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O renascimento da genealogia e os seus novos horizontes

28 abr 2020
12h49
atualizado em 2/5/2020 às 09h34
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Se muitas pessoas nem ao menos sabem o que significa genealogia, aqueles que o sabem, em grande parte, imaginam homens idosos cercados por livros e arquivos empoeirados, normalmente pertencentes a famílias importantes de alguma região. Mas diversos fatores estão contribuindo para o aumento no interesse pelos estudos genealógicos e cada vez mais jovens, com perfis variados, buscam conhecer as suas origens.

Foto: Martins Castro Consultoria / DINO

As facilidades de acesso aos acervos documentais graças à digitalização permitiram que qualquer pessoa pudesse, sem sair de casa, pesquisar as origens das famílias. Grupos em redes sociais contam com milhares de membros que diariamente trocam informações sobre fontes, acervos e tiram dúvidas sobre alguma família menos conhecida. Com isso, os estereótipos sobre os estudos genealógicos estão sendo quebrados e o processo de renovação das fileiras de pesquisadores tem se acelerado.

Quem encontra Raphael Ricardo (34), com seu cabelo longo e camisetas pretas de bandas de rock, dificilmente imagina se tratar de um genealogista experiente. Doutorando em história pela Universidade Nova de Lisboa (UNL), o pesquisador trabalha descobrindo a genealogia de candidatos à nacionalidade portuguesa por meio dos antigos judeus sefarditas. "Comecei o contato com a genealogia estudando o Brasil Colônia e Império, e saber de onde vieram as personalidades que construíram a sociedade nestes períodos, suas relações de parentesco, é importante para compreender as relações socioeconômicas", explica.

Já Fernando Alexandre Silva (50) encara a genealogia como passatempo. Seus primeiros passos na genealogia foram ainda em 1992, quando começou a pesquisar suas raízes familiares. "A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (da qual ele faz parte) me ajudou e ainda ajuda muito nestas pesquisas por ter um acervo enorme de registros de pessoas já falecidas do mundo todo", explica.

Fernando diz que mais do que uma diversão e novos conhecimentos, a genealogia lhe aproximou de familiares até então desconhecidos. "Além da curiosidade de conhecer a família, este contato permitiu saber que é comum aos membros da família apresentarem problemas cardíacos, o que pode servir de alertas para que as novas gerações cuidem da saúde". Apesar do problema hereditário, ele faz questão de acalmar os parentes: "é comum os membros da minha família viverem em média 85 anos".

Assim como em outras áreas do conhecimento, a genealogia foi tradicionalmente dominada por homens. Hoje em dia, contudo, as mulheres têm se destacado, tornando-se referências na área. É o caso da historiadora e genealogista Camila Amaral (33), que como pesquisadora já tinha contato com a genealogia, embora não fosse o foco dos seus trabalhos, como o que vem desenvolvendo em seu projeto de doutoramento também na UNL.

"São muitos os fatores que influenciam a dificuldade das mulheres em ocuparem espaços como a genealogia. Como qualquer outro campo de saber, a genealogia é um espaço majoritariamente masculino, mas nós mulheres estamos conseguindo ocupar este espaço cada vez mais e com excelentes resultados", avalia Camila, que atualmente lidera a equipe de genealogistas da Consultoria Internacional Martins Castro, uma empresa com sede em Lisboa, especializada em genealogia sefardita.

Até o início do século XXI, quando um nobre ou um grande proprietário de terras se dedicava a estudar seus antepassados, o objetivo era comprovar e tornar pública a sua descendência aristocrática. Isso para justificar a sua condição social e, ainda, garantir alguns benefícios, como o ingresso em ordens religiosas e militares de prestígio que exigiam uma "linhagem pura", sem antepassados indesejáveis. "Gosto de ver as pessoas em busca de sua genealogia, pois isso muda o paradigma de que só as grandes famílias, os grandes barões teriam direito ou só faria sentido para eles melhorarem o status social", comemora Raphael Ricardo. "A busca ultrapassa a árvore genealógica. As pessoas se envolvem com os municípios e estados onde vivem, como chegaram até ali e quais os motivos. "

Camila Amaral concorda com o colega. Para a historiadora, mesmo as pessoas que iniciam a pesquisa pelo direito a uma cidadania estrangeira seguem buscando informações sobre os antepassados. "Dificilmente vejo as pessoas abandonando as pesquisas depois de conquistarem a nacionalidade portuguesa pelos sefarditas, por exemplo. Quando você pega o bichinho da genealogia, ele alimenta cada vez mais sua curiosidade".

Além da curiosidade

A curiosidade que dá início à busca pelos antepassados é algo natural e instintivo do ser humano, segundo o doutor em antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Luciano Borges: "Dentro das grandes perguntas que movem a humanidade, 'quem somos?', 'de onde viemos?' e 'para onde vamos?', saber sobre a própria família, sobre si, é inquietante". Segundo o professor, é como uma memória coletiva, um fio que une toda a humanidade, e cada pessoa busca integrar-se nesse todo, como o elo de uma corrente.

Além disso, Luciano Borges destaca que, mais do que uma mera curiosidade, graças à busca pela naturalização, a genealogia deve ser encarada como uma questão econômica e política. "Muitas pessoas estão revisitando a sua ancestralidade para ter acesso a cidadanias para além das suas de nascimento. Neste caso, a genealogia seria não só o desejo de encontrar esse elo inicial, mas de obter benefícios econômicos, políticos, culturais", finaliza.

Busca pela identidade ou prática política, o certo é que a genealogia passa por um renascimento, um processo de transformação e modernização, e graças à curiosidade humana, cada vez mais pessoas estão conhecendo suas histórias. Além disso, ao encontrarem seus diversos ramos familiares mais antigos, podem perceber que todos temos mais em comum do que poderíamos imaginar.



Website: https://martinscastro.pt

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