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FÓRUM
Os direitos das crianças e dos adolescentes são cumpridos como prevê o Estatuto?

ARTIGO

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Uso da internet para pedofilia é tendência perigosa

O médico psiquiatra Mauro Mercadante, de 55 anos, é especializado em tratar de adolescentes e pré-adolescentes no seu consultório na Clínica Enfance, na cidade de São Paulo. Ali, pelo menos há 25 anos, ele trabalha com todo tipo de conflito psicológico que caracteriza essa faixa de idade. O episódio do vice-cônsul israelense no Rio, acusado de pedofilia, seria suficiente para estimular seu interesse. Porém, Mercadante acrescenta uma preocupação extra ao fato: a Internet.

Mais uma vez, a Internet está associada a ocorrências policiais que envolvem crianças e adolescentes. No caso do Rio, trata-se de fotografias pornográficas de crianças que seriam distribuídas pela rede. Esse tipo de crime pertence ao mesmo mundo dos chats e outras formas de contato via rede - camuflados ou não - em que adultos pervertidos procuram atrair crianças e adolescentes. No entender do psiquiatra, o mau uso da Internet está ganhando contornos de uma tendência perigosa que pede urgente atenção de pais e educadores em geral. Por isso, ao ser procurado para falar sobre pedofilia, ele impôs uma condição: "Falo, se puder falar de Internet também".

A pedofilia tem aparecido com freqüência na mídia. Ela está aumentando?
Acredito que não. A manifestação da pedofilia está e sempre esteve no mesmo nível de outras alterações da sexualidade normal, como as práticas sadomasoquistas, o fetichismo etc. A pedofilia é um fenômeno similar a essas condutas. O que está acontecendo, no meu entender, é uma exposição maior dela por causa da Internet. A Internet está propiciando a sua disseminação e também de outros temas congêneres. É esta a novidade que precisa ser examinada com atenção e cuidado.

Como a Internet está favorecendo essa disseminação?
Os pedófilos estão se expondo mais, através de um veículo de divulgação que, em princípio, permite o anonimato contra a censura da sociedade e o peso da lei. Tanto isso é verdade que há uma ampla campanha em todo mundo contra sites que tratam de pedofilia. Repare que, ultimamente, todos os episódios policiais relativos à pedofilia têm a Internet no meio. Isso dá a impressão de que o fenômeno está crescendo. Não. Está apenas sendo mais divulgado.

E por que os pedófilos estão se expondo mais?
Porque são aficionados pelo assunto. Pode parecer chocante, mas é como se um praticante de hobby, um filatelista, por exemplo, procurasse debater algo que lhe seja agradável. Quer dizer: o pedófilo busca o compartilhamento e encontrou o meio de fazê-lo com certa liberdade através da Internet. É aquele impulso de buscar a aceitação da sua preferência sexual, de encontrar e conviver com a sua tribo. Estamos falando de pedofilia, mas poderíamos também falar de nazismo e outras formas de racismo - coisas que são muito reprimidas - que florescem na Internet. Um pedófilo encontra nesse espaço uma forma de livre expressão que é duramente censurada pela sociedade.

De qualquer modo, a divulgação pode atrair outras pessoas para essa tribo?
É verdade. Pessoas que teriam a pedofilia reprimida, de repente podem tê-la excitada ou reexcitada - enfim, despertada.

No território livre da Internet, os pedófilos podem envolver outras pessoas, principalmente crianças e adolescentes. Mas antes vale esclarecer: o que é pedofilia?
Do ponto de vista médico, a pedofilia é vista como uma perversão, uma alteração da sexualidade normal. Ela é caracterizada quando o pedófilo tem cinco anos a mais do que a criança, levando-se em conta a seguinte referência de idade: o pedófilo, de 16 anos para cima; e a criança, de 13 anos para baixo. É a partir daí que a coisa começa. Estudos demonstraram que, no caso de meninas, o pedófilo tem atração por aquelas de idades menores, digamos, de 10 anos, e no caso de meninos, os acima dessa.

E por que foram estabelecidos os cinco anos e o limite de idades?
Porque se as pessoas envolvidas fossem de idades iguais, não seria pedofilia. Parece óbvio, aparentemente. Mas ocorre que, entre adultos com larga diferença de idade sempre existe a possibilidade de escolha ou a capacidade de reagir do mais novo.

E por quê existem os pedófilos?
A pedofilia é explicada pelas teorias psicanalíticas estabelecidas por Sigmund Freud. Sua manifestação consiste na persistência de elementos da sexualidade infantil no adulto. Vou tomar o exemplo de outra perversão da sexualidade, que é o fetichismo, isto é, a atração sexual despertada por um objeto, um detalhe do corpo humano etc. Como Freud imaginou o fetichismo por sapatos, por exemplo? Pelo fato de a criança ter tido experiências sexuais agradáveis olhando o sapato da mãe e associando-o ao seu prazer. No caso da pedofilia, o pedófilo, no seu desenvolvimento, pode ter sentido excitação sexual e prazer no contato criança com criança. A intensidade desse prazer causou um impacto de tal ordem que isso se instalou como uma forma maior de obter o prazer sexual. É algo infantil e primitivo, do ponto de vista psicológico, "fixado" pela pessoa durante seu desenvolvimento e que persiste na vida adulta.

A pedofilia tem cura?
Num tratamento psicológico, o paciente pode expor seu problema e chegar à compreensão e ao entendimento do fenômeno e superá-lo.

