Decoreba, um chatbot por dúvida: veja erros comuns e dicas de como usar a IA na preparação do Enem
Especialistas alertam que alunos precisam entender como a inteligência artificial funciona e, assim, usá-la como assistente pessoal de estudos
Especialistas orientam que a inteligência artificial deve atuar como assistente de estudos para o Enem, e não como substituta do aprendizado. Recomenda-se alimentar a ferramenta com materiais confiáveis, manter um único histórico para gerenciar revisões e usá-la para sintetizar anotações e explicar erros. Na redação, o aluno deve produzir seus próprios textos e evitar fórmulas prontas. Por fim, a IA não substitui o esforço individual, a leitura atenta e a correção feita por professores humanos.
Na intensa rotina de preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), usar ou não inteligência artificial deixou de ser a questão principal. A discussão entre especialistas, alunos e professores, nos dias atuais, está mais focada em como essas ferramentas podem contribuir positivamente no aprendizado e no desempenho dos estudantes ao invés de prejudicá-los.
Veja abaixo dicas de especialistas sobre como tirar o melhor proveito da IA, evitando cair em armadilhas que podem afetar a autonomia e o esforço de aprendizagem do estudante.
Antes de tudo, entender como a IA funciona é fundamental
O primeiro passo é entender o que é Inteligência Artificial e como ela funciona, começando pelo conceito: uma área da ciência da computação que cria sistemas e máquinas capazes de executar tarefas que, normalmente, exigiriam inteligência humana. Esses sistemas são projetados para aprender com dados, utilizando algoritmos e modelos matemáticos para analisar grandes volumes de informações, interpretar linguagem natural e solucionar problemas complexos. O objetivo é simular habilidades cognitivas humanas, como o raciocínio, a percepção e o aprendizado.
Abasteça a ferramenta com dados confiáveis antes de começar a perguntar
A partir da compreensão de que a IA não é apenas um buscador, você pode transformá-la em um assistente pessoal de estudos. "O estudante precisa programar a ferramenta para trabalhar por ele em tarefas repetitivas. Essa é a grande mudança", afirma o diretor executivo das escolas Bernoulli Educação, Marcos Raggazzi.
Na prática, isso significa alimentá-la com materiais confiáveis antes de começar a fazer perguntas, inserindo na plataforma provas anteriores do Enem, simulados da escola, apostilas, anotações das aulas, redações bem pontuadas e até o edital do exame. "Quanto mais contexto a ferramenta recebe, mais assertivas se tornam as respostas."
Evite abrir um novo chat a cada momento de estudo
Um cuidado importante é manter um único histórico de conversa. "Não se deve abrir um chat novo para cada dúvida. Usando o mesmo chat, a IA passa a conhecer seus objetivos, o curso pretendido, os conteúdos já estudados e as dificuldades mais frequentes", diz o diretor do Bernoulli.
Ele afirma que esse histórico permite que a ferramenta assuma tarefas de gestão da aprendizagem. "Pode lembrar que amanhã você precisa revisar álgebra, que daqui a sete dias deve voltar àquele conteúdo e que, um mês depois, fará uma revisão final. Pode recuperar erros antigos dos simulados, criar novas questões sobre eles, elaborar flashcards e organizar um cronograma automaticamente."
Fotografe as próprias anotações e peça para IA organizar o material
Fabiana Vascon, coordenadora do Colégio Poliedro, reforça que o maior potencial das IAs está na possibilidade de que sejam programadas para acompanhar a aprendizagem ao longo do ano. Na avaliação dela, uma das aplicações mais úteis é justamente economizar tempo em tarefas repetitivas. Depois de resolver exercícios ou assistir às aulas, o estudante pode, por exemplo, fotografar as próprias anotações e pedir que a ferramenta organize aquele material em resumos, mapas mentais, fichamentos ou perguntas e respostas.
Peça para a ferramenta explicar por que sua resposta está errada ou certa
A estudante Fernanda Salvalaggio, do terceiro ano do Colégio Poliedro, conta que, no início da preparação, usava a inteligência artificial de uma forma pouco convencional: antes de solicitar explicações, escrevia tudo o que conseguia lembrar sobre determinado conteúdo.
"Depois eu pedia para ela mostrar onde eu estava confundindo conceitos ou esquecendo informações importantes. Isso me ajudava a entender exatamente o que precisava revisar."
Na reta final para o Enem, o uso mudou. "Depois dos simulados, peço que explique por que as alternativas erradas estão erradas. Às vezes eu acerto uma questão, mas não sei exatamente por quê. Entender esse raciocínio me ajuda a reconhecer padrões que aparecem em outras provas."
Fernanda, que utiliza a versão paga do ChatGPT e almeja o curso de Engenharia de Produção, também envia para a IA materiais produzidos pelos próprios professores. "Assim a ferramenta utiliza exatamente a abordagem que aprendi em sala de aula e não mistura conteúdos que ainda não estudei."
Redobre o cuidado quando utilizar IA para redação
As IAs também podem criar armadilhas, como a "ilusão de aprendizagem", o que pode levar os estudantes a confundirem uma boa resposta com domínio do assunto, afirma Ragazzi, do Bernoulli.
Isso aparece principalmente na redação. "Muitos pedem modelos baseados nas redações nota mil e decoram estruturas. O problema surge quando o tema muda. Se ele não desenvolveu repertório, argumentação e capacidade de adaptação, terá dificuldade para escrever."
