Do dado à decisão: jogos são cada vez mais importantes no debate sobre clima na educação
Da sala de aula ao tabuleiro, a educação climática para crianças e adolescentes pode ir além da repetição da urgência com método, contexto, linguagem e recursos que transformam informação em experiência.*
No tabuleiro colorido do Jogo do Clima, o percurso não é linear. Ele serpenteia entre sol, nuvem, chuva, lua, arco-íris e personagens infantis, como se traduzisse uma verdade que a escola ainda custa a incorporar: entender a crise climática não é decorar conceitos isolados, mas aprender a navegar um sistema complexo, desigual e muito incerto.
Foi por esse caminho que Daniela Resende de Faria chegou à tese defendida no Instituto de Geociências da Unicamp em 2025, depois de investigar como promover educação em mudanças climáticas na educação básica brasileira e de ouvir 65 professores em atividade no país. O estudo concluiu que a área depende, ao mesmo tempo, de educação crítica centrada no estudante, abordagens interdisciplinares, conexão com o contexto real dos alunos e recursos de aprendizagem capazes de gerar engajamento.
A tese de Daniela surgiu de uma inquietação ao atuar com formação de professores do 6º ano ao Ensino Médio. Ela começou a questionar por que era tão difícil ensinar mudanças climáticas de um modo que fizesse sentido para os estudantes, já que o conteúdo é complexo e multidisciplinar.
O resultado, testado antes na docência e depois sistematizado em sua tese de doutorado, foi a criação de jogos interativos, como o Jogo do Clima, o Jogo da Educação em Mudanças Climáticas, e o Jogo Riscos e Desastres entre outros disponíveis gratuitamente no perfil do Instagram @entrando_no_clima. O projeto, criado pelo Laboratório de Pesquisa em Educação Ambiental e Geociências (LabEduc), desenvolve atividades e pesquisas de extensão e formação de professores sobre mudanças climáticas e educação ambiental.
Cidadania científica
O achado conversa com um problema bem maior que o cotidiano escolar brasileiro. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) sustenta que a educação climática deve formar conhecimento, habilidades, valores e atitudes para que as pessoas atuem como agentes de mudança, e tem tratado o tema como eixo da sua agenda de trazer o meio ambiente para a educação.
Já a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), responsável pelo principal exame comparativo internacional da educação (conhecido como Pisa), foi na mesma direção ao incluir o tema da agência no Antropoceno, voltado a medir em que grau adolescentes de 15 anos conseguem compreender problemas socioecológicos, avaliar evidências e agir diante deles. Não é pouca coisa: trata-se de reconhecer que clima já não é um tema periférico da educação, mas competência de cidadania científica.
Também não faltam evidências para essa mudança. Segundo o relatório da Unicef sobre o futuro da infância, as crises climática e ambiental são centrais, um quadro que combina diferentes ameaças à saúde, à segurança e à vida cotidiana. Entre essas ameaças, o calor extremo tende a ganhar escala: na década de 2050, cerca de oito vezes mais crianças poderão estar expostas a ondas extremas de calor em comparação com os anos 2000.
Em 2024, por exemplo, 242 milhões de estudantes, em 85 países, tiveram aulas interrompidas por eventos climáticos extremos. A educação climática, porém, não se torna necessária apenas quando a crise chega à escola: ela deve ser parte estruturante da formação escolar. Nos territórios onde enchentes, calor extremo, deslocamentos e insegurança alimentar já atravessam a vida dos estudantes, essa necessidade ganha outra concretude. Ensinar clima passa a exigir não só informação, mas linguagem, contexto e escuta do território.
O impacto sobre crianças e adolescentes não é apenas pedagógico. A Organização Mundial da Saúde (OMS) lembra que reduzir riscos ambientais poderia evitar 1 em cada 4 mortes infantis e que, em 2016, quase 1,6 milhão de mortes de crianças menores de cinco anos foram atribuíveis ao ambiente.
Já a Unicef destaca que crianças têm cérebros, pulmões e sistemas imunes em desenvolvimento e, por isso, são mais vulneráveis à poluição, ao calor extremo, à desidratação, à insegurança alimentar e aos desastres, além da associação entre calor extremo e aumento de problemas de saúde mental, incluindo transtorno de estresse pós-traumático e depressão em crianças e adolescentes.
É nesse ponto que a contribuição de Daniela ganha densidade. Sua pesquisa mostra que o jogo sozinho "seria apenas mais um jogo" se não viesse acompanhado de contexto, intencionalidade pedagógica, infraestrutura escolar e mediação docente. A própria orientadora da tese, Priscila Coltri, resume o cuidado: é preciso "todo um trabalho em sala de aula" para que o recurso se efetive pedagogicamente. O mérito da pesquisa está em deslocar o jogo do campo do entretenimento para o da arquitetura pedagógica.
