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'É preciso ter ócio, tédio e preguiça, palavras demonizadas pela cultura empresarial'

Para psiquiatra e professor Guilherme Navarro, traçar objetivos de ano novo, ato que mimetiza modo corporativo de funcionar baseado em metas, é gatilho para ansiedade

18 dez 2021 05h11
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Traçar metas de ano novo é atividade costumeira para muitas pessoas. Mas, em alguns casos, principalmente quando não se consegue concretizar o que foi idealizado, pode se tornar gatilho para ansiedade e outros problemas de saúde mental.

"Antes de tudo, é preciso questionar por que precisamos de metas? Se a pessoa não tem uma visão crítica sobre isso, o fato de não atingi-las pode ser um reforço negativo e uma frustração", afirma Guilherme Navarro, psiquiatra clínico e forense e professor da Faculdade de Saúde e Ecologia Humana (FASEH), em Vespasiano, região metropolitana de Belo Horizonte (MG).

Para o professor, há causas que podem impedir o profissional de realizar suas metas de ano novo, como ter resoluções que não estão em consonância com o que se quer. "Porque são introjeções do que ele viu na indústria cultural, na mídia, em redes sociais etc.", diz Navarro.

Segundo ele, é comum ter sensação de vazio após cumprir metas que não são do desejo genuíno do indivíduo. "E a cada ano, elas vão ficando cada vez mais ousadas, ambiciosas e difíceis de serem alcançadas. Aí vem a frustração."

Por que fazemos metas de ano novo?

A forma como a sociedade se organiza no sistema de trabalho influencia a nossa subjetividade. Isso significa que o nosso padrão de felicidade, de sucesso e de 'estar subindo na vida' (como se a vida fosse uma subida) é influenciado por um modo empresarial de funcionar, baseado em tópicos e metas. Temos que alcançar mais e mais, como se fosse uma corrida, uma grande competição.

Chegamos ao final do ano extremamente cansados e há um feriado que traz uma ideia de renovação, ainda que seja puramente uma data, que é bem conveniente para voltarmos a trabalhar no ritmo anterior do início do ano.

O próprio fato de a gente pensar em metas é um reflexo desse padrão subjetivo de funcionar. Primeiramente, teríamos que perguntar: por que preciso de metas? Mas isso é tão naturalmente introjetado pela cultura que às vezes nem pensamos nos objetivos, o que pode ser um problema.

Quando elas podem se tornar um problema para o indivíduo?

Se não tomarmos cuidado, nos tornamos nosso próprio chefe, nosso próprio empregado e estabelecemos conosco determinados padrões de metas que talvez não tenham tanto a ver com o que profundamente almejamos enquanto realizações pessoais.

Isso pode ser um problema quando as metas são apenas reflexos de introjeções sociais. Quando elas não têm a marca do sujeito e não estão conectadas com os seus próprios anseios há um problema de incompatibilidade. Com isso, elas não vão se cumprir, porque o indivíduo não vai ter condições subjetivas de correr atrás.

Esse não é o modo mais solidário e coletivo de se pensar a vida. Ainda que eu não esteja competindo abertamente com alguém, a meta é feita em comparação a outras pessoas, por exemplo, da minha faixa etária ou da minha profissão. Essa competição vivida internamente pode ser causa de sofrimento.

O fato de estamos tão imersos no mundo do trabalho e influenciados de maneira indireta e direta por produtos culturais ('coma bem', 'faça atividade física' etc.), acaba nos deixando com a sensação de que estamos sempre em débito com a vida e conosco e que precisamos fazer algo a respeito.

Não somos infinitos e invencíveis. Precisamos descansar, ter uma noite de sono de qualidade, de ócio, tédio e preguiça, que são palavras demonizadas pela cultura empresarial. É engraçado que o feriado, que era para ser um momento de fim de ano para ficar em família, viajar e ter momentos prazerosos, o indivíduo já está pensando de forma acelerada, no próximo ano e na próxima meta.

Por que muitas pessoas não conseguem cumprir as resoluções?

Essa incongruência entre as metas estabelecidas e concluídas tem duas origens. Uma, que é mais interna, que nem sempre essas metas estão realmente em consonância com o que a pessoa quer genuinamente, porque são introjeções do que ela viu na indústria cultural, na mídia, em redes sociais etc.

