Conteúdo sintético: A Era da Inteligência Artificial na educação
Os riscos e dilemas éticos do uso da IA por estudantes são inegáveis, mas, se bem utilizada por educadores, tecnologia pode fortalecer o pensamento crítico e valorizar a ética, responsabilidade e autonomia
O ChatGPT, uma das ferramentas de inteligência artificial (IA) mais utilizadas pelos estudantes, acaba de completar três anos de existência. Esse marco oferece uma oportunidade importante para refletirmos sobre os benefícios e os desafios que essa tecnologia tem introduzido no ecossistema educacional.
A história, no entanto, não é totalmente nova. Ao revisitar artigos e registros das décadas de 1970 e 1990, observamos um ceticismo semelhante e até certo "pânico" por parte de professores diante da chegada de tecnologias disruptivas, como o computador e, posteriormente, a internet.
Diante disso, surge uma questão central: o que realmente diferencia o uso de IA generativa de uma simples consulta no Google?
Investigando o conteúdo sintético
O problema não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é utilizada por estudantes que ainda estão em processo de aprendizado e formação do pensamento crítico. A IA generativa opera por meio dos chamados "grandes modelos de linguagem", ou LLMs (Large Language Models), que funcionam em um formato intuitivo de chat.
Nessa interação, o usuário faz uma solicitação e recebe uma resposta que, à primeira vista, pode parecer completa e até superior às pesquisas tradicionais realizadas manualmente. A dificuldade surge quando esses recursos passam a substituir o trabalho do estudante, em vez de atuarem como fontes complementares de conhecimento, resultando na produção de conteúdo estritamente sintético.
Conteúdo sintético refere-se a qualquer material gerado integralmente por sistemas de inteligência artificial, sem intervenção humana. Com o objetivo de compreender esse fenômeno e oferecer subsídios para a adaptação a essa nova realidade, conduzi um estudo longitudinal com estudantes que utilizavam IA em seus trabalhos acadêmicos.
O estudo foi inicialmente planejado para acompanhar os participantes por 12 meses, mas, devido à riqueza dos dados coletados e à necessidade de examinar o tema com maior profundidade, já se estende por dois anos.
Os primeiros resultados foram publicados na revista Technological Forecasting and Social Change e no congresso Society for Marketing Advances, nos Estados Unidos. A pesquisa ganhou notoriedade ao ser replicada por uma universidade no Texas, Estados Unidos, que realizou um estudo comparativo entre diferentes contextos que atualmente encontra-se em revisão em uma revista internacional.
A linha tênue entre o certo e o errado
Os resultados da pesquisa revelam que os estudantes têm utilizado a IA para aprimorar seu desempenho acadêmico. Eles relatam benefícios, como maior eficiência, aumento da produtividade e melhorias na qualidade da escrita, ao realizarem atividades com o apoio dessas ferramentas.
No entanto, o uso da IA também traz à tona um conjunto de dilemas éticos e de confiança que os próprios alunos reconhecem como questões que precisam ser discutidas. Alguns participantes, por exemplo, ressaltam a importância de refletir sobre a ética no uso da IA em trabalhos acadêmicos, enquanto outros demonstram cautela ao confiar nas respostas geradas de maneira puramente sintética: "Ainda sou cauteloso em confiar nas respostas da IA. Sempre tento verificar se a informação é precisa e às vezes não é."
Esses relatos evidenciam que, embora a tecnologia ofereça respostas completas e um suporte significativo, permanecem dúvidas sobre propriedade intelectual e plágio. Afinal, um texto produzido integralmente por IA pode ser considerado propriedade do estudante apenas porque ele desenvolveu o prompt que originou o conteúdo? Trata-se de uma discussão semelhante ao clássico dilema do ovo e da galinha: complexa, sem resposta definitiva e que exigirá tempo para ser compreendida de forma mais sólida.
Um concierge de luxo
Os riscos associados ao uso da IA são claros, mas, como diz o ditado, "não devemos jogar o bebê fora junto com a água do banho". Embora a IA represente desafios, ela também oferece benefícios significativos e pode contribuir para a melhoria da qualidade da educação, quando utilizada de maneira adequada.
Os estudantes, por exemplo, identificaram que, em vez de confiar cegamente na IA, podem empregá-la como um complemento ao trabalho humano. No contexto educacional, a IA vem sendo utilizada tanto como uma ferramenta de suporte à aprendizagem, capaz de desbloquear a criatividade, quanto como um assistente para tarefas complexas. Não à toa, alguns alunos passaram a descrevê-la como um verdadeiro "concierge de luxo": "Eu uso IA para auxiliar em tarefas complexas; ela ajuda a estruturar ideias complexas; é meu assistente de luxo."
Os resultados coletados ao longo de mais de 12 meses de pesquisa também mostram que estudantes prestes a concluir a graduação já estão incorporando a IA em suas rotinas profissionais. O uso dessa tecnologia para automatizar atividades rotineiras tem ampliado a produtividade e, simultaneamente, liberado tempo para atividades voltadas ao bem-estar, à inovação e ao desenvolvimento pessoal.
Limitações da IA e caminhos para sua integração no ensino
A IA, apesar de poderosa, não é infalível e frequentemente apresenta respostas equivocadas, fenômeno conhecido como "alucinações". Essa falta de precisão, somada às incertezas sobre resultados produzidos exclusivamente de forma sintética, tem preocupado alguns estudantes, que enfatizam a importância do papel humano nesse processo.
A responsabilização dos alunos representa uma mudança significativa em relação à visão de que a IA "faz o trabalho por eles", destacando a necessidade de que assumam um papel ativo como "árbitros da IA". Essa postura emergiu como um elemento central para o uso responsável da tecnologia no ensino superior.
Além de revelar desafios e benefícios sob a perspectiva dos estudantes, a pesquisa apresenta orientações para que docentes integrem a IA generativa em um cenário educacional onde alunos, cada vez mais, trabalham em parceria com essa tecnologia.
Para acompanhar essa transformação, os educadores precisam revisar tanto suas práticas pedagógicas quanto seus métodos de avaliação. Isso inclui propor atividades que incentivem os estudantes a questionar conclusões geradas pela IA e a aprimorar essas respostas por meio de análises mais aprofundadas, uma estratégia que fortalece o pensamento crítico.
Os professores também desempenham um papel fundamental ao ajudar os alunos a utilizar a IA de forma mais intencional e eficiente em tarefas acadêmicas e profissionais. Essa orientação envolve estabelecer regras claras para o uso da tecnologia e promover um ambiente que valorize ética, responsabilidade e autonomia.
Ao mesmo tempo, gestores de instituições de ensino têm responsabilidades importantes: oferecer recursos adequados, adaptar currículos à nova realidade tecnológica e investir na capacitação de professores e estudantes em aplicações de IA. Tais iniciativas contribuem para reduzir o estigma associado ao uso dessas ferramentas disruptivas e para promover um ecossistema educacional seguro, inovador e alinhado às demandas atuais.
A pesquisa segue em andamento. Em março de 2026, os estudantes completarão dois anos utilizando IA e, como muitos já concluíram a graduação, há grande expectativa para compreender como eles continuam interagindo com a tecnologia nesse novo momento de suas trajetórias.
Higor Leite não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.