A esquerda: o louco, o criminoso e o drogado

25 jun 2018
15h02
atualizado às 15h02
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De certo modo, tudo o que nos cerca hoje é subproduto da Revolução Cultural dos Anos Sessenta, década de onde emergiu o Politicamente Correto e praticamente todas as políticas públicas que marcam a gestão social no Ocidente.

Um dos seus principais mentores ideológicos do pós-1968 foi o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) que fundiu numa extravagante doutrina inspirada no anarquismo com as concepções de Nietzsche.

Michel Foucault (1926-1984)
Michel Foucault (1926-1984)
Foto: Reprodução / Reprodução

Instituições, ‘espaços de opressão’

Para ele, as instituições que nos governam ou que nos assistem, sejam as dedicadas à saúde pública (hospitais, manicômios ou asilos), ao sistema prisional (casas de correção, reformatórios, presídios e cadeias), na recuperação de viciados (clinicas especializadas, ambulatórios de desintoxicação, etc.), ou voltadas para a educação (orfanatórios, seminários, escolas, universidades, centros técnicos, etc.) nada mais são senão que ‘espaços de opressão’ controlados por equipes dirigentes. Seu objetivo maior não é a defesa da sociedade senão que criar mecanismos que permitam exercícios do poder, o poder de humilhar, reduzir e oprimir o próximo vítima de uma desdita qualquer é obrigado a ficar confinado ou constrangido numa das suas edificações (o asilo, a prisão, clinica ou ginásio).

Deste modo, no entender dele, o quartel não existe para a defesa da pátria, mas para o oficialato exercer o mando sobre a tropa, o colégio não funciona para o ensino, mas para que o corpo docente sujeite os estudantes, e assim por diante. Da mesma maneira, o existir do hospício serve para que os clínicos psiquiátricos e seus assistente se excedam sobre os lunáticos enquanto nos hospitais convencionais os médicos e enfermeiros se unem para dominar os corpos dos pacientes a pretexto de submetê-los a tratamentos. Não há boas intenções na sociedade que nos cerca. Nada mais é senão que uma questão de PODER.

Com suas próprias palavras ele sintetizou o fenômeno: ‘Os tribunais, as prisões, os hospitais psiquiátricos, a medicina do trabalho, as universidades, os órgãos de imprensa e de informação: através de todas estas instituições e sob diferentes máscaras se exprime uma opressão que no fundo é política. ’ Concluiu que ‘os encarregados de distribuir justiça, saúde, saber, informação começam a sentir no que fazem a opressão de um poder político’.(cit. Por Didier Eribon – Michel Foucault, pág. 212)

Este sistema, ampla rede de corporações profissionais que cobre larga parte das sociedades atuais, emergiu na Idade da Razão (entre os séculos XVII-XVIII) quando a política iluminista gradativamente foi implementada no Ocidente.

Veja-se o caso da loucura, por exemplo. Durante a Idade Média os alienados conviviam com o restante da população, sendo inclusive, por vezes, considerados seres portadores de dons especiais quando não sagrados. Isto era assim porque eles eram participantes do poder da miséria, sendo amparados pela caridade medieval.

A razão contra a loucura

Todavia, esta situação se alterou com o desaparecimento da lepra que até então era o alvo da política medieval da exclusão. Sem muita demora fruto da emergência de uma nova sensibilidade, a sociedade criou outra forma de confinamento, escolhendo para tanto o lunático. A miséria deixou de ser percebida como algo pertinente à sociedade e sim como castigo por deficiências e destemperos morais, conseqüentemente encerrou-se a indulgência para com a insânia.

Ora, a loucura ofendia a RAZÃO, era sua antítese. Precisava-se, pois, abandonar a condescendência e enclausurar os tresloucados em prédios especiais, surgindo assim o moderno manicômio ou hospital de alienados. Na transição dos séculos XVII e XVIII, época da consolidação do Estado Absolutista, todas as regras controladoras surgiram quase que ao mesmo tempo, sendo elas incrivelmente semelhantes, anunciando a emergência da Sociedade Disciplinar com a exigência primeira de por fim à ociosidade e ao parasitismo.

Na concepção de Michel Foucault não há necessariamente uma ‘ classe dominante’ ao estilo marxista. O que existe é um denominador comum que ele denomina como EPISTEME que perpassa por todas as instituições como uma espécie de ‘’gênio maligno’ que as orienta e modela. O poder não está concentrado nas mãos dos produtores e dos proprietários, mas acha-se difuso nas mãos das corporações profissionais que as controlam.

