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Educação: pesquisa avalia níveis de bem-estar, bullying e vitimização em escolas brasileiras

A influência combinada de assédio psicológico, agressões físicas e apelidos ofensivos alterou a percepção de bem-estar de parcela significativa dos 1.766 estudantes avaliados no estudo, feito por meio de autorrelatos

19 fev 2026 - 10h50
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Todo mês de fevereiro, as escolas reabrem suas portas para o início de um novo ano letivo. A iminência da volta às aulas, contudo, ainda é sinal de sofrimento para alguns alunos, em especial adolescentes. Para estes, em vez de expectativa, o que retumba no peito é medo. Receio de mais um ano de sofrimento, bullying e trauma. E o silêncio ainda é, na maioria das vezes, a única forma de resistência, pois muitas vítimas não conseguem verbalizar para professores, gestores escolares e pais o que está se passando com eles.

O impacto do bullying na vida de adolescentes não se limita ao momento da agressão nem ao espaço escolar. Trata-se de uma experiência que pode deixar marcas profundas e duradouras, influenciando trajetórias emocionais, sociais e até profissionais.

Para entender de forma mais aprofundada a sensação de bem-estar, clima escolar, bullying e vitimização nas escolas, nós - pesquisadores das universidades do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Salgado de Oliveira e da PUC-Rio - investigamos a percepção de 1.766 crianças do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo.

Esses dados foram obtidos pela aplicação de questionários durante a terceira onda do Projeto Internacional Mundos das Crianças no Brasil.

As meninas foram a maioria (55,3%) entre os participantes da pesquisa. A idade média foi de 11 anos. E os alunos eram tanto de escolas públicas (72%) como de privadas (28%).

Bem-estar

Os dados foram coletados por meio de questionários de autorrelato, utilizando escalas do International Survey of Children's Well-Being (ISCWeB), criado em 2015 e já testado em vários países. O bem-estar subjetivo foi medido pelo Children's Worlds Subjective Well-Being Scale (CW-SWBS), desenvolvido por Casas e Rees, em 2015, e inclui questões como: "Eu gosto da minha vida"; "Minha vida está indo bem"; "Tenho uma boa vida"; "As coisas que acontecem na minha vida são excelentes"; "Estou satisfeito(a) com a minha vida".

Por este instrumento, crianças de 10 e 12 anos são convidadas a responderem em uma escala de 11 pontos, variando de 0 a 10, em que 0 corresponde a "Não concordo" e 10 a "Concordo totalmente".

O bem-estar subjetivo refere-se às avaliações que os indivíduos fazem de suas próprias vidas, considerando tanto aspectos cognitivos quanto afetivos. A dimensão cognitiva está associada à satisfação com a vida, enquanto a dimensão afetiva engloba as emoções e os sentimentos positivos e negativos vivenciados pelo indivíduo.

Nos últimos anos, as investigações científicas sobre esse tema deixaram de se concentrar exclusivamente na criança e passaram a explorar de forma mais ampla os ambientes que a cercam, incluindo, por exemplo, as relações interpessoais e fatores culturais, além de incorporar impactos psicológicos e mecanismos intrínsecos relacionados ao seu bem-estar.

Vários estudos científicos já demonstraram que o contexto escolar exerce influência relevante sobre o bem-estar subjetivo de crianças e adolescentes.

Interações assertivas e de apoio com professores e colegas estão positivamente correlacionadas à satisfação com a vida dos estudantes.

Vitimização e clima escolar

Outra abordagem do estudo focou no clima escolar e na vitimização por bullying. Para medir a vitimização por bullying, foi utilizada uma subescala de Illinois Bullying das autoras Dorothy Espelage e Melissa Holt, em 2001 com os seguintes itens:

"Outros estudantes riram de mim"; "Outros estudantes me incomodaram e me provocaram"; "Outros estudantes me chamaram por apelidos maldosos"; "Fui atingido(a) e empurrado(a) por outros estudantes".

Já para mensurar o clima escolar, utilizamos cinco itens da pesquisa Children's Worlds:

"Meus professores se preocupam comigo"; "Se eu tiver algum problema na escola, meu professor vai me ajudar"; "Se eu tiver um problema na escola, eu tenho amigos que vão me apoiar"; "Meus professores me ouvem e levam em consideração o que eu digo"; "Sinto-me seguro na escola".

A presença de conflitos entre pares no cotidiano escolar pode desencadear desde desentendimentos leves até formas extremas de violência, afetando o bem-estar de toda a comunidade.

Esse cenário configura o bullying e uma condição de risco, que pode levar o indivíduo a desenvolver transtornos psicológicos, sociais e cognitivos em diferentes níveis.

Esses conflitos geralmente têm origem em dinâmicas interpessoais que envolvem insultos verbais, preconceito, exclusão, agressões físicas e bullying.

A vitimização por bullying entre crianças é caracterizada como uma forma de abuso entre pares que ocorre de maneira frequente e repetitiva, causa dano intencional, é praticada por uma ou mais crianças e envolve um desequilíbrio de poder.

