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A origem da Olimpíada: o espírito do cavalheiro

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Num processo natural de evolução de pertencer a uma casta à parte, chegaram a obedecer a um código da nobreza cavalheiresca (que mais tarde, ao longo da história, repetiu-se entre os équites romanos e os cavaleiros feudais da Idade Média cristã). Cultivam acima de tudo o 'aidós', 'o sentido do dever'.

E é entre esta casta, e somente entre ela, que se trava a luta pelo Aretê, por meio da aristeia, combates singulares dos famosos heróis épicos que eram reproduzidos em todas as partes da Grécia (que séculos depois serão travadas pelas 'justas' do Medievo).

Com o passar dos séculos, do período arcaico ao clássico, notou-se outro entendimento do significado da Aretê. Ampliou-se lhe. Não apenas percebida como a busca da honra (ethos da nobreza), mas da ambição (ethos do politikós, o cidadão da cidade-estado). Para os filósofos Platão e Aristóteles, identificando-a com 'altivez e magnanimidade', ela só é possível de encontrar entre as almas de escol.

A honra é o troféu da Aretê: é o 'tributo pago à destreza'. É o conceito básico em que se funda o caráter aristocrático do ideal de educação entre os gregos.

O núcleo desta ética voltada aos valores maiores implicava em ter um profundo amor-próprio. Os que a seguiam tinham como meta 'fazer a sua beleza', o que certamente os levava a praticar 'ações do mais alto juízo moral, como ser infatigável na defesa dos amigos e companheiros, sacrificar-se pela pátria, mostrar-se indiferente ao dinheiro, bens e outras honrarias', desde que conseguisse alcançar sua nobre intenção.

A preocupação primeira dos combatentes era realizar um grande feito no campo de guerra o que permitiria que eles escapassem do anonimato, da obscuridade em meio tantos outros valentes, conferindo-lhes a gloria da imoralidade pela qual tanto aspiravam. A beleza do guerreiro em ação, a exibição do seu destemor passava a ser o 'critério absoluto' da sua existência (ver Jean-Pierre Vernant - L'individu, la mort, l'amour). Era para tanto que ele, desde bem jovem, era preparado pelos seus, para no após-morte poder conviver entre os heróis celebrados na ilha da Bem-aventurança (o paraíso dos valentes gregos).

A eles era vedado tirar qualquer proveito numa troca com outro guerreiro. Quando, após a batalha, recolhido o espólio de guerra, se reuniam para a permuta, os valores dos objetos deviam ser sempre considerados equivalentes. Manchava a honra quem por acaso tirasse algum benefício ou fizesse alarde disto. (ver M. I. Finley - O mundo de Ulisses, p. 100-101).

O código heroico

Os dois pilares do código heroico grego - herdados de Homero - são a Glória Pessoal e a Honra (hoje entenderíamos por status). Ambos formam a única coisa realmente importante para o aristocrata, sendo que o homem heroico deve valer-se por si mesmo. O prejuízo que ele possa ter no seu âmbito, qualquer tipo de ameaça à honra, exige que ele obtenha uma reparação por meio do próprio esforço. De nada lhe servia apelar aos deuses. Tinha que resolver a questão por seus próprios meios. Todos os feitos, as paixões, chegam aos limites máximos, sendo que o seu ideal é manter um semblante belo e vivo. Não lhe importa as questões de dignidade ou perfeição moral, muito menos a nobreza de sentimentos.

Na verdade, é a representação pura de um egoísmo ingênuo e indômito, portador de uma ferocidade primitiva que jamais demonstra arrependimento pelos seus atos. É grandioso e benévolo, seus atos brutais ou de astúcia, desde que bem sucedidos, jamais eram submetidos à censura. Prova disto é a passagem que relata a invasão de Tróia quando Héracles chega a erguer a espada para abater um companheiro seu, Telamón, que desejava antes dele penetrar na cidade por uma brecha recém-aberta na muralha.

Para efeitos simbólicos, com o fim de afastar um possível sentimento de culpa por algum homicídio, o herói apelava para a cerimônia da catarse, que nada mais era senão do que a busca de uma absolvição pública (ver J. Burckhardt, vol. I págs. 48-49).

Manter a time (a honra) é a única regra que governa a ação dos heróis, sendo assim uma incorporação individual do guerreiro da maior preocupação de Zeus, soberano dos céus, que passa a maior parte do tempo zelando por sua integridade pessoal.

Bibliografia

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Fonte: Especial para Terra
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