A escola, o orfanatório, a universidade, o sanatório, o hospital, a prisão e a caserna passaram a funcionar dentro da mesma dinâmica com praticamente os mesmos regimentos internos contendo objetivos de contenção e domesticação dos seres humanos, ainda que por vias diferentes. A vara, a palmatória, a camisa-de-força, o choque elétrico, a medicação, o castigo corporal, e os rigores da instrução militar, formam uma constelação de instrumentos opressivos que estão à disposição das corporações dominantes e servem como afirmação do poder delas na tarefa de sujeição dos indivíduos.

O sistema prisional, por sua vez, reproduz a idéia da fiscalização permanente. O panóptico, excêntrico projeto de Jeremias Bentham, não era senão que o grande olho do poder atento vinte quatro horas por dia na sua função de vigilância. O individuo tinha sua intimidade e privacidade sistematicamente devassada, totalmente exposta ao carcereiro (invento que foi o precursor das câmeras que hoje encontramos nas ruas, lojas e nas praças vigiadas por atentas máquinas de controle 24 horas por dia).

O panótico de Bentham

Do alto da torre o guarda controlava qualquer movimento ou gesto do prisioneiro. Para Foucault este procedimento de patrulhamento sistemático engendrou o Estado Totalitário moderno, narrado ficcionalmente no livro de George Orwell ‘1984’, no qual Winston Smith, um cidadão comum, é controlado o tempo inteiro pela imagem do Big Brother na televisão.

A prisão, junto com o manicômio, formou os espaços mais extremistas e cruéis da opressão humana, servindo como modelo para as estruturas superautoritárias que surgiram ao longo do século XX. A partir desta constatação, Foucault enumerou então as instituições que considerava como ‘intoleráveis’: ‘os tribunais; os policiais; os hospitais e asilos; a escola, o serviço militar, a imprensa, a televisão e o Estado’ (ver Didier Eribbon – Michel Foucault, pág.208)

O panótico de Bentham
O panótico de Bentham
Foto: Reprodução / Reprodução

A tolerância para com a droga

Michel Foucault pertenceu a uma geração de intelectuais que demonstrou outra receptividade para com as drogas e o vicio em geral. Em parte, inspirados na obra de Aldous Huxley ‘ As portas da percepção’ (The doors of perception, de 1954), que relata a experiências do escritor com a ingestão de mescalina, LSD, e outras, e os efeitos que nele provocou, muitos escritores e ideólogos começaram a reverter as posições que os esquerdistas históricos tinham em relação ao problema das drogas.

Primeiramente criticadas como uma alienação, senão que uma filistina fuga da realidade, ou ainda algo de consumo restrito à boemia e aos parasitas sociais, elas passaram a ser entendidas tanto como um meio de exploração de outras amplitudes da mente - uma abertura do espírito a desconhecidas possibilidades de percepção - como um protesto individual à sociedade capitalista e burguesa com seus ditames regidos pelo lucro e pelo consumismo. Na sua versão mais radical, o consumidor de alucinógenos ou de heroína se furtava de servir ‘ao sistema’.

Drogar-se de alguma forma passou a ser exaltado como uma reação individual e afirmativa de repulsa ao status quo, uma contestação, uma ‘transgressão positiva’, senão que um ato ‘pré-revolucionário’.

Esta situação consolidou-se durante a Era de Protestos desencadeada nos Estados Unidos pela oposição à Guerra do Vietnã (1965-1975). No entendimento da Contracultura, movimento dos anos sessenta de aberta crítica aos valores tradicionais, recorrer aos estupefacientes era ‘quebrar os paradigmas’. Significava simultaneamente opor-se à continuidade da guerra e desaforar o modo de vida americano (tido como o responsável maior pelo espírito agressivo e destrutivo das operações militares dos EUA no sudeste asiático).

Do mesmo modo que o jovem norte-americano convocado negava-se a se apresentar às juntas de conscrição para cumprir o serviço militar, aquele que aderia às drogas (fosse maconha, cocaína, heroína ou qualquer outra do gênero) o irmanava no protesto.

Droga como contestação

Expoente desta adesão à toxicomania, particularmente ao LSD (Ácido Lisérgico Dietilamida), foram os psicólogos de Berkeley e Harvard (1959-1963), Timothy Leary e Richard Alpert, integrantes da elite acadêmica norte-americana que chegaram a criar um espaço especial no Instituto Castalia em Millbrook, Nova York, atraindo para lá estudantes para suas experiências sensoriais com doses psicodélicas e cogumelos alucinógenos (prática importada dos costumes indígenas mexicanos)

Não tardou para que Leary e sua ‘Liga da Descoberta Espiritual’ obtivesse a simpatia e aberto apoio do poeta beat Allen Ginsberg que se tornou um dos arautos da contracultura entendendo a recorrência às drogas como uma forma de ‘abrir’ as pessoas para novas possibilidades que a moral convencional impedia de alcançar.

Outro beat, o escritor William Burroughs definiu-o como "um verdadeiro visionário do potencial da mente humana e do espírito", enquanto o irreverente novelista Tom Robbins classificou-o como ‘ O Galileu do nosso tempo’.

