um povo expansionista e dominador.

Logo, não se trata apenas do poderoso lobby da Associação Nacional do Rifle, nem o charme do seu líder o ator Charlton Heston,  que impede até hoje  os humanitários de fazer aprovar  uma lei mais rigorosa contra a venda das armas, que , diga-se, tanto infelicitam os jovens e seus pais. É que ela tem contra si algo bem mais profundo:  o imaginário de toda uma nação alargada, mantida e esculpida,  à balaços. Os indicadores calculam que circulam pelo país, nas mais diversas mãos, mais de 200 milhões de armas que, desde 1960 para cá fizeram mais de meio milhão de vítimas. Mais do que os Estados Unidos perderam na Segunda Guerra Mundial e na Guerra do Vietnã.

Todavia, estes massacres que começam a proliferar por todo o país (que tiveram início mais recente com o famoso ataque em Columbine, pequena cidade,  quando 12 estudantes foram liquidados a tiros), se devem a outros motivos. Em nenhum outro país, dito civilizado, se cultiva tanto a violência como nos EUA. O pior é que após qualquer atentado  mais gente adquire armas. Num dos primeiros desta série, 1,7 milhões de pistolas e fuzis foram vendidos.

Deste modo a violência torna-se cada vez mais algo pertinente ao caráter nacional dos norte-americanos.

Nos dias que correm, são raros os filmes de ação que não contém cenas de extrema brutalidade e sadismo. São explosões sensacionais, tiroteios incríveis, disparos a queima-roupa, sangue espirra para todos os lados, cadáveres retalhados ou perfurados à bala, viraram presença constante na filmografia hollywoodiana.

Calcula-se que uma criança norte-americana esteja exposta a seis mil ou mais assassinatos por semana na mídia voltada ao entretenimento. Um ator, Arnold Schwartznegger, justamente apelidado como ‘ O Exterminador’, que se projetou por matar a socos ou com espadas mais de oito mil personagens, foi eleito e reeleito governador da Califórnia, entre 2003 a 2011 (não só isto, em maio de 2004 e 2007, foi nomeado como uma das 100 pessoas que ‘ajudaram a moldar o mundo’, pela revista Time).

Outro seu parceiro no gênero da boçalidade criminosa, Sylverster Stallone, ex-ator pornográfico, praticamente foi transformado em herói nacional ao fazer papel de assassino a serviço das Operações Especiais que se torna injustamente perseguido pelo estado (‘Rambo’, seu personagem teve direito a quatro filmes seguidos, entre 1985 e 2008),

Proliferam nas principais redes de TV seriados policiais de toda ordem explorando o generalizado temor que a classe média tem da bandidagem e dos assassinos seriais psicopatas (vilões absolutos de praticamente todos os seriados). Corpos humanos são vistos nas mesas dos laboratórios retalhados para fins de autópsia e seus órgãos submetidos às análises detalhadas. É a tecnologia colocada a serviço do aparelho policial ajudando-o a desvendar os crimes, etc. A banalização da morte ou até seu fascínio são produtos que parecem atrair multidões de expectadores.

Então, é de se perguntar, como qualquer indivíduo psicologicamente perturbado poderá resistir a este apelo constante à violência e ao sadismo? É um bombardeio que não cessa nunca, nem tende a arrefecer, sendo que a busca desesperada da audiência faz com que gradativamente os princípios éticos sejam desconsiderados ou simplesmente ignorados. O que vale é o que os Institutos de Aferição detectam.

A falta de controle sobre a venda e porte de armas é uma das maiores perversões que uma lei libertária já sofreu ao longo da história americana. Aquilo que viera para assegurar os direitos dos indivíduos num continente selvagem, particularmente o da autodefesa, tornou-se dois séculos depois quase numa licença para o assassinato em massa, pois se Lee Oswald, o atirador que matou John Kennedy, em 28 de novembro de 1963, adquiriu seu fuzil pelo Correio, James Holmes o jovem estudante de medicina autor do massacre de Aurora, em Denver, Colorado, comprou seu arsenal, mais de seis mil cartuchos, pela Internet. O recente massacre em Las Vegas (50 mortos e 200 feridos) cometido por um sexagenário, Stephen Paddock,  que disparou rajadas sobre a multidão num show de música country abatendo 58 pessoas e mais de 400 feridos,é tido como o mais sanguinário de todos. Poucas vezes na sua história militar o país perdeu tanta gente num incidente desta monta em tão curto tempo (os disparos não excederam a um minuto). Certamente que isso não irá abalar a venda de armas ao varejo como é costume por lá.

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Fonte: Especial para Terra

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