Não terceirize sua capacidade de argumentar
Fabiana Vascon faz uma ressalva semelhante. "A IA pode sugerir novas perspectivas e ampliar repertório para redação, mas ainda está longe de reproduzir os critérios de correção das principais bancas. Aspectos como argumentação, progressão textual e construção da tese continuam exigindo avaliação humana."
Na preparação para a redação do Enem, a inteligência artificial pode ser uma aliada para ampliar repertório, levantar diferentes perspectivas sobre um tema, organizar argumentos e até apontar problemas em um texto.
A coordenadora do Colégio Poliedro alerta que um dos principais riscos é transformar a ferramenta em uma fornecedora de textos e estruturas prontas. Ao receber rapidamente uma introdução, uma tese ou uma argumentação bem organizada, o aluno pode ter a impressão de que assimilou aquele raciocínio, quando, na verdade, apenas teve acesso a uma resposta pronta.
A estratégia pode funcionar durante os estudos, mas mostrar suas limitações diante de um tema inesperado no dia da prova. A redação exige que o candidato mobilize repertório, estabeleça relações entre informações, sustente um ponto de vista e desenvolva uma argumentação coerente - habilidades que precisam ser exercitadas ao longo da preparação.
Fabiana também recomenda cautela com as correções feitas por inteligência artificial. Embora as ferramentas consigam identificar problemas gramaticais, sugerir mudanças e fazer avaliações gerais do texto, elas podem errar e têm limitações para reproduzir com precisão os critérios das principais bancas.
Elementos como construção da tese, qualidade da argumentação, progressão textual, pertinência do repertório e articulação entre as ideias exigem uma leitura mais cuidadosa e contextualizada. Por isso, a orientação é usar a IA como apoio e não como substituta de professores e corretores.
Produza o próprio o texto e peça para a IA avaliar
Uma possibilidade é inverter a lógica: em vez de pedir que a IA escreva a redação, o estudante deve produzir o próprio texto e depois utilizar a ferramenta para levantar questionamentos, identificar pontos que precisam ser aprofundados ou sugerir novas perspectivas. Assim, a tecnologia participa do processo sem retirar do aluno justamente a habilidade que será cobrada na prova: pensar, argumentar e escrever por conta própria.
Anexe provas recentes do Enem, simulados e apostilas
Outro cuidado envolve as questões produzidas automaticamente. Segundo Raggazzi, muitas inteligências artificiais elaboram perguntas baseadas apenas na memorização do conteúdo.
O problema é que o Enem avalia competências, habilidades e coerência. "Uma questão sobre Segunda Guerra Mundial, por exemplo, pode exigir que o estudante relacione aquele contexto com outro momento histórico ou faça inferências sobre comportamentos sociais. Não basta lembrar uma informação."
Por isso, uma estratégia mais eficiente é anexar provas recentes do Enem, simulados e materiais da escola antes de pedir novas questões. "O estudante também precisa treinar a inteligência artificial."
Questione respostas e dê comandos mais específicos
Os especialistas recomendam que o aluno questione a inteligência artificial, peça para que informe as fontes das informações, que compare diferentes versões e que explique como chegou àquela conclusão.
Raggazzi recomenda limitar as respostas aos materiais previamente enviados pelo estudante e solicitar que, sempre que recorrer a fontes externas, utilize instituições reconhecidas e especializadas. "A IA responde de forma muito convincente. Isso não significa que ela esteja certa."
Faça o dever de casa: assista as aulas com atenção e faça atividades sozinho
A inteligência artificial, contudo, não substitui o esforço necessário para aprender, afirmam os educadores. "Assistir às aulas com atenção, resolver exercícios, fazer simulados, escrever redações e receber correções humanas continuam sendo etapas indispensáveis", afirma o diretor do Bernoulli.
Para Fabiana, a diferença entre um bom e um mau uso da ferramenta está justamente aí. "O estudante que entende que a IA é uma parceira de organização tende a evoluir. Quem espera que ela estude por ele corre o risco de descobrir isso apenas no dia da prova."
"O importante é que esse material seja produzido a partir do que o próprio aluno estudou. A IA organiza, sintetiza e facilita a retomada do conteúdo meses depois", explica.
Essa organização faz diferença quando o volume de matérias começa a crescer. "Em maio, por exemplo, muitos alunos já estão revisando conteúdos vistos em fevereiro. Ter esse material organizado torna a revisão muito mais rápida."
Fabiana Vascon pondera, no entanto, que o conhecimento continua sendo construído pelo aluno. "A IA é um facilitador, um organizador. Ela não substitui o aprendizado".
Faça da ferramenta um ambiente controlado
Ainda que apresente benefícios, a tecnologia não substitui a leitura dos livros, o exercício da escrita e a realização de simulados, como lembra o diretor do Bernoulli, Lucas Raggazzi. No dia da prova, o estudante não terá acesso a ferramentas de apoio, então é preciso se testar nas condições que um exame como o Enem impõe.
Tanto o Poliedro quanto o Bernoulli utilizam ferramentas abastecidas com conteúdos produzidos pelas próprias instituições, como materiais didáticos, exercícios, simulados e outros recursos pedagógicos. A estratégia cria um ambiente mais controlado para o uso da tecnologia: em vez de buscar respostas em um universo aberto de informações, a IA trabalha a partir de uma base de conhecimento construída e validada pelas equipes pedagógicas.
Com isso, as escolas procuram reduzir o risco de informações incorretas e, ao mesmo tempo, manter as respostas alinhadas à metodologia e aos conteúdos que o estudante encontra em sala de aula.
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