HIROSHIMA, Missa para os insetos mortos

11 ago 2020
18h32
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A bomba de Hiroshima estava carregada com 64 kg de urânio enriquecido.
A bomba de Hiroshima estava carregada com 64 kg de urânio enriquecido.
Foto: Getty / BBC News Brasil

“...no momento em que a nova arma devastou a cidade, ele ouviu incontáveis gritos de socorro – a voz de centenas de milhares de almas -- como se estivessem vindo dos subterrâneos da terra.”

 Masuji Ibuse – Chuva Negra,  1966

Corriam boatos sobre a saúde da jovem Yasuko, conta o notável escritor japonês Masuji Ibuse  no seu livro “A Chuva Negra”. A garota, diziam,  certamente fora atingida pela doença da radiação. Estava contaminada e se tivesse filhos seria uma desgraça. Assim, um por um,  desde que a guerra contra os Estados Unidos terminara, os pretendentes dela foram sumindo. Uma casamenteira que andara pela aldeia de Kobatake e que se interessara por ela, não demorou também em desistir. Contavam por lá que ela estivera em Hiroxima no dia que a bomba explodira – no 6 de agosto de 1945 -  e que o seu sangue estragara.  Shigematsu Shizuma, o tio da garota, que a tomara para criar, indignou-se. Tinha certeza de que ela não estivera exposta à explosão. Ele sim vira tudo, mas não sua sobrinha.

Estava desembarcando na estação Yokogawa, próximo à Hiroxima,  quando a bomba explodira. Mal saltara do trem quando viu ao longe uma intensa claridade. Algo jamais visto. Em segundos,  sentiu-se atingido por uma corrente de ar infernal, quentíssimo. A multidão que saíra dos vagões apavorou-se. Tomando a forma de um confuso e estridente vagalhão humano,  desatou numa corrida desesperada para tentar salvar-se. Ele, instintivamente,  agarrou-se numa pilastra para não ser levado por aquela tropelia de desesperados. O calor da pele o assustou, sentiu-se atingido. Mas isso não fora  nada perto do que ele se deparou no dia seguinte..

Por quilômetros,  tudo em Hiroxima estava calcinado, retorcido, arruinado. A cidade evaporara-se.  No rio Ota, bem onde a bomba caiu,   boiavam milhares de cadáveres. Eram dos que se jogaram na água para aplacar as queimaduras sofridas.  O próprio Shigematsu, ao contrário da sobrinha que escapara ilesa,  não demorou a perceber os sintomas da radiação. Um desânimo tomava conta dele,  enquanto pústulas nasciam no alto da sua cabeça. Os cabelos se foram e os dentes se afrouxaram. Mas, ao contrário dos 140 mil outros habitantes de Hiroxima, incinerados na hora ou mortos dias depois,  ele teimou em continuar vivo.

Shigematsu, passado um pouco das 8 horas da manhã,  chegara a ouvir o vôo solitário do B-29 que cruzara pela manhã os céus de Hiroxima. Era o Enola Gay que transportava o artefato atômico, o Little Boy, o Garotinho, como carinhosamente o pessoal de Los Alamos apelidara a Bomba Atômica. O capitão Paul Tibbets que pilotava o avião batizara-o com o nome da sua mãe. Então com 30 anos, ele  fora escolhido a dedo pelo general Leslie Groves para aquele missão. Tinham-no como um dos comandantes mais experientes da USAF, a força aérea americana.

Hiroshima após bomba atômica
Hiroshima após bomba atômica
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Numa entrevista  recente,  Tibbets, hoje um bem sucedido homem de negócios,  disse que, lançada a bomba,  “ num micro-segundo a cidade de Hiroxima deixou de existir.” Dos 350 mil habitantes que lá viviam nunca se soube ao certo quantos afinal restaram, pois muitos foram morrendo aos poucos, carcomidos pelo câncer e pela leucemia.

Na ilha Honshu , depois da colheita, era costume dos agricultores providenciarem uma missa para os insetos mortos,  preparando bolinhos de arroz para alimentar a alma das formigas e mosquitos que eles, sem querer, esmagavam na época da safra. Nunca se soube dos americanos terem mandado rezar missa para os desgraçados que eles calcinaram em Hiroxima. Alias, nesta semana, tomados pelo furor patriótico da Era Bush, as autoridades  voltaram a expor o Enola Gay , todo restaurado, no Museu Smithsonian,  em Washington, como que para advertir ao mundo do que eles estão dispostos  a voltar a  fazer.              

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Fonte: Especial para Terra
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