Nos resultados da tese, mais de 90% dos docentes consideraram adequadas as duas versões do jogo sobre mudanças climáticas e desastres: uma online e outra impressa. Entre eles, 80% preferiram o jogo de tabuleiro; 56,9% enxergaram nos jogos uma ferramenta útil para diagnóstico dos conhecimentos prévios, 40% para avaliação formativa e 47,7% para avaliação somativa.
Em uma atividade com estudantes da rede municipal de Campinas, no Museu Exploratório de Ciências, na Unicamp, uma professora que preferiu não se identificar, resumiu o efeito da proposta:
"A iniciativa de levar os jogos para os estudantes é muito importante porque eles aprendem como se estivessem vivenciando aquilo. Quando a gente está com muitas informações soltas, não aprendemos tanto quanto quando estamos brincando e o conteúdo chega de forma lúdica e leve."
"Quebra de rotina"
Um dos alunos, de 11 anos, do 6º ano de uma escola da rede municipal de Campinas, afirma que os jogos ajudaram a "ver o que o nosso planeta está passando" e a ter "consciência do que estamos fazendo com ele". A conexão com o território apareceu quando ele foi perguntado se já havia vivido algo relacionado ao tema: "Eu já vi um alagamento perto da minha casa."
Em parte, os jogos ainda são vistos como recurso de "quebra de rotina". Nos jogos criados por Daniela Resende, eles aparecem como operadores de aprendizagem ao ajudar a mapear repertório prévio, estimular a reflexão, produzir registro pedagógico e avaliar avanços na aprendizagem. Na sua pesquisa, 44,6% dos docentes já disseram usar jogos em sala, e a maioria também indicou a interdisciplinaridade como condição central para enfrentar os desafios da educação climática. Assim, seu trabalho busca articular linguagem acessível, aprendizagem ativa e compromisso com evidência científica.
A literatura internacional tem caminhado em direção semelhante. Um artigo de 2025 no Journal of Environmental Studies and Sciences, baseado no codesign de um jogo com crianças, professores e mediadores, concluiu que jogos podem ajudar crianças a desenvolver a capacidade de agir, a conexão com o mundo real e a compreensão do sistema climático, além de fortalecer a dimensão coletiva da ação. Outro estudo do mesmo ano, publicado no International Journal of Disaster Risk Reduction, avaliou um jogo sobre adaptação climática com 707 estudantes do ensino médio na Alemanha.
Os autores discutiram efeitos sobre conhecimento, confiança em medidas de adaptação e o risco de exacerbar medos climáticos. São exemplos de que o campo está amadurecendo, mas também aprendendo que engajamento não dispensa avaliação rigorosa.
Esse cuidado é relevante porque o debate público sobre infância e clima tende a subestimar as crianças, como se o tema fosse complexo demais para elas ou explorar a catástrofe em nome da conscientização, produzindo medo sem mediação. O que essa abordagem criativa propõe é um terceiro caminho: tratar crianças e adolescentes como sujeitos capazes de compreender a crise, desde que a escola lhes ofereça linguagem, contexto, diálogo e experiências adequadas.
Iniciativa #EntreNoClima
A discussão começa a ganhar escala no Brasil e mostra que o país começa a reconhecer o problema. Em 2025, a Unicef Brasil lançou a iniciativa #EntreNoClima, voltada à educação baseada na natureza, com materiais e metodologias para redes de ensino. Mais de 120 mil estudantes de Recife, Salvador, Distrito Federal e Rio Grande do Norte devem ser alcançados até o final deste ano, a partir da formação de 4 mil professores.
No fim, o aspecto mais inovador desse tipo de abordagem é o reconhecimento de que a educação climática não cabe mais em uma aula isolada de geografia, em uma semana temática ou em abordagens generalistas sobre "salvar o planeta". Ela exige desenho pedagógico, material aberto, interdisciplinaridade, dados locais e sensibilidade para os efeitos físicos e psíquicos da crise sobre crianças e adolescentes.
Exige, sobretudo, que a escola pare de falar do colapso como um futuro distante e comece a tratá-lo como aquilo que já atravessa o corpo, a casa, o bairro e a sala de aula. Com isso, um tabuleiro deixa de ser só uma distração e passa a ser uma forma de tratar os impactos do clima sem naturalizar a catástrofe.
Jaqueline Nichi não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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