Por sua vez, o clima escolar revela a atmosfera dominante da instituição acadêmica, considerando as percepções dos alunos e demais atores da comunidade escolar incluindo aspectos sobre bem-estar, segurança, relacionamentos, ambiente e processos de ensino e aprendizagem.

O objetivo desta investigação foi verificar a contribuição do clima escolar (dimensão relacional aluno-professor e aluno-aluno) e da vitimização por bullying como variáveis preditoras do bem-estar subjetivo de crianças brasileiras.

Revelações de nosso estudo

Os resultados de nossa investigação, publicada na revista científica Child Indicators Research, indicaram que 31% da variação no bem-estar subjetivo foi explicada pelos itens analisados.

Observou-se uma associação positiva e significativa entre o clima escolar positivo — nas dimensões aluno-aluno e aluno-professor — e o bem-estar subjetivo dos estudantes.

Isto é, os achados empíricos indicam que estudantes em ambientes com um clima escolar positivo, tanto entre amigos quanto entre professores, apresentaram melhores níveis de bem-estar.

No contexto do clima escolar entre os alunos, verificou-se que crianças que relataram ter amigos em quem confiar em momentos de adversidade na escola demonstraram um nível mais elevado de bem-estar.

Adicionalmente, melhorar o clima escolar (relação aluno-professor) pode promover significativamente o bem-estar dos estudantes, especialmente em contextos em que a vitimização é um problema.

É importante quando os estudantes sentem que os professores se preocupam com eles, que podem compartilhar suas experiências adversas e quando se sentem ouvidos em suas opiniões. Isso pode ter um efeito protetor adicional, quase suprimindo o prejuízo causado pela vitimização.

Por outro lado, a vitimização apresentou uma relação negativa significativa com o bem-estar dos estudantes. A influência combinada de ser humilhado, agredido fisicamente e chamado por apelidos ofensivos por outros alunos prejudicou o bem-estar subjetivo dos participantes do estudo, explicando 7,29% da variância no bem-estar subjetivo da amostra.

Em resumo, ficou evidenciada a relação negativa da vitimização por bullying no bem-estar, estando assim a vitimização associada a uma redução do bem-estar subjetivo das crianças e adolescentes.

O que a comunidade científica já sabe?

Estudos longitudinais sobre vitimização demonstram que tanto a frequência quanto a intensidade refletem prejuízos à vítima, incluindo solidão e exclusão, além de problemas de saúde mental, como depressão e ideação suicida, entre outros.

Outras pesquisas indicam que crianças vitimizadas apresentam níveis mais elevados de ansiedade e insegurança quando comparadas a seus pares não vitimizados.

A literatura indica que comportamentos de bullying na escola estão associados a baixos níveis de bem-estar, e esses resultados são consistentes em diferentes culturas.

Esse tipo de situação enfatiza a vitimização como fator de risco para a satisfação com a vida, em razão de seu impacto prejudicial no desenvolvimento infantil ao longo do tempo.

Relações baseadas em apoio e respeito no ambiente escolar, aliadas ao sentimento de pertencimento, podem, por outro lado, fornecer suporte psicológico essencial ao desenvolvimento infantil e influenciar a satisfação com a vida dos estudantes, o que, por sua vez, contribui para um clima escolar mais positivo.

A satisfação com os amigos é considerada um forte preditor do bem-estar subjetivo. A percepção de lealdade e o apoio dos amigos também influenciam a satisfação com a vida das crianças e podem, inclusive, mitigar os impactos da vitimização.

Limitações do estudo

Uma limitação deste estudo está relacionada ao uso de medidas de autorrelato para avaliar o clima escolar, considerando apenas as dimensões relacionais entre estudantes e entre estudantes e professores.

Além disso, a proposta do estudo impediu a observação dos comportamentos dos participantes em relação à vitimização, à satisfação com a vida e a outras variáveis relacionais examinadas ao longo do desenvolvimento. Essa limitação impossibilita o estabelecimento de relações causais entre as variáveis.

Lições

É fundamental incorporar as experiências e percepções dos estudantes na compreensão das dinâmicas de violência nas escolas. Dessa forma, iniciativas e ações — como intervenções — podem ser implementadas com maior assertividade, respeito e adesão.

Ações que respeitem e incluam a voz das crianças, assim como programas de apoio construtivo e intervenções psicoeducativas nos contextos social e escolar, devem ser implementados nas esferas federais, municipais e estadual.

Esses resultados reforçam a importância de intervenções personalizadas para lidar com a vitimização e aprimorar o apoio social nas escolas, criando um ambiente mais seguro e acolhedor para todos os estudantes.

Em nossa opinião, pesquisas futuras nessa área poderão incorporar também as perspectivas de professores e gestores escolares, o que contribuirá para maior validade e aprofundamento dos achados.

Esta pesquisa recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). _E a publicação deste artigo contou com o apoio da Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes)._

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Vanessa Barbosa Romera Leme recebe financiamento da FAPERJ, CNPq e Capes

Aline Lopes Moreira não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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