A pedofilia é mais comum entre os homens?
Na maioria dos casos. Mas pode existir com a mulher e suponho que seria mais aceito ou menos perceptível por razões culturais, uma vez que pode ser confundido com manifestação do instinto maternal.

Vamos voltar à Internet. Como uma criança ou adolescente pode ser cooptado por pedófilos?
Crianças ou adolescentes são muito seduzidos pelo computador. Pelo que pude observar, há um comportamento-padrão entre as famílias: quando a criança vai para o computador, os adultos se afastam. Minha suspeita é que se reproduz o fenômeno da televisão: o equipamento funciona como babá eletrônica. Aparentemente, a criança está na segurança de sua casa, sem ficar fazendo solicitações, deixando os pais sossegados. Eles ficam com a impressão ilusória de que ela está protegida. Ou seja: os pais pensam que os filhos estão seguros nos seus quartos, quando estão navegando por chats de pedófilos, de drogas etc.

Os pais não desconfiam?
Eles não sabem que a criança pode estar sendo invadida por informações sobre as quais não tem o menor senso crítico e pode encampá-las. Tem contato com assuntos dos quais não tem idéias compreensíveis e os processa à sua maneira. Essa cooptação pode ser facilitada porque a criança não sabe com quem está falando. Do outro lado, seu interlocutor diz que tem a mesma idade, quando pode ser 20 ou 30 anos mais velho e, com toda a sua bagagem de vida, não tem dificuldade em envolvê-la. Atrevo-me a dizer que, hoje, um menino de 9 anos é mais informado sobre uso de drogas, fetichismos etc, do que sobre a masturbação e outras questões sexuais próprias da sua formação e que seriam úteis para seu desenvolvimento. O problema é que todos esses problemas não são debatidos nem em casa e nem na escola. Ficam soltos.

É a velha falta de diálogo com os filhos?
Por incrível que pareça, com toda essa modernidade, o diálogo continua difícil. Só que vêm surgindo elementos novos que reclamam a urgência de se praticar o diálogo. Se a criança, pela sua própria condição e circunstâncias, é facilmente seduzida pelo computador, um pedófilo, por exemplo, invariavelmente é uma pessoa sedutora. Sabe seduzir. Pessoas com personalidade psicopática, e o pedófilo o é, são, em geral, extremamente sedutoras. O maníaco do parque é um exemplo: somente a sedução explica como conseguia levar suas vítimas para um lugar isolado e naquelas circunstâncias.

Ao falar em sedução, o senhor se refere ao velho esquema de oferecer guloseimas, brinquedos etc.?
Não. Isso é muito tosco. Hoje pode se falar na promessa de um telefone celular, de um teste para modelo fotográfico, cinematográfico ou na televisão.

Existe algum jeito de proteger as crianças na Internet?
Há pais que procuram reduzir as horas dos filhos no computador. Mas o importante é saber onde o filho está navegando. E aqui eu ressalto a importância do diálogo. Se ele existir, o filho comentará suas incursões ou os pais terão liberdade para perguntar. Também existem programas que podem informar aos pais sobre os sites que as crianças visitam.

Mas também existe o risco de os pais exagerarem no controle.
Eu tenho medo da paranóia, da exacerbação de controle que vai repercutir negativamente na criança e na vida familiar. Por outro lado, todo esse histórico de falta de diálogo leva a criança a esconder dos pais. E é bom lembrar que a criança e o adolescente estão numa fase de mudanças do corpo, do afloramento de sua sexualidade, de forma que têm uma curiosidade natural para o assunto e isto é o estímulo a entrar em chats que tratem de sexualidade - para o bem ou para o mal - para serem supridas daquilo que não recebem em casa e nem na escola. Ao mesmo tempo, há a necessidade de impedir que a criança tenha, precocemente, contato com o sexo e a violência. Pela Internet, a criança pode falar tanto com o filho de um crente quanto com o filho de um ex-hippie, cada um apresentando sua cultura e forma de educação, sem estar preparada para processar esse imenso volume de informações. Sinceramente, eu não sei como resolver isso. O ideal seria haver um clima familiar para se conversar com liberdade.

Quais são, em geral, as conseqüências de abuso sexual para as crianças?
O abuso sexual deixa marcas. Há casos de meninas que foram submetidas a manipulações por pedófilos e cujos efeitos se manifestaram mais tarde. É oportuno lembrar que esse relacionamento nada tem a ver com amor e sim com destrutividade, com perversidade. O pedófilo sabe que está infringindo as leis e as normas éticas. Portanto, não tem princípios éticos e nem morais. A criança é apenas um objeto de prazer para ele. A percepção disso e do engodo a que foi submetida, traz à pessoa um grande sofrimento psicológico que pode interferir na sua realização pessoal. Sem esquecer que, muitas vezes, há violência e sofrimento físicos.

O caso do vice-cônsul israelense e outros episódios anteriores dão a impressão de que os envolvidos em pedofilia no Brasil são estrangeiros. Essa impressão é justificada?
Acho que não. Esses casos ganharam projeção por causa da faixa social das pessoas envolvidas e do barulho em torno da repressão ao turismo sexual. Mas não podemos esquecer da quantidade de crianças brasileiras pobres que são prostituídas. Não é uma quantidade pequena. Também não podemos esquecer de uma prática da cultura brasileira em que meninas virgens eram colocadas em leilão nos prostíbulos para serem defloradas por adultos. Em todos esses casos fala-se em exploração de menores ou crianças, mas omite-se a palavra pedofilia. Acredito que se isso fosse colocado sob o foco da pedofilia, o impacto seria maior.

Redação Terra / Jornal da Tarde

 
 
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