PUBLICIDADE

Diretora alega 'vocabulário de baixo nível' e pede censura de livro sobre racismo

Obra 'O Avesso da Pele', escrita por Jeferson Tenório, é uma crítica ao racismo no Brasil e já venceu o Prêmio Jabuti

2 mar 2024 - 14h59
(atualizado em 3/3/2024 às 09h34)
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
A diretora da Escola Ernesto Alves pediu a censura ao livro 'O Avesso da Pele', de Jeferson Tenório. O autor e a editora criticaram o pedido.
Capa do livro 'O avesso da pele', que faz crítica ao racismo no Brasil
Capa do livro 'O avesso da pele', que faz crítica ao racismo no Brasil
Foto: Reprodução/Companhia das Letras

A diretora de uma escola no Rio Grande do Sul pediu censura ao livro O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório, por considerá-lo "vulgar" e com "vocabulário de baixo nível". Em um vídeo publicado nas redes sociais, Janaína Venzon, que trabalha na Escola Ernesto Alves, julgou a obra inadequada para estudantes do Ensino Médio.

O livro é uma crítica ao racismo no Brasil e venceu o Prêmio Jabuti de 2021, na categoria Romance Literário. 

"Lamentável o Governo Federal, através do MEC [Ministério da Educação] adquirir esta obra literária e enviar para as escolas com vocabulários de tão baixo nível para serem trabalhados com estudantes do Ensino Médio. Solicito ao Ministério da Educação buscar os 200 exemplares enviados para a escola. Prezamos pela educação dos nossos estudantes e não pela vulgaridade", afirmou a diretora na publicação.

Ela ainda acrescentou que os professores não escolheram a obra, tampouco a escola.

"As obras literárias estão sendo escolhidas pelo Governo Federal. Desconheço o critério de escolha por parte do Governo. Só penso que deveriam analisar antes, para depois enviar para as escolas trabalharem", opinou.

O caso repercutiu e a diretora foi acusada de censura. O autor da obra também se manifestou após o vídeo que a diretora publicou.

Em nota, Tenório destacou que o livro foi avaliado pelo governo federal em 2021, ainda no governo Bolsonaro, e a própria diretora assinou a ata de escolha do livro.

"O Avesso da pele já foi adotado em centenas de escolas pelo Brasil, venceu o prêmio Jabuti, foi finalistas de outros prêmios, teve direitos de publicação vendidos para mais de 10 países, foi adaptado para o teatro. Além disso, o livro foi avaliado pelo PNLD, em 2021, ainda no governo Bolsonaro. A própria diretora assinou a ata de escolha do livro. As distorções e fake news são estratégias de uma extrema direita que promove a desinformação. O mais curioso é que as palavras de 'baixo calão' e os atos sexuais do livro causam mais incômodo do que o racismo, a violência policial e a morte de pessoas negras", disse Jeferson Tenório, autor de 'O Avesso da Pele'. 

Em suas redes sociais, a historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz criticou o que a diretora afirmou com relação à obra, e recebeu o apoio de personalidades como Patricia Pillar. A atriz afirmou que recolher os livros era "algo absurdo".

O que diz o MEC

Em nota, o Ministério da Educação afirmou ao Terra que o Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) é uma relevante política do Ministério da Educação, com mais de 85 anos de existência e adesão de mais de 95% das redes de ensino do Brasil. A permanência no programa é voluntária, de acordo com a legislação, em atendimento a um dos princípios basilares do PNLD, que é o respeito à autonomia das redes e escolas.

"A aquisição das obras se dá por meio de um chamamento público, de forma isonômica e transparente. Essas obras são avaliadas por professores, mestres e doutores que tenham se inscrito no banco de avaliadores do MEC. Os livros aprovados passam a compor um catálogo no qual as escolas podem escolher, de forma democrática, os materiais que mais se adequam à sua realidade pedagógica, tendo como diretriz o respeito ao pluralismo de concepções pedagógicas", diz a nota enviada pela pasta. 

Companhia das Letras emitiu nota de repúdio

A Companhia das Letras, editora que publicou o livro O Avesso da Pele, manifestou indignação diante da repercussão do vídeo feito pela diretora. Em nota, a editora informou que a obra foi aprovada por uma banca de educadores, especialistas e mestres, junto a outros 530 livros. 

A editora ainda destacou que, para chegar ao colégio, a obra precisou passar por aprovação da própria diretora, que assinou o documento de "ata de escolha" do livro e agora contesta seu conteúdo do livro. "Esses dados são transparentes e públicos", disse em nota.

"Como consequência, a 6ª Corregedoria Regional de Educação mandou recolher a obra das escolas até uma resposta do governo federal. [...] A retirada de exemplares de um livro, baseada em uma interpretação distorcida e descontextualizada de trechos isolados, é um ato que viola os princípios fundamentais da educação e da democracia, empobrece o debate cultural e mina a capacidade dos estudantes de desenvolverem pensamento crítico e reflexivo".

A Companhia das Letras ainda afirmou que repudia veementemente qualquer ato de censura que limite o acesso dos estudantes a obras literárias, sob pretexto de protegê-los de conteúdos considerados "inadequados" por opiniões pessoais e leituras de trechos fora de contexto.

"O que se destaca em O Avesso da Pele não é uma cena, tampouco a linguagem, mas sim a contundente denúncia do racismo que se imiscui em todas as nossas relações, até as mais íntimas", conclui o texto emitido pela editora.

O que diz a Seduc do Rio Grande do Sul

Em nota enviada ao Terra, a Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do Sul informou que não orientou que a obra O Avesso da Pele, integrante do PNLD do Ministério da Educação, fosse retirada de bibliotecas da rede estadual de ensino. Ainda segundo a pasta, a 6ª Coordenadoria Regional de Educação seguirá a orientação da secretaria e providenciar que as escolas da região usem adequadamente as obras.

"O uso de qualquer livro do PNLD deve ocorrer dentro de um contexto pedagógico, sob orientação e supervisão da equipe pedagógica e dos professores", diz a nota da secretaria.

Fonte: Redação Terra
Compartilhar
Publicidade
Publicidade