Quando a pessoa não elabora o que realmente quer, isso muito facilmente a impede de cumprir seus objetivos ou de se sentir preenchida. Por isso, é comum permanecer com a sensação de vazio mesmo após cumprir as metas. A cada ano, estas vão ficando cada vez mais ousadas, ambiciosas e difíceis de serem alcançadas. Aí vem a frustração.

Esse padrão de pensamento em check list precisa de uma reflexão anterior. É importante se perguntar o porquê de se fazer isso. Se faz sentido para a vida da pessoa e se está em consonância com as possibilidades subjetivas e materiais daquele momento. Em caso positivo, está tudo bem correr atrás de algo que queira.

Outra questão é que nem todas as pessoas têm condições materiais e estruturais de atingir suas metas. Se o objetivo é, por exemplo, uma barriga chapada, pode até ser que a pessoa realmente queira, mas se ela é uma mãe de família que trabalha três turnos, como vai conseguir? As oportunidades e as possibilidades de cumprir metas, ainda que estejam em consonância com os desejos mais profundos e internos do indivíduo, não são distribuídas igualmente para todos. Alguns têm mais possibilidades materiais de se fazer isso do que outros.

Há também questões subjetivas que impedem as pessoas de cumprirem metas, tanto da própria condição de trabalho atual que vivemos, envolvendo, por exemplo, desemprego, precarização dos contratos de trabalho e questões políticas e sociais. Além disso, problemas de saúde mental, como as do universo da ansiedade, também podem ser impeditivos para a conclusão de metas.

As metas podem ser causa de sofrimentos mentais?

Burnout, ansiedade e depressão são exemplos. Quando pensamos nos adoecimentos psíquicos, estes surgem diante da relação de vulnerabilidades biológicas, sociais, psíquicas e comportamentais, que todos nós temos em maior ou menor grau, e estressores externos.

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Determinados momentos de vida muito estressantes podem ser gatilhos de vulnerabilidades que a pessoa nunca soube que tem, levando a quadros de saúde mental, como obsessivo, ansioso, depressivo, bipolar, psicótico, delirante etc. Não existem adoecimentos específicos.

Se as metas se tornarem um estressor muito grande, mesmo uma pessoa previamente tranquila, que não tem nenhuma questão de saúde mental, pode começar a vivenciar algo e é importante que isso seja percebido o quanto antes. Já as pessoas que convivem com quadros como o de ansiedade podem se sentir piores.

Pode se dizer, então, que são gatilhos para a ansiedade?

A ansiedade, quando é um transtorno, já é vivida como um sentimento bastante incômodo projetado para o futuro. E as metas são projetadas para o futuro. Com isso, a pessoa pode aumentar o processo de preocupação, o que leva a um estado paralisante, gerando mais frustração.

Se as metas não estão alinhadas com desejos elaborados do que o indivíduo realmente quer, com certeza por ser gatilho para mais ansiedade. Vejo isso com alguma frequência. Pessoas ansiosas porque não conseguem cumprir ou porque colocam metas muito acima das possibilidades subjetivas e materiais do momento de vida. Isso aumenta a quantidade de preocupação e traz sentimentos e sensações desagradáveis.

Quais as dicas para quem tem dificuldade para concluir objetivos?

O indivíduo precisa se perguntar o porquê das metas. Nem sempre vai conseguir responder sozinho, às vezes precisará conversar com outras pessoas ou mesmo precisará de um processo psicoterápico. Não precisamos ter todas as respostas dentro de nós e, em geral, não temos.

Se vejo sentido nas minhas metas, preciso pensar em como ir atrás delas no meu momento atual de vida e nas minhas possibilidades psíquicas, subjetivas e materiais. É possível de serem realizadas? Em caso negativo, vamos ficar em paz com isso e no momento certo vamos em busca.

Não existe uma fórmula, porque somos muitos plurais. Se existisse, estaria pensando num modo muito empresarial. Mas acho que um bom caminho é sempre se perguntar se essas metas e desejos têm realmente sentido e se estão alinhados com o que quero, como vejo o mundo, sobre o que penso e o que quero ser daqui a um tempo.

Uma vez que esses desejos surjam é importante colocá-los no nosso tempo e não na correria da vida. Fazendo dessa forma, com calma, e percebendo que, eventualmente, tropeços podem acontecer, e buscando ajuda quando necessário, pode ser que flua mais naturalmente.

Estadão
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