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Teatro ajuda a driblar timidez no mercado e potencializa comunicação

Medo de se expor e do julgamento do colega pode atrapalhar na hora de conquistar vagas; especialistas dão dicas de como desenvolver soft skills

7 ago 2021 05h10
| atualizado em 9/8/2021 às 10h56
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Bruna sempre quis produzir conteúdos sobre games na internet e Adrieli queria conquistar uma promoção na empresa onde trabalhava. Ambas tiveram que passar pelo mesmo obstáculo, a timidez. Uma das habilidades mais valorizadas no mercado de trabalho é a comunicação e, com a pandemia, comunicar na internet se tornou essencial para diversos negócios e serviços. Mas para muitas pessoas o medo da exposição pode ser um desafio, assim como foi para Bruna e Adrieli.

No mês passado, publicações na rede social TikTok trouxeram a discussão sobre se ser tímido atrapalha na hora de criar conteúdo na internet. Tudo começou após a criadora de conteúdo digital Ana Luíza d'Utra Vaz, conhecida como SuperVulgar, publicar um vídeo comentando sobre o assunto. O post causou reações na internet e trouxe o questionamento: afinal, ser tímido é um problema para quem quer produzir na internet ou crescer na carreira?

A timidez é uma característica pessoal relacionada à insegurança em si mesmo e ao medo do julgamento, de acordo com Karen Vogel, psicóloga e professora da The School of Life, em São Paulo. "Ele lida com a possibilidade de falhar e que alguém eventualmente o avalie mal. Porém, essas são nuances em que a timidez não é um problema", explica Karen.

Falar em público, se posicionar e ter maior desenvoltura são exigências no mercado de trabalho. Na School of Life, a procura por cursos direcionados ao desenvolvimento da habilidade de confiança cresceu. De acordo com a instituição, as companhias tiveram um maior interesse em ajudar os colaboradores a superar a timidez, principalmente os estagiários.

Para a psicóloga, a cultura social reforça a extroversão e por isso pessoas tímidas podem não ser notadas no espaço onde trabalham. "São pessoas que se desempenham tão bem quanto uma pessoa extrovertida", diz Karen, "Elas só não falam ou colocam aos quatro ventos que está fazendo algo fantástico".

De acordo com o relatório especial "Demanda por talentos no cenário atual", divulgado no último mês pela empresa de recrutamento Robert Half, a principal habilidade a ser demandada no segundo semestre de 2021 segundo o olhar dos empregadores é a comunicação (em segundo lugar, vem liderança). Foram entrevistados cerca de 1.500 executivos em março deste ano em cinco países.

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Já na perspectiva dos colaboradores, segundo o estudo, a comunicação vem em segundo lugar entre as capacidades a serem aperfeiçoadas, depois de habilidades tecnológicas.

Teatro como um caminho

Em 2017, a administradora Adrieli Monteiro, 30, desejava conquistar uma vaga de consultora de vendas sênior na empresa onde trabalhava. Para conseguir o cargo, Adrieli precisava realizar cursos e treinar os novos funcionários. A pressão das empresas para que os funcionários fossem mais extrovertidos sempre a levou a achar que ser tímida era uma desvantagem.

Foi buscando um caminho para driblar a timidez que ela conheceu Raquel Médici, professora do curso "Comunicação e expressão: comunicação e criatividade para adultos", do Instituto WM. A atriz ajuda adultos a desenvolverem suas habilidades de comunicação por meio de técnicas de teatro como atividades de articulação da voz, jogos e exercícios para musculatura do rosto.

Dor de barriga, suor nas mãos e o famoso "deu branco" antes de alguma exposição eram queixas comuns relatadas pelos profissionais que chegavam à Raquel. O trabalho consiste em conhecer a timidez do aluno, em quais situações ela atrapalha e quais seus sintomas físicos. Depois, a atriz articula a relação da comunicação com o corpo. "Nós lidamos com as visões que temos de nós mesmos, conhecemos até onde conseguimos ir, no que somos bons ou não e também conscientizamos sobre o nosso corpo", explica.