Allen Ginsberg has proclaimed him "a hero of American consciousness."O consumo de alucinógenos passou a ser visto entre os círculos requintados da inteligência americana como um traço de sofisticação intelectual, de desafio às convenções opressivas, um ‘ligar-se’ a outro universo apartado das exigências da religião e do consenso comum e medíocre da sociedade capitalista.

Aquilo que até então estava associado aos socialmente decaídos, aos boêmios perdidos ou aos desgraçados de todas as procedências, viu-se ‘enobrecido’ pela adesão de escritores, artistas, acadêmicos, personalidades do show business,  e líderes de movimentos de contestação. Consumir estupefacientes passou a ser ‘chique’, ‘ousado’, ‘ avançado’, ‘progressista’, enquanto que criticá-los foi entendido como ‘reacionário’, ‘atrasado’, ‘ um retrocesso’, etc.

O mesmo foi estendido às questões do sexo. Michel Foucault saiu em busca de relações homo-sadomasoquistas, freqüentando com desembaraço a Meca da Sodomia que é a cidade de San Francisco na Califórnia. Se a droga abria as mentes, a transgressão sexual foi percebida como a ‘liberação do corpo’ das injunções da moral cristã repressora e da retórica conservadora da contenção. ”Abrir o corpo’ tornou-se comum a quem desejava romper com ou ignorar as fronteiras morais.

A reforma das instituições

Entrementes, no transcorrer da década de sessenta e setenta as idéias dele de ‘desconstrução’ das instituições formais foram ganhando adeptos no meio acadêmico norte-americano. A nova geração que saiu dos bancos das faculdades de direito, de sociologia e de psicologia, da Costa Leste ou da Califórnia, sofreu forte influencia doutrinaria dos professores seguidores de Michel Foucault, um pensador que não acreditava existir na sociedade instituição alguma que não estivesse à disposição da teia do jugo da coerção e da lógica do poder. Antes de se processar a ‘dissolução do homem’ por ele anunciada era preciso desmantelar as instituições.

Na verdade elas eram grandes máquinas de adestramento criadas para ‘vigiar e punir’, para amansar e domesticar os seres humanos postos a serviço da ‘economia do poder’.  Aquilo que Louis Althusser veio a denominar de ‘aparelhos ideológicos do estado’.

Assim sendo, o louco, o drogado, e o contestador social, formavam uma frente em comum de revolta e repudio à ordem vigente.

Gradativamente, o resultado disto se fez sentir no surgimento das leis antimanicomiais (com o fechamento dos hospícios e das clinicas psiquiátricas), da revisão das leis penais (com a gradativa abolição da pena de morte e a redução das sentenças mais severas, seguidas do embaraçamento da atividade policial), e da nova pedagogia que visou o constrangimento da competência disciplinar dos docentes.

Se as instituições serviam acima de tudo como ‘espaços da opressão’ e afirmação do poder era preciso lhes alterar a substância, esvaziando-lhes a sua razão de ser. O psiquiatra, o carcereiro, o policial e o professor, símbolos genéricos da autoridade, viram-se podados por múltiplos regulamentos aprovados em série e rapidamente difundidos em boa parte do Ocidente. Liberou-se o louco do manicômio, o drogado da clínica, o criminoso das longas penas, e o estudante da disciplina e do compromisso.

Com a abolição ou contenção da autoridade é possível que Michel Foucault pensasse abrir caminho para a verdadeira revolução que surgiria no porvir, liberando os seres humanos de qualquer amarra. Em termos freudianos, a neutralização do superego com seus rigores e impedimentos, proporcionaria aos indivíduos um novo horizonte de possibilidades não-repressivas.

Tudo isto, foi acompanhado por uma radical mudança da linguagem com a adesão ao Politicamente Correto. As palavras consideradas infamantes ou inadequadas pelas minorias (mulheres, homossexuais, negros, índios, deficientes mentais e físicos) foram sendo substituídas por outras tidas como convenientes ou mais apropriadas (como por exemplo, pederasta por homossexual ou gay; negro por afro; aleijado por cadeirante; louco por deficiente mental; delinqüente juvenil por jovem infrator; mongolóide por portador da síndrome de Down; pervertido por pedófilo; prostituta por ‘garota programa’; e assim por diante). É como se outro significado surgisse da desconstrução das antigas expressões e do vocabulário até então aceito.

Com isto a Esquerda não-comunista pensou em cumprir assim a sua missão histórica como emancipadora. Se não fora possível libertar o operário do poder do capital, como era a proposta do marxismo clássico, pelo menos, seguindo Michel Foucault, ela ajudaria a libertar milhões de indivíduos dos preconceitos emancipando-os da moral convencional.

Fonte: Terra

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