A dissolução da alma

21 fev 2019
11h19
atualizado às 11h19
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“A alma participa do divino mais do que qualquer outras coisa corpórea. O divino é o belo, o sábio e bom.”— 
Platão - Fedro, sec. IV a.C. 

Foto: Reprodução

Flutuavam aladas no espaço celestial de onde governavam a ordem universal. Seguidamente acompanhavam o séquito de Zeus para desfrutar na abóbada do céu — o topós ouranos — de um soberbo banquete oferecido aos deuses. Ali era a oportunidade delas poderem contemplar a Idéia Eterna e seus arquétipos da ciência perfeita e beleza imortal. Eram as almas puras que depois de saciadas, imergiam de volta aos céus enquanto que as outras, perdendo suas asas, as impuras, terminavam por dar a vida aos corpos que, aqui na terra, as aguardavam para dar inicio à aventura de viver. 

Claramente esse mito — exposto por Platão no Fedro — procura mostrar o papel de demiurgo da alma, intermediária do universo divino com o humano. Aristóteles, por sua vez. Pensava ela findar com a morte, mas Platão imaginava-a capaz de idas e vindas ao longo de tempos incomensuráveis que chegavam até atingir 10 mil anos! 

Para os cristãos era indiscutível sua imortalidade. O corpo evidentemente que fenecia, mas para alma — desde que salva — estavam reservados momentos divinos partilhados junto ao Criador. Orígenes, um dos grandes mestres da patrística, acreditava ser a alma um produto do esfriamento do espírito, este sim flamejante, e que se subdividia em angélico, humano ou demoníaco e que sempre haveria uma tendência por parte das almas em retornar ao abrasador calor vivificador da presença de Deus.

Santo Agostinho, por sua vez, afirmou ela reservar dentro de si, bem no seu íntimo, uma parcela de Deus. Isso tornava possível ao fiel, desde que se esforçasse no seu recolhimento interno, encontrar o próprio Deus e com ele dialogar. “Não saias de ti, retorna a ti mesmo”, recomendava ele, acrescentando que “no interior do homem habita a verdade.”

Santo Tomás de Aquino consagrou à alma um imenso espaço na Suma teológica para expor todos os seus meandros e virtudes. A alma não provem dos pais, muito menos da matéria seminal, o que lhe parecia uma heresia. Vem diretamente de Deus. Assim graças a sua origem divina, ela tem virtudes que o corpo desconhece. Divida em vegetativa, sensitiva e intelectiva, forma a parte mais nobre do ser. Todo homem trazia assim dentro de si a fagulha da criação divina que estava longe de apagar-se quando da sua morte. Todavia, a eclipse do mundo religioso e místico, a partir do fim da Idade Média, que fazia da preservação imaculada da alma a razão da vida na terra, fez com que o próprio conceito de alma entrasse em dissolução. Descartes, por exemplo, no século 17, se reiteradas vezes afirmou ser seguidor da ortodoxia afirmadora da imortalidade da alma, minimizou-a como categoria útil à sua teoria do conhecimento. Ele foi o grande apologista do Cogito, da consciência, alimentada pela experiência e pela lógica matemática, transformando-a, de fato, “num espectro da máquina”, como definiu Ryle, um dos seus seguidores atuais.

Mais radical do que ele, nesse esforço em diluí-la, foi o empirista David Hume que, no seu Tratado da Natureza Humana, de 1739/40, dizia ser o conhecimento obtido através das fortes impressões externas que vão nos moldando. Como se no nosso interior residisse uma placa de argila que aceitasse nela todas as marcas que a vida lhe desejasse fazer. Desta forma, a verdade adviria naturalmente da maior exposição possível, do maior contato com as coisas materiais e espirituais, não havendo nada de divino nisso, muito menos de ser um legado de Deus.

Os positivistas, no século XIX, ultrapassaram-no. Acreditavam que era possível desenvolver-se uma ciência do espírito tão exata quanto as ciências naturais, emergindo daí a psicologia preocupada em estudar os “fenômenos psíquicos” e os “estados de consciência”. Profanava-se assim a alma ao torná-la devassada pelos equipamentos extraídos da ciência positiva. Naquele século, ela definitivamente abandonava o cenário das especulações morais e científicas, conformando-se em ser assunto exclusivo dos místicos, dos espíritas, e dos poetas, sendo banida das preocupações da elite moderna. 

Nem mesmo a consciência — centro da atenção dos racionalistas do nosso tempo — gozou de tranqüilidade. Algo ainda mais espetacular estava por vir. E surgiu pela obra de Sigmund Freud. Para ele a tão propalada consciência do homem racional nada mais era do que uma ínfima parte de um iceberg formado pelas instâncias inferiores do inconsciente. Esse sim assumia a função de um mar larval em permanente ebulição, levando-nos ao descontrole, aos atos impensados e à neurose. Além disso, possuía uma linguagem própria, onírica, de difícil e, por vezes, quase impossível compreensão, sendo necessário recorrer-se ao auxilio do analista para poder traduzir adequadamente o que ocorria em suas profundezas, interpretar os hieróglifos do inconsciente.

Foto: Reprodução

Freud demoliu com a idéia de um homem plenamente consciente dos seus atos e planejador do seu futuro. Mostrou-nos um ser confuso, ansioso e inseguro que estava longe de abandonar seu impulsos primitivos animais, como o orgulhoso homem cartesiano acreditava ter superado.

Os neopositivistas por sua vez, foram mais adiante. Impulsionados pela fantástica evolução da anatomia, pelos estímulos vindos das leis da eletricidade e pelas pesquisas da microbiologia avançada, atacaram Freud de todos os lados. Os mais radicais, como Mário Bonde, perguntavam “ao abrir-se um cérebro, onde está o Id o Ego e o complexo de Édipo”?  Desta forma as emoções e sentimentos começaram doravante a ser traduzidos por pulsões fisiológicas e a noção do pecado sumiu. Os estudos cerebrais aperfeiçoaram-se e nele mergulharam fundos os cientistas para estudar-lhe a composição e o funcionamento.

Esmiuçaram o tálamo e o hipotálamo, o sistema límbico e a protuberância, examinaram minuciosamente as 10 milhões de células que compõe a massa encefálica e não encontraram vestígios da alma, nem na glândula pineal como Descartes acreditava, nem acharam-na espalhada pelo corpo como pregava Santo Tomás de Aquino

Tudo não passa, hoje, de um contato entre neurotransmissores não específicos no tronco cerebral e prosencéfalo basal ”que se comunicam quimicamente com diversas regiões do telencéafalo”, tendo como instância última os neurônios. Assim, a pobre alma percorreu um longo caminho rumo ao rebaixamento e  dissolução: de  essência divina criada por Deus , flanado junto aos deuses , ou acolhida pelo ardor de Deus, foi  reduzindo-se à consciência, e, dessa, conformou-se em ser o freio do inconsciente, para finalmente desaparecer definitivamente por detrás da linguagem da neurobiologia e da encefalologia, naufragando em meio a “excitabilidade elétrica”das células cerebrais. 

E aquilo que durante séculos acreditava-se pertencente aos mistérios da alma, suas estranhas idiossincrasias, inclinações pecaminosas, que eram tratadas com flagelações, jejuns, renúncias, penitências de toda ordem, acompanhadas de danações públicas e maldições sacerdotais, redimidas pelo chicote e por vezes pela fogueira, hoje se tornou uma banal disfunção neurônica qualquer, possível de ser corrigida com um prosaico comprimido! 

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Fonte: Especial para Terra
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