Para Adrieli, as técnicas de teatro passadas por Raquel a ajudaram a se soltar mais. Hoje ela é gerente regional de uma empresa multinacional. "Eu acho que é isso de você se soltar. Você ser quem você é porque, às vezes, nós ficamos nessa concha interna e não queremos nos abrir com medo que as pessoas nos vejam vulneráveis", diz. Ela acredita que os empregadores também têm um papel importante na hora de observar e entender que nem todos funcionários são extrovertidos (veja no vídeo abaixo como fazer uma comunicação eficiente no trabalho).

O teatro também ajudou a criadora de conteúdo Bruna dos Santos, 23. Desde adolescente Bruna tinha o sonho de trabalhar com a internet. Porém, por ter tido experiências de bullying na escola, a jovem tinha receio que a insegurança se refletisse nos vídeos. Em 2016, ela entrou para o teatro na escola Empório Cultural, enquanto fazia o curso de direito na Universidade de Brasília.

"Testar formas de mover o corpo, diferentes vozes e dar a cara a tapa, mesmo que eu achasse que eu não ia conseguir fazer, ajudava, porque quando eu saia do número era tipo 'olha não foi tão ruim'", conta.

O sonho de se tornar uma criadora de conteúdos se concretizou em 2020 quando criou o perfil Ithuriana na rede social TikTok, onde ela fala sobre games. Com mais de 200 mil seguidores na rede, Bruna se acostumou a controlar a timidez, mas confessa que às vezes a insegurança volta. "Mesmo depois que você se acostuma um pouco, ainda vai vir aquela voz na cabeça. Volta e meia eu posto um vídeo e fico olhando o tempo inteiro pra saber se fiz algo que foi estranho", disse.

Dicas para driblar a timidez

Em situações pontuais, a timidez não é um problema, mas se o medo de se expor e a insegurança impedirem o profissional de ter novas oportunidades ou experiências, é preciso estar atento. De acordo com Raquel, o primeiro passo é reconhecer em quais situações a timidez acontece e quais sintomas a acompanham.

"É descobrir quais são os pontos que te deixam desconfortável e sempre pensar que é uma barreira por dia. Nunca você vai conseguir pular os dez degraus de uma vez, você vai subindo degrau por degrau ao ponto que você se sente mais confortável na frente de uma pessoa", explica.

A exposição pode ser maior nas redes sociais, por isso Bruna compartilha estratégias que criou para não deixar que os haters a afetem. Uma delas é controlar aquilo que se quer expôr e o que prefere guardar para si. "Quando existe uma separação boa, eu acho que a chance de você depois ficar preocupada sobre o que foi postado e sobre as repercussões disso são menores e consequentemente isso gera menos ansiedade", diz a gamer. No caso de Bruna, criar a personagem de "Ithuriana" a ajuda a separar sua vida privada da virtual.

Outro conselho é expandir a zona de conforto aos poucos e sempre entender seus limites. Bruna relata que a insegurança fazia com que não aproveitasse os momentos por medo da opinião alheia. A ideia de "eu sou um nada e as pessoas são monstros", como ela diz, é comum. Porém, começar é um passo importante para que a zona de conforto se expanda e para que, aos poucos, a confiança cresça.

Entender que o julgamento faz parte da vida também é um dica, segundo a psicóloga Karen. Segundo a profissional, o importante é saber que se alguém o julga como ruim, isso não necessariamente é verdade. "É preciso aprender essa maleabilidade entre a opinião do outro e a dele próprio, porque senão ele se esconde e fecha pra ficar pra ficar protegido da opinião do outro", esclarece Karen. Se a situação ficar muito incômoda, a psicóloga recomenda procurar um profissional.

Estadão
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