Fake news: entenda a pandemia de dados

Aprender a reconhecer e a evitar disseminar notícias falsas deve ser uma habilidade também para profissionais além da Comunicação

8 out 2020
15h10
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Gargarejar com água morna evita que o coronavírus vá para os pulmões. Irmãos morrem depois de receberem vacina contra covid-19. Essas são apenas duas das mais de 7 mil notícias falsas sobre o tema que circularam em milhares de grupos de mensagens, caixas de e-mail ou em conversas nos almoços de domingo das famílias brasileiras.

Os dados sobre fake news são da IFCN (International Fact-Checking Network, ou Rede Internacional de Verificação de Fatos, em tradução livre), que reuniu cerca de 80 veículos em mais de 70 países para atuarem juntos na verificação de notícias falsas. A situação é tão grave que a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem tratado o problema como uma "infodemia", uma epidemia de desinformação.

O termo fake news entrou de vez no dicionário do mundo todo, não importa a língua. Uma rápida pesquisa em buscadores como o Google aponta mais de 500 milhões de resultados que tanto apontam notícias falsas que circulam no cotidiano quanto possíveis formas de identificar tais boatos.

Gigantes da tecnologia como Facebook e Google afirmam trabalhar constantemente para evitar a propagação das fake news. Hoje, já há o que se chama de "inibição de uso fraudulento das mídias sociais". Na prática, são ferramentas que atuam na remoção de contas falsas ou geridas por robôs, além do uso de algoritmos que permitem aos usuários verificar o passo a passo da disseminação de informações desde as origens.

A estratégia precisa estar aliada, no entanto, a um esforço para prevenir o problema. E, nesse ponto, os especialistas afirmam que é imprescindível investir na formação de pessoas capazes de driblar essas armadilhas do digital.

Necessário para todos

Coordenador do grupo Jornalismo, Direito e Liberdade na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), Vitor Blotta defende o incremento dos currículos das instituições de ensino com propostas que discutam as fake news. Isso de forma ampla, não apenas para estudantes de Comunicação. "Precisamos incluir disciplinas e mesmo cursos sobre literacia midiática e digital, bem como sobre comunicação científica. Elas analisam as dificuldades da difusão de conhecimento para públicos amplos e criam métodos confiáveis de comunicação e informação sobre as áreas do conhecimento", afirma Blotta.

Os profissionais devem estar aptos a exercer técnicas como apuração, verificação, checagem de fontes e confirmação de dados. Todos também devem ser motivados a ter um pensamento crítico, tanto para identificar como para não disseminar fake news e prestar atenção em quem produz as informações e que interesses há por trás das divulgações.

"Vale também aprender a ética jornalística de somente publicar ou compartilhar quando se tem certeza da veracidade do conteúdo, e também de suas possíveis consequências. Como as 'pessoas comuns' têm hoje também 'poder de mídia', algumas das potencialidades e responsabilidades que antes eram do jornalismo foram transferidas a elas."

Ações concretas

No Brasil, grupos como Agência Lupa e Aos Fatos desenvolvem a técnica de fact-checking, na qual conferem a veracidade de notícias de fontes duvidosas disseminadas na internet. Afirmações feitas por personalidades, temas de interesse público ou assuntos que tenham tido grande repercussão são prioritários nas checagens que são submetidas a especialistas. Eles analisam os dados históricos, estatísticos, comparações e afirmações sobre a legalidade de um fato.

Pelo mundo, a iniciativa The Trust Project envolve um conglomerado de 200 organizações cujo trabalho de análise é orientado por indicadores como o histórico de quem produz uma notícia, os propósitos, tipos de fontes consultadas e os métodos utilizados na produção da informação.

Algumas plataformas têm estratégias inusitadas para explicar as características de fake news. No site Bad News, o usuário assume o papel de um editor fictício que deve deixar de lado qualquer senso de ética em nome de aumentar sua audiência. O site tem inclusive uma versão para crianças e adolescentes, o Bad News Jr. O objetivo é que as futuras gerações tenham desde cedo a possibilidade de se vacinar contra as armadilhas que atualmente vitimam seus pais.

Nas duas versões do game, os jogadores vencem ao mostrar que sabem agir como um bom editor de fake news, ou seja, que se propõem muito mais a seduzir do que a informar a audiência.

Cursos livres e de idiomas enriquecem o currículo

Os anos de graduação são uma época intensa. No início, é hora de se adaptar à etapa acadêmica - entender a grade curricular, as metodologias e a forma de aprender no ensino superior. Depois, a partir do meio do curso, vem aquela ansiedade para conseguir estágios e quiçá até o primeiro emprego na área.

Mas, enquanto tudo isso acontece, que tal aproveitar esse período tão único para também aprender temas que podem fazer a diferença no currículo e até direcionar a carreira. Veja algumas ideias de atividades extracurriculares para encaixar na agenda:

Moocs

São cursos gratuitos de curta duração oferecidos por instituições de ensino superior e ofertados on-line. Podem tanto ser formações únicas, como sequenciadas em diversos módulos que compõem uma trilha diferenciada de aprendizado. Existem plataformas que agrupam cursos de diversas instituições de ensino nacionais e internacionais, entre elas Coursera e EDX, com ofertas em áreas de Humanas, Exatas e Saúde.

Idiomas

Dominar um segundo ou mesmo um terceiro idioma cada vez mais é requisito nas entrevistas de emprego. Mas não é só isso. Quem consegue se comunicar em outra língua, consegue enriquecer a própria jornada acadêmica. Dá para ler textos na língua original - especialmente importante nos casos em que há conteúdos sem tradução para o português - e expandir o contato com alunos, professores e profissionais de outros países, algo cada vez mais valioso na formação dos futuros profissionais.

Eventos

Fique atento à agenda de workshops, palestras e congressos, mesmo agora que tudo isso ocorre de forma remota. São momentos importantes por discutir novidades da área e apresentar conceitos em evidência no mercado. Além disso, são oportunidades para ter contato e se apresentar a profissionais de renome, aos quais seria difícil contatar fora de uma situação como essa.

Iniciação científica

Quem tem em mente a ideia de seguir carreira acadêmica (com um mestrado ou doutorado) ou quer pesquisar um tema específico da área de atuação pode aproveitar os anos da graduação para degustar a vida de pesquisador. Para isso, o melhor caminho é tomar parte em um projeto de iniciação científica. Aqui o aluno atua no apoio a um projeto de pesquisa conduzido por um especialista da instituição de ensino ou conduz a própria investigação.

Em geral, a participação no projeto dura um ano e é avaliada com relatórios. Para facilitar a dedicação, há bolsas de auxílio fornecidas por entidades como Fapesp e CNPq. É uma chance de ter contato com técnicas e metodologias investigativas avançadas e começar a montar uma valiosa rede de contatos acadêmico.

Veja também:

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Estadão
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